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EDIÇÃO 274    Junho/2012
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Reportagens

Movidos a paixão. E ambição.

Deca Furtado

Crescer exige, antes de tudo, gente que pensa. Que o diga a Iveco Latin America. Desde 2007, quando iniciou investimentos em Sete Lagoas, MG, é a empresa que mais cresce no mercado de caminhões. Naquele ano seu market share foi de 3,9%, em 2012 chegou a 9,5%. Não contente, a empresa, que em breve inaugurará uma fábrica de veículos militares e estuda o mercado de ônibus, pretende avançar ainda mais e ficar em paridade com as líderes.

Todavia, a Iveco está numa região onde não há formação de executivos dirigida para o setor. Como recrutar profissionais indispensáveis ao avanço? A resposta está em dois programas desenvolvidos pela empresa: o Potência Máxima, cujo público-alvo são os estagiários, e o Start!, destinado a jovens recémgraduados nas universidades.

O primeiro, iniciado em 2007, é a menina dos olhos de Marco Mazzu, presidente da Iveco: “Tínhamos um desafio de curto prazo e um objetivo de médio prazo. Trouxemos pessoas do grupo, contratamos outros e conseguimos alcançar a primeira meta”. Mas para continuar crescendo era preciso construir a cultura da empresa. “Queremos profissionais que façam carreira na empresa. Daí termos criado o Potência Máxima e depois o Start!”

O Potência Máxima é um programa de estágio monitorado, com duração de 24 meses. O estudante entra no programa no terceiro ano de faculdade. Seis meses depois passa por uma avaliação. Se aprovado, passa por outra aos dezoito meses. Se bem avaliado, ganha um pequeno projeto e, aprovado ao fim dos 24 meses, é contratado. O estagiário é acompanhado de perto pela empresa. “O diretor de cada área tem a obrigação de conhecer os estagiários que estão em sua órbita. Na Iveco o estagiário não deve ser visto como tal e sim como um futuro líder”, diz Mazzu.

Inovações. O programa segue a regulação do Ministério do Trabalho, mas com diferenciais. Na Iveco, todo estagiário, com ganho atual de R$ 800 por mês, tem um tutor. A cada seis meses esse tutor é responsável por assinar uma avaliação, na qual analisa características técnicas e comportamentais do jovem. Na dos dezoito meses, o presidente da Iveco e a diretoria se reúnem e repassam o desempenho de todos os participantes.

“O tutor tem de responder às seguintes perguntas: Ele pode ser contratado? Poderá ser de alto nível em três ou quatro anos? Se sim, somos obrigados a contratá-lo”, conta Ionara Pontes Domingues, diretora de recursos humanos da Iveco.

Os números mostram a importância do programa. Dos 430 estagiários que passaram pela companhia desde 2007, 189 foram contratados. No mesmo período, o quadro dos administrativos passou de 250 para 711. Ou seja, 26,5% do quadro atual de executivos da Iveco vieram do Potência Máxima. Evidentemente, é mais barato ter um programa desses do que apostar em contratações no mercado.

Há ganhos não facilmente mensuráveis também. A qualidade é um deles. “Ela aumentou muito”, assegura Ionara. Ter uma turma cheia de gás e interessada certamente melhora a produtividade e a qualidade em qualquer empresa. E isso tende a compensar amplamente a falta de experiência da turma. Aliás, a falta de experiência é uma vantagem competitiva em termos de energia, disposição, abertura ao novo e capacidade de resposta rápida.

Sucesso. Rafael da Silva Godoy foi da primeira turma de estagiários. Ele se formou em administração em 2010, mas contratado em 2009. Hoje é representante comercial para o Rio de Janeiro e Espírito Santo. “Meu trabalho é mais de gestão de revendas”, diz Godoy. “A Iveco está crescendo, abre muitas oportunidades e proporciona muitos desafios. Isso é estimulante para mim. Por estar neste cargo ainda nem tive tempo de pensar no Start!, mas ainda pretendo disputar uma vaga.”

O Start!, lançado em setembro de 2011, foi desenvolvido com a PUC-MG porque, dentre outras razões, “ela conhece a linguagem do grupo Fiat e tem um corpo docente muito qualificado”, diz Ionara.

A carga horária da pós-graduação é de 1,2 mil horas, mais do que o triplo da exigida pelo MEC, de 360 horas. Não tem moleza: são 6 horas por dia. Mas os alunos ganham bem: dos R$ 2,4 mil iniciais passaram a ganhar R$ 3,8 mil. A expectativa da Iveco é absorver 100% das turmas, mas a contratação dependerá do desempenho de cada um. A empresa selecionou sessenta de 3 mil candidatos que concluíram a graduação nos últimos três anos e dividiu-os em três turmas de vinte alunos cada. Uma turma estuda engenharia automotiva, outra engenharia de manufatura e a terceira estratégia empresarial.

Os alunos ficam quase a metade dos dezoito meses do programa em imersão na companhia, em áreas específicas, para o primeiro contato com a realidade do trabalho que ele poderá vir a desenvolver. Essas são áreas muito valorizadas no mercado. Mesmo assim, aos alunos não é imposto nenhum compromisso com a empresa. Ele é apenas moral. Ou seja, caso queiram, terminado o programa eles poderão optar por outro empregador.

A Iveco selecionou também noventa de seus executivos e, via PUC Minas, treinou-os para as aulas práticas à moçada – a universidade é a responsável pelo ensino teórico. Com isso, o Start! é uma pós-graduação em Iveco.

Paixão. Os alunos aprendem com os executivos, por exemplo, nos processos de compras, como escolher o fornecedor, como avaliar qualidade, indicadores de custos etc. Ionara mesmo deu aula de como organizar e gerenciar o RH. “Nesse processo, quem mais aprende são os professores, mesmo porque essa nova geração é composta por gente com vontade, garra, energia, e que fala a linguagem do futuro.” É claro que os gerentes aproveitam para definir quem gostariam de ter na sua equipe.

Mazzu diz que a característica que mais valoriza é a paixão: “Não quero gente que apenas ambicione ser, um dia, diretor da empresa. Ambição sem paixão não funciona, mesmo porque o trabalho é duro. E trabalhar duro no que não se gosta não vale a pena”.

Dentro disso, o perfil que a empresa buscou foi o de pessoas com nível de maturidade maior. “Queríamos os batalhadores, aqueles que tiveram de lutar muito para chegar até aqui tendo de superar obstáculos como o pouco dinheiro e trabalho conjugado com o estudo”, diz Ionara. “Por isso demos preferência para quem nasceu no Interior, é mineiro e estudou em universidades próximas a Belo Horizonte. O mineiro gosta de ficar por aqui e isso facilita a retenção de talentos.”

A primeira fase foi a que os alunos estiveram imersos na fabricante, tendo aulas com os executivos. Agora eles estão na segunda fase, mais específica, dada pelos professores da PUC. Quem é da turma de engenharia automotiva está vendo, por exemplo, resistência de materiais, os da manufatura estudam eletrônica aplicada e os da área administrativa, estatística.

Cleto Lucas Lessa Balbino, 24 anos, bacharel em relações internacionais, está na turma de estratégia empresarial do Start! e já fez um MBA: “O Start! prepara melhor porque é totalmente customizado e muito superior à qualquer pós-graduação oferecida no mercado. Aqui conseguimos desenvolver todos os conhecimentos adquiridos”.

A terceira etapa do Start!, também de dezoito meses, será aquela em que os participantes entrarão para a área que lhes for destinada. “Estamos agora definindo onde cada um entrará”, revela Ionara. Portanto, nenhuma turma foi formada até agora. Terminado o curso, a empresa deve providenciar outro, mas para o nível gerencial. Em junho do ano que vem, sim, ela deve iniciar novo ciclo do Start!.

Gente jovem. E depois? A Iveco é uma empresa formada por gente jovem – a idade média das pessoas em cargos administrativos é de 34 anos. Está crescendo e as oportunidades de ascensão, surgindo. “Nossa resposta é lapidar o talento de quem já está na empresa e pode ser destaque no futuro”, diz Ionara. Hoje há em torno de noventa pessoas com essa perspectiva. Cada uma delas tem um mentor. Ionara, por exemplo, é a mentora de seis: “Elas têm entrevista comigo a cada mês e vejo os problemas e a necessidade de algum reforço”.

Há gente muito boa entre essas noventa, assegura. “Das últimas cinco de quem fui mentora, todas tinham potencial para crescer na Iveco. É cedo para avaliar se alguém chegará a CEO. O fundamental é que sintam que a empresa acredita neles e que têm oportunidad. Mas tudo depende deles”, finaliza Mazzu.

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