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Mercedes-Benz eActros testado na Suzano revela maturidade técnica da eletrificação 

Rodamos com o caminhão elétrico que a Suzano testa em rotas regulares e produz dados consistentes de autonomia, consumo energético e produtividade

Suzano, SP – A eletrificação de caminhões pesados no Brasil avança devagar porque está condicionado por variáveis como custo de aquisição, infraestrutura de recarga e adaptação operacional. No entanto alguns projetos começam a romper essa barreira ao apresentar dados concretos em aplicações reais. É o caso da operação conduzida pela Suzano com o Mercedes-Benz eActros, que se destacou pela robustez técnica e consistência operacional. Acompanhamos um dia da jornada deste caminhão elétrico entre duas fábricas da maior produtora de celulose do mundo, que pretende descarbonizar ainda mais as suas operações logísticas.

A Suzano incorporou o caminhão elétrico à sua cadeia logística sem alterar a estrutura já existente. Na prática o modelo atua no transporte de fluff pulp, matéria-prima de baixo peso específico utilizada na fabricação de produtos absorventes, com carga líquida média de 21 toneladas por viagem. 

A escolha da aplicação não é trivial. Em outras palavras trata-se de uma operação com alta previsibilidade, rotas definidas e baixa variabilidade de demanda, características ideais para a eletrificação de caminhões pesados.

Ciclo operacional e eficiência energética

O eActros foi inserido em rotas de transferência da unidade fabril de Suzano, SP, e o centro de distribuição em Arujá, SP, em um percurso de aproximadamente 36 quilômetros. O ciclo completo inclui ida carregada e retorno vazio, totalizando cerca de 72 quilômetros por viagem. Na prática o veículo realiza duas viagens diárias, alcançando uma média operacional de 150 quilômetros por dia.

Esta quilometragem não representa o limite técnico do veículo. Segundo dados levantados na operação o consumo energético indica potencial para superar 250 quilômetros com a mesma configuração de carga e perfil de rota, ainda que a operação não exija esta extensão.

A análise do consumo reforça este cenário. Em um ciclo típico o caminhão consome de 18% a 19% da bateria no trecho carregado e cerca de 10% a 11% no retorno vazio. Ao fim do dia, mesmo após duas viagens completas, o veículo ainda mantém de 35% a 40% de carga disponível.

Este comportamento evidencia a eficiência energética do conjunto e a adequação da aplicação ao perfil do veículo. 

Arquitetura elétrica e desempenho dinâmico

Embora a Mercedes-Benz ainda não tenha informado publicamente todos os parâmetros técnicos das unidades em teste no Brasil o eActros 300 utilizado na operação segue a arquitetura global do modelo. Ou seja: conta com sistema de baterias de íons de lítio e tração elétrica com torque instantâneo. Na prática este conjunto se traduz em respostas dinâmicas superiores às do diesel em determinadas situações, especialmente em retomadas e aclives. A percepção do motorista confirma esse comportamento.

“No começo eu tinha receio por ser elétrico, principalmente em subida. Mas ele responde rápido, tem mais força do que a versão a diesel. Se precisar entrega sua potência toda de uma vez”, relatou Washington de Jesus Dias, motorista com quinze anos de experiência.

A ausência de caixa de câmbio convencional elimina interrupções de torque, garantindo aceleração linear e contínua. Este fator, combinado ao torque máximo disponível desde zero rpm, impacta diretamente a produtividade em ciclos urbanos e regionais.

Além disto o sistema de regeneração de energia contribui para otimizar o consumo, especialmente em trechos com desaceleração frequente, o que é comum em operações logísticas de fábricas a centros de distribuição.

Pacote tecnológico

O eActros também se diferencia pela integração de sistemas eletrônicos avançados, que elevam o padrão de conectividade e segurança. A cabine mantém a base do Actros rodoviário e incorpora interfaces específicas para gestão energética.

O painel digital apresenta indicadores como consumo em kWh/km, fluxo de energia, nível de regeneração e autonomia estimada em tempo real. Outro destaque é o sistema Adas, que inclue frenagem autônoma de emergência, alertas de colisão e monitoramento ativo do entorno.

“Se aparece um veículo na frente ele alerta e freia sozinho. Isso traz mais segurança para mim e para quem está na estrada.”

O modelo adota retrovisores digitais MirrorCam, solução que ainda enfrenta resistência inicial por parte de motoristas habituados ao sistema convencional mas que tende a se consolidar pela melhoria aerodinâmica e pela redução de pontos cegos.

Gestão de energia e estratégia de recarga

A operação na Suzano segue um modelo de recarga noturna, alinhado ao perfil de uso do veículo. O caminhão opera das 8h00 às 18h00, e permanece conectado à infraestrutura de carregamento durante a noite. Este formato elimina a necessidade de recargas intermediárias, simplifica a logística e reduz a dependência de infraestrutura pública. Ainda assim o projeto contempla diferentes cenários.

Segundo Mike Munhato, gerente de mobilidade elétrica da Mercedes-Benz, a ideia da Suzano inclui o uso de carregadores próprios mas a Mercedes-Benz oferece soluções de recarga em regime de comodato.

TCO, previsibilidade e impacto no custo operacional

Um dos pontos mais relevantes da eletrificação é a análise de TCO, custo total de propriedade. Embora o investimento inicial ainda seja elevado neste caso o eActros não está à venda no Brasil. Mas a operação na Suzano evidencia ganhos consistentes no custo operacional.

De acordo com Wellington Fernandes, responsável pela logística da empresa, o caminhão elétrico não sofre impacto da variação do diesel: além do custo energético inferior, que a empresa ainda não quer revelar, a eletrificação reduz a exposição a variáveis macroeconômicas, como as atuais oscilações no preço do diesel. Este fator se torna ainda mais relevante em operações de grande escala, com alto volume de viagens diárias.

Já Munhato, da Mercedes-Benz, pondera que o equilíbrio econômico depende da aplicação: “O caminhão elétrico sempre será mais eficiente energeticamente. Mas o custo de aquisição ainda pode impactar o TCO em algumas operações”.

Atualmente seis caminhões operam na transferência fábrica-armazém na Suzano, sendo quatro elétricos. A meta da companhia, todavia, é eletrificar 100% da operação: “Estamos estruturando para ter toda a transferência elétrica. Pela previsibilidade, pelo conforto e pela sustentabilidade”.

O movimento não se limita aos caminhões. A empresa também planeja eletrificar a frota de empilhadeiras, ampliando o conceito de logística de baixo carbono dentro da cadeia.

Prova de conceito como base para o futuro

Seja como for o projeto com o eActros integra projeto mais amplo da Mercedes-Benz, que prevê a ampliação dos testes para até quinze clientes no Brasil durante todo 2026, disse Munhato:

“A prova de conceito tem sido muito positiva. Os dados de desempenho, feedback de motoristas e viabilidade operacional mostram que estamos no caminho certo”.

Com a evolução da tecnologia de baterias e o avanço da infraestrutura a tendência é que o escopo de aplicação se amplie gradualmente. E isto significa sair de operações urbanas e regionais para rotas cada vez mais longas.

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