Ano 34 | Fevereiro 2026 | Edição 429 A FORÇA DOS BIOCOMBUSTÍVEIS BRASILEIROS Etanol, biodiesel, HVO e biometano precisam acelerar seu imenso potencial de descarbonização fóssil From the Top José Éverton Fernandes, Fenauto BALANÇO DO MOVE BRASIL Crédito mais barato para caminhões começa a fazer efeito MOVIMENTOS DO MERCADO Ranking de 2025 indica tendências para 2026 BIOTRANSIÇÃO
» ÍNDICE Fevereiro 2026 | AutoData 6 KPMG ESPECIAL BIOTRANSIÇÃO Linha de financiamento criada pelo governo com R$ 10 bilhões e juros reduzidos começa a reaquecer as vendas de caminhões no início do ano, mas ainda há incertezas Balanço de vendas de automóveis em 2025 aponta transformações nas estratégias de fabricantes e seus modelos para ganhar ou defender suas posições em 2026 Carro lançado para substituir o antigo Kicks começou a ser produzido na fábrica de Resende, que será único polo exportador do SUV para mais de vinte países na América Latina. Marca chinesa do Grupo Chery chega ao Brasil com a importação de três SUVs híbridos plug-in: S06, T1 e T2. Empresa pretende instalar centro de pesquisa e desenvolvimento no País. Vendas externas de veículos brasileiros avançaram acima das expectativas em 2025, mas resultado pode ser efêmero; e foi ofuscado pela invasão de carros chineses CAMINHÕES BALANÇO DO MOVE BRASIL MERCADO MOVIMENTOS NO RANKING LANÇAMENTO NISSAN KAIT LANÇAMENTOS JETOUR COMÉRCIO EXTERIOR EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO 32 16 38 42 50 58 68 74 80 88 24 8 96 FROM THE TOP OS INVESTIMENTOS José Éverton Fernandes, presidente da Fenauto, analisa o mercado de veículos usados e o recorde de vendas em 2025. Tabelas atualizadas mostram onde estão sendo aplicados os ciclos bilionários dos fabricantes de veículos. GENTE & NEGÓCIOS Notícias da indústria automotiva e movimentações de executivos pela cobertura da Agência AutoData. 100 109 FIM DE PAPO As frases e os números mais relevantes e irrelevantes do mês, escolhidos a dedo pela nossa redação. BIOCOMBUSTÍVEIS ETANOL PROGRAMA BRAVE SOFC A ETANOL BIOMETANO BIODIESEL+HVO Freepik Divulgação/Jetour
» EDITORIAL AutoData | Fevereiro 2026 Diretor de Redação Leandro Alves Conselho Editorial Isidore Nahoum, Leandro Alves, Márcio Stéfani, Pedro Stéfani, Vicente Alessi, filho Redação Pedro Kutney, editor Colaboraram nesta edição André Barros, Lúcia Camargo Nunes, Soraia Abreu Pedrozo Projeto gráfico/arte Romeu Bassi Neto Fotografia DR/divulgação Capa Imagem gerada por IA Gemini Comercial e publicidade tel. PABX 11 3202 2727: André Martins, Luiz Giadas e Rosa Damiano Assinaturas/atendimento ao cliente tel. PABX 11 3202 2727 Departamento administrativo e financeiro Isidore Nahoum, conselheiro, Thelma Melkunas, Hidelbrando C de Oliveira, Vanessa Vianna ISN 1415-7756 AutoData é publicação da AutoData Editora e Eventos Ltda., Av. Guido Caloi, 1000, bloco 5, 4º andar, sala 434, 05802-140, Jardim São Luís, São Paulo, SP, Brasil. É proibida a reprodução sem prévia autorização mas permitida a citação desde que identificada a fonte. Jornalista responsável Leandro Alves, MTb 30 411/SP autodata.com.br AutoDataEditora autodata-editora autodataseminarios autodataseminarios Por Leandro Alves, diretor de redação A diferença de preço e valor Quanto você estaria disposto pagar para ler esta AutoData? A resposta é altamente subjetiva porque carrega diversos fatores inerentes ao perfil do consumidor e da própria informação, que se pergunta: é do meu interesse apenas como passatempo e entretenimento ou esta será uma leitura com conteúdo relevante para a condução dos meus negócios ou atividade profissional? Todas essas opções têm um preço. Mas o valor delas é algo bem diferente. Pois esta edição 429 de AutoData inicia em 2026 seu trigésimo-quarto ano consecutivo, a se completar em outubro, oferecendo conteúdo analítico e abrangente considerando o vasto universo automotivo sem cobrar nada do leitor. Em média as mais de 15 mil visualizações das edições mensais digitais desta revista mantêm o ritmo de audiência do início deste século, quando esta revista reinava sozinha no mercado editorial especializado na indústria automotiva e áreas correlatas. Em síntese, continuamos atraindo leitores que dão valor ao jornalismo e à credibilidade construída nestas mais de três décadas. Mas assim como a biotransição energética, com reportagens especiais, inéditas, extensas e imperdíveis, que permeiam toda esta edição, vivemos um paradoxo: ao mesmo tempo em que o País e AutoData disfrutam de reputação privilegiada com relação à descarbonização e ao mercado editorial, respectivamente, é muito difícil convencer todo o mundo de que o valor para apoiar este jornalismo é expressivamente maior do que o preço que se paga, assim como os biocombustíveis são a solução imediata mais eficaz para descarbonizar a mobilidade de forma economicamente viável e socialmente justa. O título deste editorial teve sua inspiração em um gênio brasileiro chamado Gonzalo Pereira, que dentre todo esse material que você está preste a ler disse que “provavelmente os biocombustíveis nunca competirão em custos com os derivados de petróleo, nunca serão mais baratos, mas é necessário entender a diferença de preço e valor”. Neste 2026 elevaremos a quantidade e o nível da nossa produção editorial sem onerar os apoiadores que fazem esta AutoData continuar com a missão de transformar informação em conhecimento. No entanto precisamos que todos compreendam a diferença de preço diante de valor, tanto para descarbonizamos a mobilidade como para seguirmos fornecendo este serviço editorial.
6 Líder global de Inteligência Artificial da KPMG fala com exclusividade para AUTODATA sobre o cenário desafiador que o setor automotivo enfrenta e como a IA pode ser solução A indústria automotiva vive um dos momentos mais desafiadores e transformadores de sua história. Eletrificação acelerada, veículos definidos por software, inteligência artificial, cadeias globais sob pressão e consumidores cada vez mais exigentes redesenham o setor em velocidade inédita. Nesse cenário, tecnologia deixa de ser diferencial operacional e passa a ser o principal vetor de transformação organizacional e estratégica. O veículo deixa de ser um produto e se consolida como uma plataforma inteligente em evolução contínua. Atualizações over-the-air, personalização baseada em dados e novos modelos de mobilidade indicam que o valor estará cada vez mais associado ao ecossistema digital que orbita o carro. Nesse contexto, dados tornam-se ativo estratégico central: preferências do consumidor, padrões de mobilidade, informações de tráfego, manutenção, conectividade embarcada. Fornecedores que souberem identificar seus ativos únicos, estabelecer KPMG aponta como a IA vai acelerar a transformação da indústria automotiva
7 senvolvimento de produtos, entre 10% e 30% das atividades realizadas por profissionais do conhecimento já podem ser aceleradas por IA generativa”. Com a evolução da IA agentic, a automação tende a se expandir, impactando desenvolvimento de software, validação regulatória, testes e compliance. O resultado? Redução de prazos, maior qualidade e ganhos de produtividade. Na cadeia de suprimentos, modelos avançados de IA permitem prever rupturas, otimizar estoques e redesenhar processos. Eles tornam as operações atuais mais eficientes e permitem ressignificar fluxos de trabalho, processando 100% das transações, automatizando atividades terceirizadas e reintegrando operações com menor custo e menos interfaces. “Resiliência e competitividade deixam de ser conflitantes”. Onde a KPMG pode auxiliar? Para apoiar essa jornada, a KPMG estruturou um portfólio completo de serviços AI-native, desenhado para transformar visão em captura de valor. A abordagem começa com o KPMG AI Jumpstart, que demonstra rapidamente o potencial da tecnologia em áreas selecionadas. Avança para a construção de uma AI Strategy robusta, com business case alinhado ao CFO e ao Board. Inclui ainda AI Workforce, para acelerar adoção e redesenhar funções; AI Trust, garantindo governança, compliance e cibersegurança; e AI Tech/Data, focada na criação de plataformas e “agent factories” capazes de escalar a IA com dados críticos e de alta qualidade. “De modo complementar, a KPMG oferece soluções específicas para otimização da cadeia de suprimentos, integrando tecnologia, transformação digital e gestão de mudanças”, sugere Pär Edin. A transformação já começou. Quem compreender a inteligência artificial não apenas como tecnologia, mas como instrumento de reinvenção organizacional, terá vantagem decisiva na corrida pelo futuro da mobilidade. parcerias inteligentes e monetizar dados no momento certo estarão mais bem posicionados para competir na próxima década. Uma das maiores autoridades mundiais sobre o tema Inteligência Artificial, o sueco Pär Edin, head global de inovação e IA da KPMG, deu uma entrevista exclusiva para AUTODATA WORK STUDIO para esclarecer como as empresas do segmento automotivo podem encarar esse cenário desafiador. “Para líderes que transitam entre engenharia, estratégia e inovação, essa mudança de perspectiva é clara: se no passado a tecnologia substituiu a força física por máquinas e ampliou o trabalho intelectual com computadores e redes, agora a Inteligência Artificial expande e acelera o potencial dos profissionais do conhecimento. Não se trata de eficiência, mas de repensar modelos de negócio, estruturas organizacionais e a própria lógica de geração de valor”, explicou. Grandes empresas enfrentam o clássico dilema entre escala e disrupção. De acordo com o executivo da KPMG, a resposta está em uma abordagem de portfólio: estimular o empreendedorismo interno, manter programas estruturados de inovação no core do negócio e permitir que pequenas equipes desenvolvam iniciativas disruptivas com autonomia, além de aplicar estratégias inteligentes de fusões e aquisições. Essa combinação amplia as chances de capturar valor em diferentes horizontes de inovação. Ao mesmo tempo, a cadeia de suprimentos enfrenta uma “tempestade perfeita”. A eletrificação, o avanço rumo à condução autônoma e a digitalização intensiva aumentam a dependência de software e semicondutores, enquanto eventos globais expõem fragilidades logísticas. Nesse ambiente, inteligência de mercado, resiliência estrutural e agilidade operacional tornam-se competências centrais. Relações mais próximas e baseadas em confiança entre fornecedores e montadoras passam a ser estratégicas. “É aqui que a IA se consolida como ferramenta crítica”, esclarece Edin. “Ao longo do ciclo de de-
8 FROM THE TOP » JOSÉ ÉVERTON FERNANDES, FENAUTO Fevereiro 2026 | AutoData O boom dos usados O mercado de veículos usados, no Brasil, nunca foi tão grande: em 2025 foram negociadas nada menos do que 18 milhões de unidades, somando motos, automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus. Os 48 mil revendedores espalhados pelo País giraram a fantástica cifra de R$ 1,5 trilhão em negócios, agregando uma carteira ativa de financiamentos de R$ 541 bilhões. É neste cenário que José Éverton Fernandes assumiu, em janeiro, a presidência da Fenauto, entidade que reúne trinta associações regionais de revendedores independentes de veículos. Economista de formação e bem-sucedido empresário do segmento de auto shoppings em Fortaleza, CE, Fernandes tem mais de quarenta anos de atuação na negociação de veículos usados. Agora à frente da Fenauto ele pretende utilizar toda a sua experiência para continuar a profissionalizar e modernizar as revendas por meio do uso de todas as ferramentas tecnológicas que se têm à mão hoje para avaliar, comprar, vender e financiar veículos. Nesta entrevista que concedeu a AutoData Fernandes afirma que este ponto é fundamental para conquistar a confiança do consumidor na hora de negociar seu carro e trocar por outro. Na conversa Fernandes apontou que o fator primordial para o recorde de vendas de usados em 2025, “muito acima do que nós prevíamos inicialmente”, está intimamente ligado com o preço alto dos carros zero-quilômetro, que “forçou consumidores das classes B e C a migrarem para o mercado de usados e seminovos”. Mas ele pondera que esta não é uma situação confortável para os revendedores: “O mercado de usados é estritamente complementar ao de novos: o carro zero-quilômetro vendido hoje é o estoque de usado de amanhã. Se a venda de novos cai teremos dificuldades futuras de reposição”. Atualmente, no Brasil, está mais fácil ou mais difícil ser um revendedor de veículos usados? Esta é uma pergunta que carrega uma certa complexidade em sua resposta, mas, de modo direto, eu diria que o cenário atual está muito mais desafiador. Se olharmos para o passado o profissional deste setor utilizava um volume muito menor de ferramentas e operava em um ambiente com pouca digitalização. Anos atrás o sucesso do vendedor dependia quase que exclusivamente do conhecimento pessoal e técnico do indivíduo sobre o produto, especialmente na identificação manual de avarias do veículo de segunda-mão. Hoje, embora ainda valorizemos a experiência, necessitamos menos desse conhecimento estritamente manual porque temos à mão uma gama de ferramentas tecnológicas que nos auxiliam com precisão. Por outro lado o mercado tornou-se vastamente mais complexo e concorrido. Entrevista a Leandro Alves e Pedro Kutney Clique aqui para assistir à versão em videocast desta entrevista
9 AutoData | Fevereiro 2026 Divulgação/Fenauto
10 FROM THE TOP » JOSÉ ÉVERTON FERNANDES, FENAUTO Fevereiro 2026 | AutoData o compromisso de fortalecer as trinta associações estaduais. Algumas já são exemplares em seu desenvolvimento, mas outras ainda precisam de suporte. Vamos criar ferramentas para unificar esse fortalecimento em todo o País. As vendas de veículos usados vêm batendo recordes seguidos com números muito vistosos. Em 2025 atingiram o maior patamar de todos os tempos, com 18 milhões de unidades negociadas, somando motos, automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus. Com isto foi superado por larga margem o recorde de 2024, que já foi grande. A quais fatores o senhor atribui um desempenho tão expressivo? Um conjunto de fatores impulsionou este crescimento para patamares muito acima do que nós prevíamos inicialmente. Mas o fator preponderante foi a questão do preço do carro zero-quilômetro, que se distanciou severamente da renda média da população brasileira. Isto forçou consumidores das classes B e C — que antes compravam carros novos — a migrarem para o mercado de usados e seminovos. Acompanhando esse movimento também houve um aumento significativo na confiança do “ O fator preponderante para o recorde de vendas de veículos usados em 2025 foi o preço do carro zero-quilômetro, que se distanciou severamente da renda média da população brasileira. Isto forçou consumidores a migrarem para o mercado de usados e seminovos.” O nível de exigência subiu: o profissional de seminovos agora precisa de um conhecimento muito mais amplo e de uma visão sistêmica do mercado como um todo, superando aquela antiga visão dualista e simplificada de décadas atrás. O senhor assumiu a presidência da Fenauto no início deste ano, em janeiro. Quais são as suas prioridades e principais objetivos para a sua gestão? Como presidente da Fenauto minha intenção primordial é dar continuidade ao sólido trabalho que foi desenvolvido anteriormente por lideranças como o Enílson Sales e o Ilídio Santos. O foco central será o fortalecimento institucional da nossa federação, que hoje é a voz de um segmento robusto composto por cerca de 48 mil revendas em todo o território nacional. Temos metas claras: queremos ampliar o diálogo institucional com os governos, com o Congresso Nacional e com todos os elos da cadeia do setor automotivo. Além disso pretendemos investir pesadamente em capacitação este ano. É vital preparar nossos profissionais e colaboradores para que eles dominem e utilizem da melhor forma as novas fronteiras da inteligência artificial e da digitalização. Por fim temos
11 AutoData | Fevereiro 2026 Considerando este histórico de recordes qual é o limite do crescimento das vendas de usados? Trata-se apenas de um momento, por causa do alto preço dos veículos novos, das taxas de juros altas e da maior oferta dos frotistas? Ou o consumidor brasileiro criou uma cultura de consumir seminovos que muitas vezes são mais equipados do que os novos e têm preço menor? Acredito que todos esses fatores passarão a contribuir de forma contínua nos próximos anos com o crescimento do mercado de veículos usados. Sobre o limite ele é definido, de fato, pela nossa frota circulante. Precisamos entender que o mercado de usados é estritamente complementar ao de novos: o carro zero- -quilômetro vendido hoje é o estoque de usado de amanhã. Se a venda de novos cai teremos dificuldades futuras de reposição. Temos um exemplo claro disso com os veículos fabricados em 2020 e 2021, cuja produção foi drasticamente reduzida pela pandemia e falta de componentes: hoje essa frota de usados é menor e mais difícil de encontrar. Portanto, a manutenção do ciclo de vendas do carro novo é essencial para que o mercado de seminovos continue tendo fôlego para crescer. E quanto à rentabilidade do negócio? As margens são adequadas para a sustentabilidade de quem negocia usados no Brasil? Atualmente as margens são extremamente apertadas. A razão volta ao ponto da oferta e demanda: como temos dificuldade em repor o estoque de bons veículos as revendas acabam pagando mais caro para garantir o produto, o que “ O mercado de usados é estritamente complementar ao de novos: o carro zero-quilômetro vendido hoje é o estoque de usado de amanhã. Se a venda de novos cai teremos dificuldades futuras de reposição.” consumidor com relação ao carro usado. A profissionalização do setor e o uso de novas ferramentas de precificação trouxeram a segurança que faltava. Hoje o comprador muitas vezes chega à revenda com mais informações sobre o produto e o preço do que o próprio vendedor, tamanha a facilidade de pesquisa. Outro ponto é o envelhecimento da frota nacional, que hoje tem média de dez a onze anos de uso. Quando o proprietário de um carro antigo decide trocar ele geralmente opta por um modelo apenas alguns anos mais novo, e isso vai alimentando uma cadeia de trocas, em que uma venda puxa outra. Finalmente, em 2025, superamos o gargalo da oferta de veículos usados que havia. Com a normalização da produção pós-pandemia as montadoras voltaram a oferecer descontos para grandes frotistas e locadoras. Isso permitiu que as locadoras despejassem aproximadamente 600 mil veículos seminovos no mercado em 2025, o que gerou um efeito em cascata, permitindo que carros de diversas faixas de idade voltassem ao circuito de vendas.
12 FROM THE TOP » JOSÉ ÉVERTON FERNANDES, FENAUTO Fevereiro 2026 | AutoData fatalmente reduz a margem de lucro. O grande segredo para a sobrevivência e sustentabilidade hoje não está na margem alta por unidade, mas sim na excelência da gestão e, principalmente, no giro rápido do estoque. Qual é a expectativa de desempenho para o mercado de seminovos e usados neste 2026? Ainda é um pouco cedo para cravarmos projeções definitivas para 2026, pois o ano reserva variáveis importantes. Eventos como Copa do Mundo e o período de campanhas eleitorais geralmente tendem a impactar as vendas de forma negativa ou, no mínimo, trazer distração ao mercado. Por outro lado variáveis econômicas podem soprar a favor, como a provável redução na taxa de juros Selic. Além disto o preço do carro novo deve permanecer elevado e distante da realidade de muitos consumidores, o que manterá a necessidade de mobilidade das pessoas voltada para o carro usado. Há uma probabilidade forte de crescimento expressivo, mas agiremos com cautela nas nossas projeções. O mercado de seminovos, aqueles carros com até três anos de uso, foi o que mais cresceu em 2025, com expansão de 40% sobre 2024. Este segmento está capturando parte do mercado de veículos zero-quilômetro? Eu não diria que ele está tirando espaço mas, sim, atendendo à demanda que o mercado de novos não consegue suprir devido aos preços. Reitero: somos mercados complementares. O consumidor que gostaria de um zero-quilômetro mas encontra barreiras no preço, na tributação ou no custo elevado dos novos itens de segurança exigidos por lei acaba migrando naturalmente para o seminovo. Sobre as dificuldades de quem compra um veículo usado o que pesa mais: o cadastro negativado pela inadimplência que impede o financiamento ou são as taxas de juros que inibem o comprador? A taxa de juros é, sem dúvida, o fator mais determinante para inibir a compra. A inadimplência, muitas vezes, é consequência de um crédito que se tornou excessivamente caro para o bolso do cidadão. Para o consumidor bem-intencionado, que é a grande maioria, o custo do dinheiro pesa muito mais na decisão de compra do que qualquer outro fator. Os veículos mais velhos, com mais de nove anos de idade, ainda representam 60% das negociações no mercado de usados? Estes modelos ainda são um bom negócio para o revendedor, dada a degradação do produto e a falta de laudos para comprovar sua integridade? “ Em 2026, eventos como Copa do Mundo e o período de campanhas eleitorais tendem a impactar negativamente as vendas de veículos. Mas variáveis econômicas podem soprar a favor, como a provável redução dos juros.”
13 AutoData | Fevereiro 2026
14 FROM THE TOP » JOSÉ ÉVERTON FERNANDES, FENAUTO Fevereiro 2026 | AutoData Como nossa frota é envelhecida este mercado acaba atendendo à maior parcela da população brasileira. É um segmento de grandes oportunidades, mas também de muitos riscos e desafios. A legislação atual obriga a revenda a fornecer garantias e realizar revisões preventivas rigorosas. Isso encarece o processo e aperta ainda mais a margem de lucro em carros de menor valor. Para ter sucesso neste segmento de modelos mais velhos o profissional precisa resgatar aquele olhar clínico de antigamente para avaliar o estado real do veículo, de forma pessoal e criteriosa. Está em tramitação no Congresso Nacional um projeto de lei de inspeção veicular obrigatória para carros com mais de cinco anos. Se for aprovado qual seria o impacto no mercado de veículos usados? Se a inspeção for bem planejada e estruturada trará uma valorização para o mercado formal de usados. O grande ponto de atenção é o custo e o impacto social. Muitos consumidores de baixa renda poderiam ter seus veículos retirados de circulação por falta de condições de manutenção, o que geraria um problema sério de mobilidade. Se houver equilíbrio na execução os ganhos serão positivos para o setor como um todo. O Marco Legal das Garantias, que permite a retomada de bens financiados de clientes inadimplentes sem necessidade de autorização judicial, foi aprovado no fim de 2023, com grande expectativa de que o mecanismo fosse reduzir juros e liberar mais financiamentos. Por que a legislação ainda não fez o efeito esperado? “ O preço do carro novo deve permanecer elevado e distante de muitos consumidores, o que manterá a necessidade de mobilidade das pessoas voltada para o carro usado.” O Marco Legal ainda enfrenta um imbróglio jurídico no Supremo Tribunal Federal. Existe uma divergência sobre quem deve executar a retomada de bens: o STF entendeu inicialmente que apenas cartórios poderiam fazê-lo mas, na prática, o registro e a custódia dos dados dos veículos estão nos Detran. Se os Detran puderem operar esta retomada do bem o impacto na redução das taxas de juros será muito mais forte, pois reduz o risco das instituições financeiras. Por ora a insegurança jurídica trava esse avanço. E quanto ao Renave, o Registro Nacional de Veículos em Estoque? Como ele ajuda na prática os revendedores de veículos? O maior ganho do Renave é a formalidade e a segurança jurídica. Ele agiliza os processos de transferência, tornando-os digitais e rápidos. Isso beneficia diretamente as empresas formais e dificulta a vida de quem atua na informalidade, trazendo mais transparência para o mercado de veículos como um todo. Na sua visão, de mais de quarenta anos atuando no segmento, quais foram as maiores evoluções do mercado brasilei-
15 AutoData | Fevereiro 2026 que expandem o nosso alcance e trazem transparência para o processo, beneficiando tanto o lojista quanto o cliente. Veículos usados, principalmente os mais antigos, precisam trocar peças e alguns produtos do mercado de reposição causam problemas porque não estão de acordo com os padrões dos fabricantes. Esse tipo de oferta mais em conta de peças genéricas prejudica o negócio dos usados? O uso inadequado de peças que não seguem os padrões do fabricante prejudica o funcionamento do veículo e provoca problemas de garantia. Recomendamos sempre peças genuínas ou de fabricantes que fornecem às montadoras, especialmente em carros modernos carregados de tecnologia, onde qualquer especificação incorreta pode trazer grandes prejuízos ao sistema. Qual é a tendência para o segmento de usados nos próximos anos: grandes frotistas, como locadoras, terão participação ainda maior e reduzirão o espaço para revendedores menores? Como está esta convivência? O mercado é altamente concorrido e haverá, sim, uma maior concentração de grandes players. No entanto a convivência continuará, pois o mercado brasileiro é muito regionalizado e segmentado. As locadoras têm seu nicho específico e geralmente não aceitam trocas: apenas vendem seu estoque imobilizado. Todo o restante da cadeia de troca e atendimento personalizado continua nas mãos das revendas, garantindo que o pequeno e médio lojista continuem sendo a força motriz deste setor no País. “ Como nossa frota é envelhecida o mercado de veículos mais velhos, acima de onze anos de uso, acaba atendendo à maior parcela da população brasileira. É um segmento de grandes oportunidades, mas também de muitos riscos e desafios.” ro de veículos usados na última década? Com quatro décadas de experiência posso afirmar que a profissionalização foi a mudança mais notória. Ela veio acompanhada pelo uso intenso de tecnologias e canais digitais. Outra transformação crucial foi a integração das lojas com o sistema financeiro: hoje o revendedor precisa atuar quase como um correspondente bancário, conhecendo profundamente as políticas de proteção financeira. Também destaco o crescimento da confiança do consumidor, que atualmente se sente muito mais seguro ao comprar um veículo usado graças aos laudos técnicos e à abundância de informações. Como o senhor avalia a chegada das autotechs ao mercado de veículos, com suas plataformas digitais de negociação? Elas são aliadas ou inimigas dos lojistas de usados? Na grande maioria das vezes, são aliadas. Elas funcionam como ferramentas
16 Fevereiro 2026 | AutoData MERCADO » VEÍCULOS LEVES O mercado automotivo brasileiro encerrou 2025 com uma fotografia de aparente estabilidade no topo das marcas mais vendidas, mas esconde transformações profundas em sua estrutura de vendas. Se no ranking o G7 permaneceu inalterado em posições a dinâmica de crescimento e a origem do faturamento revelam que a disputa por rentabilidade e volume nunca foi tão complexa. Levando em conta o crescimento da penetração de modelos eletrificados e a dependência das vendas diretas consultores apontam 2026 como o ano do “ajuste de contas” com a produção nacional. MAIS PERDAS DO QUE GANHOS A Fiat encerrou mais um ano no topo, detendo quase 21% de market share, mas o sinal de alerta acendeu. Embora mantenha a liderança com margem sólida seu crescimento de 2,3% ficou pouco abaixo do desempenho médio do mercado, que avançou 2,6% em 2025. Por outro lado, impulsionada por proPor Lúcia Camargo Nunes No xadrez automotivo balanço de 2025 aponta movimentos para 2026 Ascensão da BYD e o efeito do Volkswagen Tera forçam fabricantes a rever seus planos de showroom e de eletrificação jeto agressivo de renovação de portfólio, a Volkswagen se consolidou com o melhor desempenho dentre as marcas mais vendidas de 2025, crescendo quase três vezes mais do que a média pelo segundo ano consecutivo, com avanço de 9% sobre 2024, e ganho de mais 1 ponto porcentual de participação, que subiu para 17%. Enquanto isto, logo abaixo no ranking, fabricantes bem estabelecidos como General Motors, Hyundai, Toyota e Renault registraram números negativos. Jeep ficou no positivo, mas também abaixo da média do mercado. O fraco desempenho destas cinco marcas, situadas do terceiro ao sétimo lugares do ranking, contrasta com a ascensão da BYD. De um ano para outro a empresa com origem na China cresceu 47% – isto depois de ter crescido 328% de 2023 para 2024 – e subiu da décima para a oitava colocação em 2025, superando a barreira das 100 mil unidades vendidas e colocando modelos como o elétrico Dolphin Mini e o híbrido Song na lista dos vinte mais vendidos do País.
17 AutoData | Fevereiro 2026 RENTABILIDADE X VOLUME Um dos grandes dilemas de 2025 foi a dicotomia que opõe margem de lucro e volume bruto de vendas. Cássio Pagliarini, da Bright Consulting, destaca que a saúde financeira de uma montadora hoje depende de sua capacidade de atrair o cliente para dentro da concessionária, longe dos descontos agressivos concedidos nas vendas diretas a frotistas: “A sobrevivência do showroom sustenta aqueles carros que são desejados. As empresas conseguiram fazer das marcas e do modelo figuras que o cliente busca. Então é muito bom que uma marca venda mais no varejo, no showroom, porque isto significa maior margem de comercialização. Os veículos em venda direta têm contratos muito ruins, o desconto é grande e a lucratividade é muito pequena, principalmente modelos restritos a vendas para locadoras”. As 10 marcas mais vendidas de 2025 Posição 2025 2024 Marca Emplacamentos Variação % 2024/2025 *Participação % 2025* Diferença sobre 2024** 1 1 Fiat 533 710 2,4 20,9 0,0 2 2 Volkswagen 436 297 9,0 17,1 1,0 3 3 GM/Chevrolet 275 965 -12,4 10,8 -1,8 4 5 Hyundai 203 579 -1,2 8,0 -0,3 5 4 Toyota 170 635 -16,3 6,7 -1,5 6 7 Renault 131 724 -5,4 5,2 -0,4 7 6 Jeep 124 112 2,3 4,9 0,0 8 10 BYD 112 814 46,9 4,4 1,3 9 8 Honda 103 460 13,1 4,1 0,4 10 9 Nissan 77 808 -11,0 3,1 -0,5 Fonte: Fenabrave / * Parcicipação sobre total de vendas de veículos leves novos em 2025 / ** Diferença em pontos porcentuais sobre 2024 Estabilidade | Queda | Crescimento OBSERVAÇÕES SOBRE MARCAS EM 2025 >> O peso da queda de Chevrolet e Toyota: embora tenham mantido suas posições no ranking, 3º e 5º, o impacto em volume foi severo. A Chevrolet perdeu 1,84 ponto percentual de share, queda de -12,3% em venda, e a Toyota teve a maior retração percentual dentre as dez líderes, com -16,2% em volume, perdendo 1,5 ponto de participação no mercado. >> GWM é segunda força chinesa: enquanto os holofotes estão voltados para o desempenho BYD a GWM apresentou ritmo de crescimento quase idêntico, +46,4%, saltando da posição 15 para a 13 no ranking de marcas. Com 42,8 mil unidades comercializadas a GWM superou marcas tradicionais como Citroën, Ram, Mitsubishi e Peugeot, consolidando a tese de que a aceitação de novas tecnologias híbridas está se espalhando rapidamente. >> O abismo no pé da tabela: existe um degrau gigantesco de volume que separa o pelotão de elite das marcas que estão abaixo da décima-primeira colocação: a Caoa Chery, 11ª, com mais de 71,4 mil unidades negociadas, vendeu quase o dobro da Citroën, 14, que registrou cerca de 39,9 mil emplacamentos em 2025. Esta diferença mostra que Honda, Nissan, Caoa Chery e até a Ford – que respectivamente preencheram em 2025 o espaço da nona à décima-segunda posições –, conseguiram se descolar do grupo que roda mais abaixo no ranking, criando uma barreira de entrada difícil de ser superada por marcas que venderam menos de 30 mil carros no ano passado e ocuparam do décimo-quinto lugar para baixo. Divulgação/Bright Consulting
18 Fevereiro 2026 | AutoData MERCADO » VEÍCULOS LEVES Nem toda venda direta, contudo, é sinônimo de lucro baixo, pois fatia relevante desta modalidade de negócio é de faturamento direto da montadora ao cliente final. A transação é efetuada assim para pagar menos imposto, mas toda a negociação ocorre no varejo, dentro das concessionárias. O segmento de picapes compactas é o maior exemplo de como o faturamento direto pode ser estratégico e rentável. Enquanto a Volkswagen Saveiro sobrevive quase exclusivamente deste canal, por ser um veículo de trabalho puro, a Fiat Strada equilibra o jogo com versões de cabine dupla que atraem mais o consumidor típico de varejo. Mas ambas podem ser compradas por financiamento mais barato para pequenos empresários pela via da venda direta. Pagliarini faz uma distinção importante: “Você tem exceção para picapes. Mesmo no caso dos modelos pequenos [monobloco] as montadoras têm caminhos de venda direta que vão para produtores rurais ou pequenas empresas de construção. Esses são casos de venda direta mas não necessariamente com margens destruídas. O que acaba com as margens são as vendas a locadoras. Você não tem picape vendida a locadora na mesma proporção de modelos como Fiat Mobi e Argo, Hyundai HB20 ou Volkswagen Polo Track. Nessas negociações os descontos são muito pesados”. O EFEITO TERA O lançamento do Volkswagen Tera, no meio de 2025, foi sem dúvida o movimento mais ousado do ano. O modelo não apenas conquistou o público como provocou rearranjos comerciais e industriais dentro da própria casa. Para o mercado o sucesso do Tera levanta a dúvida: ele mata os concorrentes ou os irmãos do mesmo fabricante? Para Pagliarini o potencial do modelo é avassalador: “Ele é tão bom que baterá em todo mundo. A surpresa é que a Volkswagen vendeu bem o Tera sem deixar de vender bem o T-Cross. Mas, sim, o Tera canibalizará o Polo Track e o T-Cross dentro da própria Volkswagen. Veremos o que vai acontecer nos próximos meses”. Se a Volkswagen comemora a GM enfrentou um ano de ajustes dolorosos. Ao tentar elevar os preços de lista do Onix para o ano-modelo 2026 viu as vendas despencarem e precisou recuar. Para o consultor duas das maiores quedas de 2025, de 12% da Chevrolet e de 18% da Peugeot, não devem ser creditadas apenas à concorrência chinesa mas a erros de plenos comerciais. “A Peugeot despencou e a Chevrolet caiu porque não tiveram ações fortes e consistentes para segurar o mercado”, avalia Pagliarini. “As quedas aconteceram por falhas das próprias empresas. A Chevrolet caiu no segmento de entrada, no Onix, onde não há oposição direta dos Tera: lançamento de maior impacto em 2025 ajudou a Volkswagen a crescer mais de três vezes acima da média do mercado. Fiat Strada: veículo mais vendido do Brasil pelo quinto ano seguido teve desempenho mais tímido desta vez. Divulgação/VW Divulgação/Fiat
19 AutoData | Fevereiro 2026 Os 20 veículos mais vendidos de 2025 Posição 2025 2024 Modelo Emplacamentos Variação % 2024/2025 *Participação % 2025* Difereança sobre 2025** 1 11 1 17 Fiat Strada Honda HR-V 142 891 61 227 -1,2 21,5 5,6 2,4 -0,2 0,4 2 12 2 7 VW Polo Chevrolet Tracker 122 672 60 867 -12,5 -12,3 4,8 2,4 -0,8 -0,4 3 13 5 21 Fiat Argo Toyota Corolla Cross 102 630 59 674 12,6 24,9 4,0 2,3 0,4 0,4 4 14 6 12 VW T-Cross Renault Kwid 92 837 58 970 10,5 3,0 3,6 2,3 0,3 0,0 5 15 4 10 Hyundai HB20 Nissan Kicks 85 029 58 388 -12,4 -3,4 3,3 2,3 0,6 -0,1 6 16 3 20 Chevrolet Onix Fiat Fastback 79 886 57 297 -18,1 18,8 3,1 2,2 -0,8 0,3 7 17 8 11 Hyundai Creta Chevrolet Onix Plus 76 156 52 958 10,2 -11,7 3,0 2,1 0,2 -0,3 8 18 9 16 Fiat Mobi Fiat Toro 73 011 52 129 8,4 -3,2 2,9 2,0 0,2 -0,1 9 19 13 19 VW Saveiro Toyota Hilux 67 752 49 721 -18,9 -0,6 2,7 2,0 0,4 -0,1 10 20 18 14 Jeep Compass VW Nivus 61 255 48 690 22,4 -12,9 2,4 1,9 0,4 0,3 Fonte: Fenabrave / * Parcicipação sobre total de vendas de veículos leves novos em 2025 / ** Diferença em pontos porcentuais sobre 2024 Estabilidade | Queda | Crescimento OBSERVAÇÕES SOBRE VEÍCULOS EM 2025 >> Crise nos populares: o encarecimento dos veículos esfriou o segmento de entrada, mesmo com a isenção do IPI do Programa Carro Sustentável. Apenas os Fiat Argo e Mobi ganharam fôlego, enquanto modelos tradicionais como Volkswagen Polo, Hyundai HB20 e Chevrolet Onix sofreram quedas expressivas ou perda de posição. Ou seja: quem não pode bancar um novo partiu para um seminovo.
20 Fevereiro 2026 | AutoData MERCADO » VEÍCULOS LEVES chineses. Então não posso colocar isso conta da competição com as chinesas. Coloco na Fiat e na Volkswagen, que estão fazendo um bom trabalho.” PRODUÇÃO NACIONAL X IMPORTAÇÃO O grande divisor de águas para 2026 será o aumento do imposto de importação para veículos elétricos [BEVs], híbridos fechados [HEVs] e plug-in [PHEV], montados ou semimontados [SKD]. No fim de janeiro foram encerradas as cotas isentas e as alíquotas reduzidas atuais, de 25% a 30%, voltam aos 35% em julho – isto se governo resistir em atender ao pleito da BYD para estender por mais tempo as cotas e tarifas reduzidas. Já os veículos eletrificados totalmente desmontados [CKD], hoje tributados em 10% [BEVs] e 14% [HEVs e e PHEVs], passarão a pagar tarifa de 35% em janeiro de 2027 – antes disso, em julho, os BEVs em CKD sobem para 14%. O mercado questiona se fabricantes como BYD e GWM conseguirão manter a competitividade sem os benefícios fiscais de importação. A resposta, segundo o consultor Milad Kalume Neto, está na velocidade das fábricas de Camaçari, BA, e Iracemápolis, SP – respectivamente da BYD e GWM. Kalume Neto entende que a manutenção dessas marcas no Top 15 é robusta, mesmo com os desafios tributários: “A manutenção no ranking é sólida porque a GWM está produzindo bem localmente e a BYD tem planos de evoluir e localizar cada vez mais as operações, além de contar com um estoque representativo de veículos de alto volume. É pouco provável um recuo, já que da posição 15 para a 16 o degrau é gigante, com quase 10 mil veículos de diferença”. E quase o dobro de veículos separam a Citroën, décima-sexta com 39,9 mil unidades emplacadas em 2025, e a Caoa Chery, décima-primeira com 71,4 mil. ELETRIFICAÇÃO MAIS NACIONAL Para os veículos elétricos puros [BEVs] que continuarem vindo de fora, por causa da elevação de tarifas, a Bright Consulting projeta um aumento de custos na casa dos 8% a partir de julho. No entanto o consumidor pode não sentir todo o impacto imediatamente, analisa Pagliarini: “As montadoras que estão brigando por participação de mercado devem absorver parte desse custo, até porque já houve uma compensação parcial pelo uso de kits SKD importados com imposto zero anteriormente. Não acredito em grandes aumentos de preço”. Também está no horizonte a nacionalização gradual de alguns BEVs, como os da BYD em Camaçari, além de outros fabricantes que investem em linhas de montagem no País, como a Geely associada com Renault ou a Leapmotor com o Grupo Stellantis, que já anunciaram a montagem aqui. Dolphin Mini e Song Plus: os dois modelos garantiram desempenho da BYD em 2025. Divulgação/BYD Arquivo pessoal
21 AutoData | Fevereiro 2026 OBSERVAÇÕES SOBRE CATEGORIAS EM 2025 >> Dominância e canibalização dos SUVs: a categoria SUV saltou de 37,7% para 42,9% de participação total, ganhando 5,18 pontos porcentuais de participação de 2024 para 2025. Este avanço ocorreu diretamente sobre as outras categorias: hatches e sedãs foram os que mais perderam espaço, mostrando que o consumidor prefere migrar de segmento do que manter o formato de carroceria tradicional. >> Resiliência estratégica das picapes: enquanto hatches e sedãs oscilaram negativamente o segmento de picapes manteve estabilidade, +0,8%, preservando quase 19% de share. Isto demonstra que, independentemente da crise nos carros mais populares, o agronegócio e o setor de serviços continuam sendo a âncora de volume e rentabilidade para marcas como Fiat, Ford e Toyota. SUVs consolidam domínio em 2025 Participação, unidades vendidas por segmento e variação sobre 2024 (em mil unidades) 43% SUV | 1 095,6 Hatch | 621,2 24,4% Picapes | 478,4 18,8% Sedãs | 252,2 9,9% Outros | 100,8 3,9% Neste cenário os híbridos leves flex [MHEV] surgem como os grandes heróis do Mover, Programa Mobilidade Verde e Inovação. Por serem uma solução de baixo custo e de fácil adoção eles permitem que as montadoras atinjam as metas de eficiência energética sem revolucionar a linha de produção. “O híbrido leve deve ser uma solução rápida e barata para as empresas alcançarem as metas do Mover”, pontua Pagliarini, “com melhoria de 4% a 5% na eficiência, e não muda nada na manutenção ou na cadeia de usados.” GARGALO DA INFRAESTRUTURA Sobre a infraestrutura de carregamento de elétricos no Brasil, embora o volume de eletropostos esteja crescendo, ainda corre atrás do ritmo das vendas. Com frota circulante de eletrificados acima de 600 mil veículos, o índice de 9,03 carros por carregador é preocupante se comparado a padrões internacionais. “A infraestrutura não puxa as vendas, mas o inverso. O aumento nas vendas de veículos eletrificados plug-in ensejará números cada vez maiores de carregadores”, afirma Kalume Neto. Para ele as marcas tradicionais que demoraram a eletrificar suas bases correm mais riscos do que as chinesas de entrada em 2026: “Entendo que as chinesas ainda têm capacidade de crescimento para 15% na participação de mercado no curto prazo. Certamente veremos este índice ser atingido em alguns meses durante o ano”. FIM DO PRECONCEITO COM CHINESES Um dos maiores gargalos para a venda de carros novos é a aceitação do usado na troca. Neste sentido, em 2025, o mercado de seminovos para carros chineses e eletrificados atingiu um ponto de matu-
22 Fevereiro 2026 | AutoData MERCADO » VEÍCULOS LEVES ração. A demanda por modelos plug-in e híbridos usados está quente, superando a desconfiança inicial. Cássio Pagliarini reforça que a qualidade dos produtos chineses atuais dissipou os medos do passado: “No começo, quando era muita novidade, existia alguma restrição. Isso acabou. Hoje, quem procura um seminovo plug-in ou híbrido não encontra facilidade, a demanda está ficando quente. Não vejo problemas para estes veículos porque eles não têm vícios de produção ou fabricação. São bons, confiáveis, econômicos e confortáveis”. Kalume Neto não generaliza mas reconhece que alguns carros elétricos chineses usados superaram a barreira da desvalorização acentuada. Para ele o elétrico BYD Dolphin Mini é um exemplo de modelo muito procurado por motoristas de aplicativos e sua depreciação é baixa por causa da demanda aquecida, em especial por ter custo de propriedade bem menor do que modelos a combustão. “Entretanto esta não é uma tendência constante para todos os modelos de todas as marcas. Varia de marca para marca e de modelo para modelo. Há carro eletrificado que dá prejuízo pois sua depreciação é elevada.” O NOVO EQUILÍBRIO DE FORÇAS O encerramento de 2025 deixa claro que o mercado brasileiro não aceita mais planos baseados apenas em volume por volume. A rentabilidade exige produtos que despertem desejo dos clientes no showroom das concessionárias, enquanto a sobrevivência a longo prazo exige fábricas locais e um projeto claro de eletrificação do powertrain. Com a Volkswagen em ascensão, a BYD aparentemente consolidada dentre os top 10 e as marcas tradicionais sob muita pressão, 2026 será o ano em que a produção nacional decidirá quem continuará na frente e quem dará passos para trás. Com fábrica em operação GWM avança mais rápido no mercado brasileiro Divulgação/GWM
23 AutoData | Fevereiro 2026 O Grupo ABG oferece ao mercado automotivo uma gama completa de soluções e produtos, adequados à necessidade de cada cliente. Sempre com agilidade, excelência e sustentabilidade, nós fazemos acontecer. Day by day we make it happen DIA A DIA NÓS FAZEMOS ACONTECER
24 Fevereiro 2026 | AutoData INDÚSTRIA » COMÉRCIO EXTERIOR Por Lúcia Camargo Nunes Retomada de exportações e novo eixo de importações Fabricantes de veículos no Brasil fecham 2025 com 528,8 mil unidades embarcadas e projetam crescimento tímido de 1,4% para 2026 O comércio exterior de veículos do Brasil viveu, em 2025, um de seus anos mais agitados. As exportações surpreenderam positivamente e superaram por larga margem as projeções da indústria, que no começo do ano estimavam alta de 7,5% e o crescimento foi bem maior, de 32,1% sobre 2024, totalizando 528,8 mil unidades, o melhor resultado desde 2018. No lado das importações a entrada de veículos estrangeiros no País também seguiu avançando rápido, em alta de 6,7% sobre 2024, chegando a 497,8 mil unidades emplacadas, o maior volume desde 2014, com uma mudança estrutural: pela primeira vez na história os países fora do Mercosul e do México responderam por mais da metade das importações brasileiras – 50,2% do total. PARTICIPAÇÃO BAIXA NA PRODUÇÃO O crescimento nas exportações, no entanto, carrega ressalvas. O resultado de 528,8 mil unidades ainda está distante do pico histórico de 766,1 mil unidades, registrado em 2017, quando representaram Divulgação/Renault
25 AutoData | Fevereiro 2026 quase 28% da produção nacional total de 2,7 milhões, volume pouco maior do que os 2,6 milhões do ano passado, quando o porcentual exportado ficou em 20%. Este índice, na avaliação de um especialista do setor, revela a fragilidade estrutural do modelo exportador brasileiro. Como perspectiva histórica as exportações brasileiras de veículos superaram a barreira das 700 mil unidades apenas duas vezes na história: em 2005 e voltaram a este patamar apenas em 2017, mas o desempenho não se sustentou. Desde então as vendas externas do setor oscilam bem abaixo do que sua capacidade produtiva permitiria. Para 2026 a projeção da Anfavea, que reúne os fabricantes instalados no Brasil, é de modesto crescimento de 1,4%, chegando a 536 mil unidades – um ano de estabilização e não de aceleração. Ricardo Roa, especialista do segmento automotivo da consultoria KPMG, também faz projeção conservadora para o desempenho das exportações este ano: “Nossa expectativa é de crescimento máximo de 2,5%, relativamente estável”. ARGENTINA SEGURA O DESEMPENHO O motor do crescimento nas exportações em 2025 tem nome: Argentina. O vizinho mercado complementar do Mercosul absorveu 302,6 mil unidades em 2025, alta de 85,6% com relação às 163 mil do ano anterior, o que representa 57,2% de todos os veículos que o Brasil exportou no ano. A recuperação das compras externas da Argentina, após intensa crise em seu balanço externo de pagamentos causada pela escassez de divisas, teve o impulso da recomposição da frota do país e a concorrência ainda limitada das marcas chinesas, fatores que foram determinantes para o setor automotivo brasileiro sair da estagnação para o melhor resultado dos últimos sete anos. Se foi uma solução para ajudar escoar a produção em 2025 esta concentração também segue sendo um problema. Com mais da metade das exportações direcionadas a um único país o Brasil fica vulnerável a qualquer solavanco político ou econômico no lado de lá do Rio da Prata. José Pimenta, diretor de relações governamentais e comércio internacional da consultoria BMJ, observa que o crescimento nas exportações para a Argentina em 2025 foi “um misto de recuperação pontual e reposição de estoque”. Ele alerta, porém, que a concentração de quase 60% das exportações em um único destino pode ser efêmera e Total 32,1 100,0 400,2 528,8 100,0 Maiores mercados dos veículos brasileiros Volumes exportados em milhares de unidades 2024 2025 País Variação % 2024/2025 Participação % Participação % Volume Volume Argentina 85,6 57,2 163,0 302,6 40,7 México -16,5 15,0 94,8 79,2 23,7 Colômbia 19,5 8,0 35,3 42,2 8,8 Uruguai -9,7 6,2 36,1 32,6 9,0 Chile 29,8 4,7 19,1 24,8 4,8 Outros -8,3 9,0 51,7 47,4 12,9 Fonte: Anfavea Divulgação/KPMG
26 Fevereiro 2026 | AutoData INDÚSTRIA » COMÉRCIO EXTERIOR representa um risco elevado: “Quando você concentra muito está fazendo uma aposta nessa concentração, está olhando para uma aposta também na economia do país”. Para Pimenta a chave agora é entender o futuro da economia argentina, porque é um tipo de setor que responde muito ao estímulo econômico, ao ambiente macroeconômico. Ricardo Roa, da KPMG, avalia que os argentinos não vão aumentar as compras este ano: “Após o crescimento em 2025 para recompor a frota esperamos por uma estabilização das exportações para a Argentina em 2026, mas sem quedas significativas”. MÉXICO PERDE PARTICIPAÇÃO O México, segundo maior destino dos carros brasileiros em 2024, com 94,8 mil unidades e 23,7% do total exportado, recuou para 79,2 mil unidades em 2025, em queda de 16,5% e recuo de participação para 15% do total. O movimento reflete uma reorientação do mercado mexicano, desde 2024 invadido por carros importados da China, que já representam mais de um terço das vendas no país, em detrimento das compras de veículos brasileiros, enquanto os fabricantes instalados no México seguem priorizando as exportações para Estados Unidos e Canadá devido à maior demanda e rentabilidade. Roa observa que mercado mexicano ainda tem relevância para as vendas externas: “O Brasil ainda mantém um mix de produtos, especialmente SUVs, exportados para o México”. Pimenta complementa: “A questão principal é nossa competitividade e leitura de mercado para exportar mais para o México. Com relação ao tratado de livre comércio em si o acordo que existe segue, e segue bem”. Já Colômbia e Chile, outros dois clientes potenciais dos carros brasileiros, em 2025 aumentaram as compras em 19,5% e 29,8%, respectivamente, demonstrando que há espaço para diversificação, ainda que em volumes muito menores: 42,2 mil e 24,8 mil unidades. CHINA ENTRA PELA JANELA Enquanto o Brasil exporta em ritmo de recuperação lenta a entrada de produtos estrangeiros ganhou nova protagonista: a China, que em 2024 já respondia por 25,8% Importações brasileiras de veículos Volumes importados emplacados em milhares de unidades 2024 2025 País Variação % 2024/2025 Participação % Participação % Volume Volume Argentina -10,9 40,2 224,7 200,3 48,2 China 55,7 37,6 120,3 187,3 25,8 México -28,8 6,4 44,5 31,7 9,5 Alemanha 7,6 5,4 25,0 26,9 5,4 Uruguai -14,5 3,1 18,3 15,6 3,9 Outros 11,8 5,9 26,2 29,3 5,6 Tailândia -13,3 1,3 7,5 6,5 1,6 Total 6,7 100,0 466,4 497,8 100,0 Fonte: Anfavea Arquivo Pessoal
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