AD 338
36 AutoData Outubro 2017 História Mas, sim, por incrível que pareça, e apesar disso, existia mundo. E como existia. JEITO ESTRANHO – Outra contex- tualização importante para a época de criação de AutoData está no cenário econômico. Não bastasse essa explosão de novidades mercadológicas e tecno- lógicas no horizonte naquele ano de criação da editora, 1992, a inflação foi de 1,2 mil %. Sim, isso mesmo: 1,2 mil %. Descalabro? No ano seguinte, 1993, o índice chegou a 2,5 mil %. No mundo real isso significava, por exemplo, que o preço dos carros 0 KM aumentava todos os dias. Em algumas ocasiões, inclusive, duas vezes por dia. Imagine então o que era estabelecer o valor de um carro usado: de manhã cedo era um preço, no almoço outro, e, no final da tarde, já valia um terceiro. Avalie agora, então, como um forne- cedor estabelecia o preço de uma peça enviada à montadora. Pois é. Agora imagine calcular o valor cobrado levan- do-se em conta o prazo que a fabricante de veículos levava para pagar a peça... Mais: quando o trabalhador recebia seu contracheque – pelo menos o sa- lário também aumentava mensalmente – via-se obrigado a correr para o super- mercado no fim do expediente. Afinal, se deixasse as compras para o dia se- guinte levaria para casa menos produ- tos com o mesmo dinheiro. Conjecture-se, então, o que era abrir uma empresa nesse período. Pior: abrir uma empresa com vários sócios, to- dos com muita experiência no ramo, no caso jornalismo, mas nenhuma em administração. Pior ainda: abrir uma empresa pequena, tipicamente familiar, quando todos solidificaram carreiras em companhias grandes, ainda que no mesmo segmento. Isso era a AutoData Editora. Se ninguém sabia direito como se- ria administrar o negócio, pelo menos a forma da publicação estava mais ou menos definida. Só que, talvez como puro reflexo daquela onda de novida- des que tomava o início dos anos 90, ela foi estabelecida de um jeito muito es- tranho: AutoData, quando nasceu, era tudo menos uma revista. Seu formato era de newsletter, ou um informativo, publicado quinzenal- mente, em apenas duas cores, preto e azul, e com recursos gráficos que se li- mitavama ilustrações dos entrevistados em uma técnica de pontilhado chama- da bico-de-pena, copiando um estilo consagrado pela Gazeta Mercantil, tradicional jornal diário de economia e negócios. O projeto gráfico era simples e primoroso, graças a Tide Hellmeister, tempestade de proporções bíblicas. Mesmo que às vezes nemmesmo ela soubesse exatamente o caminho. Os anos 90 são um período particu- larmente interessante da história por- que justamente ali nasceu essa sede por maior conhecimento e informação, e que até então só se obtinha via leitura em papel. Houve ali, de fato, a forma- ção de uma necessidade latente por maior volume, análise e profundidade da cobertura jornalística, como simples questão de sobrevivência. Em suma, os anos 90, marcaramo fimda época de se considerar plenamente informado ape- nas ao sujar-se os dedos de tinta com o jornal pelas manhãs. Só para situar bem como era aquele cenário em termos práticos um pouco antes da criação de AutoData não exis- tia internet banda larga. Não existia e- -mail. Não existia celular. Para enviar documentos, as empresas usavam fax. FAX! Para mandar mensagens para ou- tras pessoas usava-se um pager, mais conhecido como bipe. BIPE!
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy NjI0NzM=