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9 AutoData | Fevereiro 2020 PERiFERiA No mesmo artigo, ao mirar na questão das exportações brasileiras de veículos, Pedro Kutney observa que a crise da Argentina “deixou mais clara a irrelevância de produtos brasileiros para os mercados mais importantes do mundo” – e isto apesar dos esforços históricos das empresas estabelecidas no País de tentar incentivar as vendas externas. É esforço inglório, pois as grandes do mundo reservam, para os melhores mercados, veículos produzidos... nos melhores mercados. Muitos anos atrás disse-me executivo pioneiro que países incluídos na periferia da economia mundial estavam “destinados a fazer certo tipo de negócios, como o de veículos, prioritariamente com países igualmente incluídos na periferia da economia mundial”. Divulgação/Ford mAiS AltA do mundo? O balanço da Anfavea dos resultados de 2019 só não foi positivo no que diz respeito às exportações, mercê da Argentina, e expressou a expansão das vendas internas em 8,6% com relação ao ano anterior, com quase 2,8 milhões de legítimas unidades made in Brazil, como se dizia antigamente com orgulho. Apesar disso, em seu artigo Pouco para Comemorar, publicado no site Automotive Business da quinta-feira, 16 de janeiro, o jornalista Pedro Kutney constata que a comemoração foi tímida. Que diferença com relação a mais antigamente, quando um crescimento desses certamente provocaria convite ao champanhe e a certeza de bônus gordo. Mas a anatomia do resultado mostrou que quase a metade dessas vendas é de baixa qualidade, vendas diretas, num total de 45% – e isto provoca uma outra re exão, quase involuntária: seria a taxa de lucratividade aplicada aos veículos produzidos aqui tão saborosa assim a ponto de compensar, no caixa das montadoras, a quantidade de descontos que a venda direta embute? mAiS AltA do mundo? 2 A comemoração, se sabe, foi tímida, mas sabe-se, também, que Luiz Carlos Moraes, o presidente da Anfavea, já esclareceu a dúvida: vendas diretas vieram para car, já fazem parte do ecossistema da indústria de veículos. O que chama a atenção, certamente, é a falta de referências à carga tributária bestial que carregam a indústria e o consumidor soldado de infantaria, aquele que não é pessoa jurídica nem de ciente físico. Mais ainda, hoje como ontem, chama a atenção a caixa preta do padrão de lucratividade da indústria. Kutney lembra que o chão de fábrica instalado no País, alvo de insistentes investimentos ao longo dos anos, suportaria gerar 4,5 milhões de unidades/ano com um pé nas costas – e, assim, opera com 30%, 35%, quem sabe 40% de ociosidade. mAiS AltA do mundo? 3 Esses índices são um despropósito diante dos investimentos, sempre anunciados com pompa e boca cheia. Mas a indústria parece que se dá bem com vendas diretas crescentes – evolução de 14,3% de 2018 para 2019 – e não mostra desânimo com a queda aparente da sua lucratividade. Descon o que seja maior, essa lucratividade, bem maior, do que supõem milhões de vãs observações, o su ciente para absorver a venda precarizada de coisa de 1 milhão 260 mil unidades em 2019.
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