55 AutoData | Fevereiro 2026 Segundo dados da Embrapa dos 177 milhões de hectares de pastagens hoje existentes no Brasil 100 milhões são de áreas degradadas e abandonadas, sem produtividade agrícola. É um território a ser explorado do tamanho de uma Bolívia. Parte disto já é aproveitado: nos últimos vinte anos 98% da expansão das plantações de cana-de-açúcar ocorreram principalmente sobre pastagens improdutivas. A Embrapa classifica que, destas áreas degradadas e improdutivas, 28 milhões de hectares são de terras recuperáveis com alto potencial para cultivo de matérias-primas para biocombustíveis, o equivalente a uma Itália inteira a ser plantada sem que nenhuma árvore precise ser derrubada. E estas novas áreas disponíveis nem precisam ser exploradas tão cedo, podem ser reservadas ao futuro, pois as atuais três principais culturas agroenergéticas do País – soja, milho e cana-de-açúcar – ocupam menos de 10% do território brasileiro e ainda nem atingiram seus limites de produtividade. A produção pode evoluir muito onde já está, por meio de técnicas como aplicação de corretivos de solo, aproveitamento de resíduos para fertilização e produção de ração animal, melhoramento genético de plantas e rotação de culturas. Por exemplo: a produção de cana-de-açúcar pode ser alternada com cultivo de amendoim e soja nas áreas de reforma canavieira, enquanto o milho se alterna com a soja. Assim, muito ao contrário do propalado desastre alimentar e ambiental, especialistas não ideológicos garantem que o cultivo de plantas bioenergéticas melhora as condições de produção de alimentos pois recupera e torna os solos mais férteis, traz acesso à energia, introduz mecanização e aumenta a produtividade. Tudo isto aumenta a renda e o poder de compra da população nessas áreas, inclusive para comprar mais alimentos. O professor Gonçalo Pereira provoca: “Não deveria ser fuel versus food mas biofuel for food”. PARA NÃO PERDER O BONDE Devido ao seu gigantismo bioenergético lastreado em sol, água e grandes extensões de solos férteis o Brasil até o momento é o país que reúne as melhores condições de aumentar e acelerar com competitividade a produção e o uso de biocombustíveis nos transportes, mas muitas barreiras ainda precisam ser retiradas da rota da biotransição energética veicular. “O Brasil tem hoje grande vantagem competitiva [na adoção de soluções de descarbonização dos transportes], mas este é um cenário dinâmico, não significa que continuará assim”, pontua o economista Fernando Camargo, sócio diretor da LCA Consultoria Econômica, que recentemente elaborou o estudo Iniciativas e Desafios Estruturantes para Impulsionar a Mobilidade de Baixo Carbono no Brasil até 2040, encomendado pelo Instituto MBCBrasil, organização multissetorial focada em promover a redução das emissões de carbono fóssil dos veículos no País. Para que não seja perdido este bonde da história da biotransição energética, que leva ao desenvolvimento sustentável, Camargo aconselha a adoção de políticas estruturantes para garantir o aproveitamento da oportunidade que está aberta ao País: “Temos finalmente a possibilidade de sermos competitivos em termos globais porque temos energia renovável, mas ainda falta uma agenda para chegar lá”. José Eduardo Luzzi, presidente do Instituto MBCBrasil, lista alguns dos desafios estruturantes que o País precisa endereçar nos próximos anos para destravar seu potencial energético de baixo carbono: • aumentar a oferta de biocombustíveis em todo o território nacional: existem locais que sequer têm bombas etanol para abastecimento; • ampliar a distribuição de eletricidade de fontes renováveis pelo País todo para evitar a geração por meio de combustíveis fósseis; • elevar investimentos públicos e privados no desenvolvimento de novas tecnologias descarbonizantes, como a combinação de biocombustíveis com eletrificação
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