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59 AutoData | Fevereiro 2026 protagonismo do etanol como principal biocombustível em uso para veículos leves – e como solução imediata e eficaz de baixíssima pegada de carbono, pois para cada megajoule de energia gerada emite apenas 22,73g de CO2 biogênico, que são 90% reabsorvidos pelas próprias plantações das matérias-primas utilizadas em sua produção. De quebra, a maior octanagem do etanol ainda melhora o desempenho dos motores otto. DA QUEDA AO FLEX Após o ápice de 1985, quando 92% dos carros vendidos no País rodavam com etanol puro no tanque, a crise de abastecimento do biocombustível nos postos, no fim da década de 1980, abalou a confiança do consumidor e derrubou a demanda pelo carro a álcool, enterrado de vez nos anos 1990 com a abertura das importações de automóveis exclusivamente a gasolina. Nesta época a produção de etanol combustível foi sustentada quase que unicamente pela mistura obrigatória na gasolina consumida, mas em proporção bem menor do que a atual de 30%. Mas a jabuticaba energética brasileira retomou seu protagonismo a partir de 2003, por meio de outra inovação brasileira, o carro flexfuel, que funciona com gasolina ou etanol em qualquer proporção, dando ao consumidor opção de escolha pelo combustível mais barato e retirando de cena a preocupação sobre a falta de um deles. O flex logo virou argumento de marketing, aqueceu as vendas de veículos e tomou conta do mercado: 80% dos veículos leves emplacados no Brasil nos últimos 22 anos são bicombustível, o equivalente a 45,6 milhões de automóveis e comerciais leves. Assim, por ironia, a livre opção pelo combustível fóssil acabou por salvar e aumentar o uso do biocombustível puro, o E100. Especialistas contabilizam que, em cinquenta anos, o uso do álcool combustível no Brasil já evitou a emissão de 1,4 bilhão de toneladas de CO2 fóssil. E desde o ano de lançamento dos carros flex, até 2025, mais de 730 milhões de toneladas de CO2 deixaram de ser lançadas na atmosfera pela utilização do biocombustível nos veículos bicombustível, segundo cálculos da Unica, entidade que representa produtores de açúcar e etanol. Conforme dados da EPE, Empresa Brasileira de Pesquisa Energética, em 2025, o E100 participou de 36,4% do abastecimento dos veículos flex, que somados aos 30% de etanol anidro misturado à gasolina, em um ano foram suficientes para mitigar a emissão de cerca de 50 milhões de toneladas de CO2 fóssil. Portanto, em tese seria possível, de forma muito rápida, mais que dobrar a redução de emissões se os 36 milhões de carros flex em circulação no País aumentassem o uso de E100 para algo acima dos 50%. Mesmo sem utilizar todo o potencial descarbonizante do seu principal biocombustível o Brasil se consolidou na posição de líder mundial isolado na utilização de etanol hidratado, com teor máximo de 7,5% de água. Embora outros países utilizem misturas a oferta do E100 em bombas de combustível é rara fora do contexto brasileiro. Isto também é um problema, pois ao mesmo tempo em que é uma solução descarbonizante já utilizada em larga escala no Brasil a falta de maior interesse global pelo biocombustível limita a expansão do uso ao mercado interno, cuja demanda isolada enfrenta barreiras econômicas e precisa de políticas de incentivo para crescer. Freepik Cana-de-açúcar: principal fonte de biocombustível no Brasil ainda não atingiu todo o potencial.

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