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69 AutoData | Fevereiro 2026 que deverá espalhar desenvolvimento ambiental, social e econômico que por séculos faltou ao Sertão. “Temos na região um oásis de sol, uma Arábia Saudita da fotossíntese que fornece energia para as plantas o ano inteiro, só não tínhamos tecnologia para aproveitar isto, e agora temos”, aponta Gonçalo Pereira, agrônomo, geneticista, pesquisador e professor titular da Unicamp, onde lidera o LGE, Laboratório de Genômica e Bioenergia – além de ser baiano de nascimento e apaixonado pelo Sertão. À frente do projeto para adaptar ao Semiárido o primeiro cultivo do mundo de agave dedicado à produção de biocombustíveis, o professor é enfático: “Tenho a certeza de que temos capacidade de produzir ali bioenergia para abastecer o Brasil e o mundo todo”. A PLANTA FORTE DO SERTÃO O agave já é um velho conhecido do sertanejo nordestino – e assim como ele também “é, antes de tudo, um forte”, como escreveu Euclides da Cunha em Os Sertões, ao romantizar a incrível resiliência, resistência física e capacidade de superação do povo local. Como uma das poucas plantas que sobrevivem à aridez do Sertão há séculos o agave da espécie sisalana é explorado na região por meio de cultura extrativista, de baixa produtividade, em que as folhas cheias de espinhos do agave são cortadas manualmente de plantações que sobrevivem praticamente sem cuidados. As fibras destas folhas – as mais resistentes conhecidas do mundo vegetal, utilizadas para confeccionar cordas, barbantes, tapetes e tecidos, além de alimento para o gado – são retiradas por meio de rústicas máquinas de raspagem acionadas por motores de veículos modificados. São como microusinas ambulantes, parecidas com as velhas Kombi que extraem o caldo de cana vendido nas feiras livres. Além de, por vezes, comer dedos e mãos dos operadores, o rústico processo de raspagem retira as fibras e desperdiça mais de 90% da biomassa da folha do agave, que é matéria-prima para produzir etanol, biogás, fertilizante e ração animal. DO CANAVIAL AO SERTÃO Provavelmente o enorme potencial bioenergético do agave, capaz de promover a revolução socioeconômica e ambienCultura de agave sisalana no sertão baiano: extração artesanal das fibras de sisal descarta mais de 90% da planta.

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