70 Fevereiro 2026 | AutoData tal professada por Antônio Conselheiro, teria ficado dormente para sempre se não fosse pela emergência climática do aquecimento global, que provocou a comunidade científica, no mundo inteiro, a buscar alternativas de baixo carbono aos combustíveis fósseis. Em 2010 era o que fazia o professor Gonçalo Pereira na empresa de biotecnologia GranBio, da qual foi co-fundador e cientista chefe. Ele encabeçou o desenvolvimento de etanol de segunda geração e de plantas de alto desempenho energético para cobrir áreas degradadas, como a cana-energia. “Don Chambers me procurou dizendo que estava fazendo algo similar com o agave. Eu não conhecia nada sobre isso, mas fiquei fascinado pelo fato de ser uma planta de semiárido e do potencial que teria no Brasil”, relembra Pereira, referindo-se ao agrônomo e pesquisador australiano que, em 2005, fundou a Aus Agave, empresa focada em desenvolver variedades produtivas de agave para produção de etanol em áreas desérticas da Austrália. “Na época, na GranBio, não tínhamos fôlego para novos projetos”, conta Pereira. “Mas fiquei com aquilo guardado. O clique veio em uma viagem no réveillon de 2015 para 2016, quando fui a Galinhos, no Rio Grande do Norte. Vi aquele sertão imenso, cheio de torres eólicas, mas sem ninguém trabalhando na terra. Aí pensei: é agora que vou plantar ali.” GIGANTE A DESPERTAR Logo após deixar a GranBio, em 2016, o professor deu início ao ainda incipiente Programa Agave, abrindo estudos sobre a espécie no LGE da Unicamp. Assim o gigante bioenergético hibernado no Sertão começou a mostrar seu potencial: são 108 milhões de hectares – cabem ali duas Alemanha e uma Grécia –, que cobrem 81% da Região Nordeste com terras áridas inóspitas para grande parte das culturas agrícolas mas que podem receber plantações de espécies de agave de alta produtividade, que já são adaptadas ao meio ambiente desértico e sobrevivem com pouca água. Pereira destaca que o Semiárido Brasileiro é a região mais propícia do mundo para a cultura de agave de alta produtividade: “Hoje o sisal plantado naquele sertão brabo, sem adubação, irrigação ou qualquer tecnologia, produz cerca de 50 toneladas de biomassa por hectare. Na Austrália, que tem desertos muito mais secos do que o nosso semiárido, as experiências do Don Chambers [com agave tequilera, que produz mais etanol] mediram a produção de 850 toneladas de biomassa após seis anos de cultivo com aplicação de tecnologias. Se anualizar este valor temos uma produtividade [de 147 t/ha] que é superior à da cana- -de-açúcar [quase 70% acima da média de 87 t/ha registrada na safra 2023/2024], isto em um ambiente semiárido. É uma eficiência extraordinária”. Nos ensaios realizados na Unicamp as espécies em estudo de agave tequilera – sobrenome que, não por acaso, refere- -se à matéria-prima da tequila mexicana – produzem de 5,5 mil a 6,5 mil litros de etanol por hectare plantado, que segundo o professor Gonçalo é uma produtividade parecida com a da cana, mas com a vantagem de exigir menos água. Também foi calculada a produção de biogás: cada litro de etanol produzido gera 12 litros de vinhaça, volume do qual pode se captar cerca de 1 m3 de biometano, capaz de substituir cerca de 1 litro de diesel fóssil em um caminhão. E o que sobra deste processo volta à plantação na forma de biofertilizante. BIOTRANSIÇÃO ENERGÉTICA » AGAVE/PROJETO BRAVE O professor Gonçalo Pereira ao lado de mudas de agave na Unicamp: revolução bioenergética no Sertão.
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