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71 AutoData | Fevereiro 2026 Em tese, levando-se em conta a produção de 6 mil litros por hectare plantado, se apenas 3,5% do Semiárido Brasileiro, algo como 6,3 milhões de hectares, fosse plantado com agave já seria possível produzir 37,8 bilhões de litros de etanol, o equivalente a dobrar a produção nacional – que em 2025 chegou a quase 37 bilhões de litros a partir da destilação de cana e milho. Melhor ainda, todo este potencial pode ser atingido sem desmatamento ou substituição de qualquer outra cultura. Muito ao contrário: já está comprovado que a introdução do agave em áreas áridas enriquece o solo e muda o microclima da região, tornando possível a introdução de outras culturas agrícolas até então inviáveis no semiárido, seja para produzir alimentos ou mais biocombustíveis. A cultura do agave tem ampla circularidade ambiental: depois da extração de etanol e biogás os materiais orgânicos que sobram do processamento podem ser aquecidos em fornos para produzir toneladas de biochar, o biocarvão. Trata- -se de um poderoso fertilizante que retém água e nutrientes no solo – e que também sequestra carbono presente na atmosfera, funcionando como uma esponja que absorve e fixa CO2 na terra por milênios. “O solo do sertão é quimicamente riquíssimo, mas pobre em matéria orgânica, que é o carbono”, explica o professor Gonçalo. “O biochar compensa esta falta. Ele é como um chocolate aerado de carbono, tipo Suflair, que sequestra carbono definitivamente e ainda cria nos seus poros uma casa para microrganismos que produzem nutrientes. Ao aplicarmos biochar nas plantações transformamos o solo do semiárido em um grande sequestrador de carbono mundial e ainda aumentamos drasticamente a fertilidade dessas áreas.” O PROGRAMA BRAVE Todo este potencial bioeconômico e ambiental chamou a atenção de empresas e institutos de pesquisa. Poucos anos depois do início dos estudos com o agave na Unicamp o professor Gonçalo Pereira foi procurado por representantes da Shell. A empresa enxergou no desenvolvimento do agave no Brasil um destino promissor para parte de seus investimentos obrigatórios em novas tecnologias e biocombustíveis – a legislação brasileira ordena que concessionárias de petróleo e gás apliquem Plantação experimental de agave tequilana em Jacobina, no Sertão da Bahia: futura fonte de produção de etanol e biometano em alta escala.

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