AutoData | Março 2026 67 tagem diversos modelos de caminhões sem perder eficiência. Adolpho Bastos, vice-presidente de produção e logística da VWCO, carrega a memória de cada transformação que a fábrica viveu nessas três décadas. Para ele o que sustentou o modelo ao longo de todo este tempo não foi a inovação tecnológica em si, mas algo mais difícil de replicar: “O Consórcio Modular nasceu como um sistema moderno de produção e segue assim até hoje. A base principal de nosso sucesso é e sempre foi o relacionamento, e o fortalecemos ainda mais ao longo desse período”. FÓRMULA RADICAL Quando a fábrica de Resende foi inaugurada o conceito do Consórcio Modular era uma fórmula radical concebida pelo polêmico José Ignacio López de Arriortúa, então chefe global de compras da Volkswagen – que na época estava sendo processado por seu antigo empregador, a General Motors, justamente por replicar projetos da empresa. Iniaki López bebera nas águas de um alemão, Volker Barth. Na VWCO e no Brasil López encontrou a oportunidade e os meios de colocar em prática seu projeto de dividir com os fornecedores o investimento em nova fábrica e os custos da operação que tornaria viável a existência da divisão de veículos pesados da Volkswagen, então recém-separada da Ford na Autolatina e sem linha de produção própria, até então executada na antiga planta paulistana do Ipiranga que pertencia à ex-sócia. Em meio ao escândalo de espionagem industrial o executivo basco de temperamento duro deixou a empresa um mês após a inauguração de Resende, mas deixou o legado que garantiu independência industrial e alta competitividade à jovem fabricante de caminhões e ônibus. No novo modelo de produção os fornecedores não entregavam peças na portaria e, sim, montavam o veículo dentro da linha de produção, cada um responsável por seu módulo, cada um com seus funcionários e tecnologias sob o mesmo teto. A ideia era tão disruptiva que gerou convites para palestras em universidades como Cornell, Oxford, MIT e FGV. Mas, em três décadas, a fórmula não foi copiada integralmente por nenhuma outra empresa em qualquer parte do mundo. Bastos relata o que mantém essa arquitetura funcionando mesmo após trinta anos e com um número de parceiros que pouco mudou desde a inauguração: “Ao todo somos oito parceiros, incluindo a própria Volkswagen Caminhões e Ônibus. Eventuais movimentações, ao contrário do que se possa pensar, são bastante raras. Temos muitos conosco desde a formação original e algumas atividades que evoluíram até mesmo para uma solução de aliança deles. O relacionamento forte, transparente e muito próximo é nosso grande trunfo”. GESTÃO COMPARTILHADA A gestão do sistema é, talvez, o aspecto menos visível e mais fundamental do modelo. As decisões não são tomadas de forma unilateral pela montadora, mas são negociadas com os parceiros, afirma Bastos: “Mais do que compartilhar a linha de produção, nós dividimos a gestão desse sistema e toda decisão é tomada de forma conjunta. Cada parceiro sabe de sua responsabilidade e temos o objetivo comum de produzir caminhões e ônibus Volkswagen que encantem nossos clientes. É isso que nos motiva dia após dia e essa visão unificada facilita todo nosso processo, inclusive em momentos desafiadores do mercado”. O vice-presidente destaca ainda uma dimensão da operação consorciada que frequentemente passa despercebida nas análises sobre o modelo: o relacionamento com a comunidade: “Outro pilar do sucesso do Consórcio Modular é nosso relacionamento com a comunidade, tanto com a cidade de Resende mas, sobretudo, com o sindicato.” Essa ancoragem local – que envolve a geração de empregos diretos e indiretos, a qualificação da mão-de-obra regional e o diálogo permanente com representantes
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