31 AutoData | Maio 2026 O PRÓXIMO SALTO: ELETRIFICAÇÃO. O centésimo milhão chega em um momento disruptivo. A indústria automotiva global vive sua maior transformação desde a invenção da linha de montagem e o Brasil está no centro de uma das disputas mais acirradas desse processo: a chegada em massa dos veículos chineses. Segundo a Anfavea, de janeiro a abril de 2026, 80,1 mil unidades importadas vieram da China, crescimento de 81,6% com relação ao mesmo período de 2025. O presidente Igor Calvet não deixou de reconhecer que “há oito meses consecutivos que os chineses são os maiores exportadores de veículos para o Brasil”. A Argentina, que historicamente ocupava essa posição privilegiada como principal fornecedor externo ao mercado brasileiro, perdeu espaço de forma consistente. A resposta da indústria instalada no País tem sido intensificar a produção local e diversificar o portfólio. O programa Mover, aprovado em 2024, prevê R$ 180 bilhões em investimentos de fabricantes de veículos leves e pesados ao longo de dez anos, com metas de eficiência energética, eletrificação e conteúdo nacional. Em julho de 2025 o governo regulamentou o IPI Verde, que zera o imposto para veículos compactos com baixas emissões de CO2, alta reciclabilidade e processos integralmente realizados no País, incentivo que, segundo Calvet “é um tema muito caro à Anfavea”, pois recompensa exatamente o enraizamento produtivo que a entidade sempre defendeu. A eletrificação avança em ritmo surpreendente. O Brasil alcançou a marca de 100 mil veículos eletrificados emplacados nos primeiros meses de 2026, quase o dobro do registrado no mesmo período do ano anterior. E 42% destes veículos foram fabricados no Brasil ante 23% no ano anterior. O etanol, outra vez, aparece como diferencial. O motor híbrido flex, que combina eletricidade e biocombustível, começa a ser visto por fabricantes globais como uma vantagem competitiva única do Brasil, capaz de oferecer redução de emissões com custo muito inferior ao do veículo elétrico a bateria. Foi de uma iniciativa chinesa, sob as mãos da GWM, que levou ao Brasil a vender o primeiro veículo híbrido plug- -in flex do mundo: o Tank 300. Em breve outros modelos da marca, incluindo os fabricados em Iracemápolis, SP, ganharão essa tecnologia. LIÇÃO DE UM SÉCULO A marca de 100 milhões de unidades prova que a aposta feita há um século se sustentou. Dos caminhões FNM saídos de Xerém, RJ, nos anos 1950 aos SUVs bicombustíveis que hoje dominam as vendas, o setor provou que é possível construir, em um país tropical e de renda média, uma cadeia produtiva com o nível de sofisticação que a indústria automobilística exige. O desafio para os próximos 100 milhões que, mantido ou ampliado o ritmo atual, serão alcançados em muito menos tempo, é preservar este enraizamento produtivo em um momento em que a globalização e a eletrificação da frota estão redesenhando o mapa mundial da indústria. O Brasil tem ativos únicos para este jogo: o etanol, a matriz elétrica limpa, mercado consumidor de mais de 200 milhões de pessoas e cadeia de fornecedores que levou décadas para ser construída. Saber usar estes ativos é, talvez, a principal lição que os primeiros 100 milhões têm a oferecer. Divulgação/Salão do Automóvel O Salão do Automóvel de 1978 foi um dos mais importantes na história da indústria automotiva pois o maior destaque não foi um veículo, mas o um combustível, o etanol
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