São Paulo – Desde o início do ano vigora no mercado estadunidense nova regra para aquisição de veículos elétricos que eliminou descontos para modelos que utilizam baterias e outros componentes feitos na China. Esta restrição a conteúdo chinês, que deverá ser ainda maior nos próximos anos, é claramente um movimento protecionista e de incentivo à produção local em um dos maiores e mais relevantes mercados automotivos do mundo.

Enquanto no Brasil a volta do imposto de importação é vista por alguns como medida restritiva ao desenvolvimento do mercado automotivo, em outros lugares este debate está em outra fase e demonstra que o futuro são ferramentas de desenvolvimento à produção local. E que a globalização está com os dias contados.

Não é de hoje que o governo dos Estados Unidos incentiva a retomada da produção como forma de garantir mais empregos aos seus contribuintes e, mais do que isto, manter suas grandes empresas produzindo no próprio território em vez de buscar melhores custos de mão de obra e de insumos em outras regiões.

No caso particular dos veículos elétricos é uma condição estratégica, pois os bilionários investimentos não só em novas tecnologias como em novos e modernos parques fabris ficariam no país, o que vem acontecendo. As marcas locais já anunciaram diversos investimentos na modernização das suas fábricas, na produção de baterias e de outros insumos desta e da próxima geração de modelos 100% elétricos.

Por outro lado há, neste momento, disputas ferrenhas com trabalhadores e seus sindicatos, que reivindicam melhores salários e condições para atuar no que está sendo considerada a nova fronteira do setor automotivo na região: a de desenvolvimento e produção de novas tecnologias eletrônicas e para a eletrificação de carros a cada dia mais modernos.

Mesmo neste caso o governo está do lado dos trabalhadores. O próprio presidente Joe Biden subiu recentemente em um palanque em frente a uma fábrica para apoiar os pleitos dos trabalhadores. E em todos os casos de negociações até agora as montadoras têm atendido às reivindicações trabalhistas.  

A restrição a conteúdo chinês é, portanto, apenas mais uma ação que visa a preparar a indústria estadunidense para dias ainda mais produtivos. E para que planificação seja efetiva o governo restringiu o desconto máximo de US$ 7,5 mil na compra de um veículo elétrico 0 KM apenas para modelos que não tenham baterias fabricadas na China.

Rivian R1T

Os pormenores das regras do Departamento do Tesouro divulgadas em janeiro visam a componentes de baterias fabricados por qualquer empresa sujeita à jurisdição chinesa. Em 2025 as restrições serão ampliadas para incluir fornecedores de matérias-primas essenciais para baterias, como níquel e lítio.

Uma mãozinha para as vendas

Os incentivos movem o mercado de veículos elétricos nos Estados Unidos. Sem estes descontos, que dependendo de fatores como componente da bateria e local de fabricação das peças gera crédito fiscal oferecido pelo governo que pode variar de US$ 3 mil 750 a US$ 7,5 mil, há poucas vantagens para o consumidor. E o preço dos 100% elétricos torna-se inviável para muitos potenciais clientes.  

No ano passado 25 modelos elétricos estavam liberados para o desconto máximo, de US$ 7,5 mil. Mas quando as novas regras ligadas à Lei de Redução da Inflação entraram em vigor em 1º de janeiro, o número caiu drasticamente – para treze modelos.

Tesla Model Y

Fazem parte da lista dos elegíveis ao crédito fiscal máximo o Tesla Model Y, a picape Rivian R1T e a Ford F-150 Lightning, dentre alguns outros. Ficaram de fora algumas versões do automóvel mais vendido da Tesla, o Model 3, a picape Tesla Cybertruck e os elétricos da GM, Chevrolet Blazer e Silverado, além do Nissan Leaf.

O governo também excluiu da lista dos elegíveis a créditos fiscais alguns modelos importados pela fabricante coreana Hyundai. Somando as vendas com a da sua outra marca, a Kia, a Hyundai figura no segundo lugar do ranking de elétricos nos Estados Unidos, muito atrás da Tesla, que vendeu mais de 507 mil unidades em 2023 contra 69,3 mil da vice-líder.

Para manter este ritmo enquanto não fica pronta sua fábrica no Estado da Georgia, que deve produzir modelos elétricos até o fim do ano, a Hyundai está bancando o desconto de US$ 7,5 mil para seus modelos Ioniq 5, Ioniq 6 e Kona elétricos no mercado.

Os descontos oferecidos pela Hyundai demonstram a importância dos incentivos ao consumidor para a adoção dos veículos 100% elétricos e a maturação deste mercado. Com menos veículos elétricos na lista dos descontos os estoques nas revendas começaram a crescer e chegaram a 114 dias contra pouco menos de setenta dias dos modelos a combustão interna em dezembro, de acordo com os dados da consultoria Cox Automotive. Os tradicionais modelos a combustão ainda foram oito em cada dez veículos vendidos nos Estados Unidos no ano passado.

Segundo reportagem da Bloomberg outros fatores, além da restrição aos créditos fiscais ou a falta de descontos mais atraentes, preocupam os consumidores. A acessibilidade às estações de carregamento não é o único obstáculo, contou a reportagem: os potenciais compradores de veículos eléctricos também estão nervosos com o estado da rede de carregamento acima do rio Grande.

Os repórteres da Bloomberg descreveram os casos ocorridos em janeiro, quando uma onda de frio esgotou as baterias dos carros elétricos, gerando longas filas e mau funcionamento das estações de carregamento em cidades como Chicago. Este efeito é de conhecimento geral, mas é bom relembrar que quando as temperaturas caem vertiginosamente a carga se esgota rapidamente e a bateria também perde a sua capacidade de reter a energia.

Ford F-150 Lightning Platinum

Diante de tantos desafios, como a projeção de queda de 11% das vendas de veículos puramente elétricos no mercado estadunidense em 2024, a reportagem da Bloomberg revela pesquisa realizada com 250 mil consumidores pela consultoria Strategic Vision: metade destes compradores disseram que não estão interessados em adquirir estes modelos.

Alexander Edwards, presidente da Strategic Vision, resumiu o dilema: “Muito poucas pessoas querem gastar US$ 55 mil para se preocupar”.