São Paulo – Ao assumir a presidência da divisão da América Latina e Caribe da Toyota, em meados de 2013, Steve St Angelo se surpreendeu: apesar de produzido em Indaiatuba, SP, o Corolla vendido na maior parte dos quarenta países da região era importado de uma fábrica no Mississippi, Estados Unidos. A unidade paulista abastecia apenas os mercados do Brasil e da Argentina.
Não era uma decisão irracional, como o próprio St Angelo pôde comprovar ao se aprofundar na questão: apesar de geograficamente mais próximo dos mercados o custo de produção brasileiro era superior ao de trazer o carro pronto dos Estados Unidos, adicionando as despesas de frete.
O executivo definiu, portanto, uma das missões de sua equipe a partir daquele momento: tornar a Toyota do Brasil o principal canal de abastecimento para os mercados de sua região.
Dez anos depois a Toyota enviou para 22 países 82,4 mil unidades de Corolla, Corolla Cross, Etios e Yaris. Nenhuma outra montadora alcançou volume maior em 2023: a Toyota foi a maior exportadora de veículos do Brasil, respondendo por uma em cada cinco unidades exportadas no ano passado.

Ocupou também melhor suas fábricas de Indaiatuba e Sorocaba, SP: 40% do volume produzido nas duas unidades teve como destino mercados do Exterior. Também é algo digno de nota, pois a média histórica do setor, no Brasil, é de 15% da produção exportada, segundo Roberto Matarazzo Braun, diretor de comunicação corporativa e ESG da companhia.
Superou a Volkswagen
Tradicionalmente a maior exportadora de veículos do Brasil é a Volkswagen. Foram mais de 4 milhões de unidades na história, incluindo alguns Passat produzidos exclusivamente para atender o mercado do Iraque nos anos 1980. O maior volume da história para uma empresa instalada no Brasil.
No ano passado as exportações da Volkswagen somaram 62,8 mil unidades, o que a deixou atrás da Toyota.
No total o Brasil exportou 403,9 mil veículos em 2023, uma queda de 16% na comparação com o ano anterior. Apesar de ser líder a Toyota também teve redução nos volumes: de 96,3 mil para 82,4 mil veículos, recuo de 14,4%, abaixo da média do mercado. Segundo a Anfavea as exportações brasileiras caíram especialmente por dificuldades em mercados como Chile e Colômbia, que amargaram queda de mais de 30%, e Argentina, que passa por dificuldades econômicas e, em 2023, sobretaxou carros brasileiros.
Desenvolvendo produtos para a região
A grande virada dos volumes da Toyota começou em 2021, com o lançamento do Corolla Cross. Foi o primeiro veículo produzido no Brasil a ser exportado para mais de duas dezenas de mercados. Desde o seu lançamento partiu para Argentina, Aruba, Bahamas, Belize, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Curaçao, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, St Maarten, Uruguai e Venezuela.
Em 2022 foram exportados 37,3 mil Corolla Cross, o maior volume para um modelo Toyota made in Brazil na história. No ano passado 31,7 mil unidades do SUV cruzaram as fronteiras. Em paralelo cresceram também os volumes de outros modelos, como Corolla, Yaris e Etios.
“Passamos a desenvolver produtos com as configurações pensadas para atender a região como um todo”, disse Braun. “Estamos exportando automóveis equipados, com elevado índice de segurança e tecnologia. Aos poucos fomos crescendo e conquistando espaço.”

Além de ocupar melhor as fábricas a exportação tem como objetivo criar um hedge natural para as flutuações cambiais e proteger a Toyota local de eventuais subidas da moeda, quando cresce, também, o custo das peças importadas. Mesmo que de 60% a 70% dos componentes usados nos veículos produzidos pela Toyota brasileira sejam locais ainda existe a necessidade de importar alguns sistemas – como por exemplo o conjunto híbrido que equipa o próprio Corolla Cross.
“Fomos pioneiros na exportação de modelos eletrificados. Hoje abastecemos a América Latina com Corolla e Corolla Cross híbridos. A única diferença destes modelos para os vendidos no Brasil é que eles não possuem a tecnologia flex.”
Foi desenvolvido também dentro deste conceito o próximo lançamento da Toyota no mercado local, um SUV compacto que, segundo fontes não oficiais, será o Yaris Cross. A expectativa é que sejam exportadas também versões a combustão e híbridas para os demais mercados latino-americanos – o que ajudará a recompor volume de exportação perdido pelo Etios, que saiu de catálogo aqui e lá fora.
O compacto produzido em Sorocaba foi mantido em linha justamente para atender a demandas do Exterior, após ter sua venda descontinuada no mercado brasileiro em 2021. No ano passado foram exportadas 22 mil unidades do Etios para Argentina, Paraguai, Uruguai e Peru.

Braun antecipou para a Agência AutoData que em algum momento do primeiro trimestre a Toyota Brasil superará a marca de 700 mil veículos exportados em sua história. Além dos automóveis a companhia envia para os Estados Unidos motores produzidos em Porto Feliz, SP.
Hoje aposentado St Angelo deve olhar para os resultados de exportações da Toyota em 2023 e sorrir. Mas ainda não completamente satisfeito: em 2014 disse que seu sonho era exportar veículos para os Estados Unidos. Hoje só vão motores. Quem sabe em breve os carros nacionais também não seguirão para lá?