São Paulo – Em contraposição à desindustrialização, termo tão usado nos últimos anos para qualificar a condição do Brasil na qual a indústria de transformação vem perdendo terreno no PIB diante de outras atividades econômicas, especialmente o agronegócio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a adotar, neste seu terceiro mandato, um antídoto que chama de neoindustrialização. A palavra significa mais do que reindustrialização: além de recuperar o tempo perdido e as muitas fábricas fechadas nos últimos anos embute a intenção de posicionar a indústria brasileira nos degraus mais altos da competição global, com foco na adoção de tecnologias de última geração e produção de insumos estratégicos para o País.
O primeiro passo, celebrado por boa parte das entidades representativas de setores industriais nacionais, foi a recriação do MDIC, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, que no governo anterior operou como uma secretaria do Ministério da Economia. Empresários e executivos reclamaram que, naquele período, além do nítido desprestígio a indústria perdeu interlocução no governo.
Lula nomeou Geraldo Alckmin, seu vice-presidente, para ocupar o cargo de titular do MDIC – ainda que após ouvir alguns nãos, como o do presidente da Fiesp, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Josué Gomes, filho de José Alencar, que fora vice-presidente de Lula nos seus primeiros dois mandatos.
O ex-governador do Estado de São Paulo tem costurado boa interlocução com os industriais e, segundo relatos de executivos e empresas, compreende e trabalha a favor dos interesses do setor no governo.
Prova dessa colaboração foi a criação do programa NIB, Nova Indústria Brasil, um conjunto de políticas e ações para as quais foram destinados nada menos do que R$ 300 bilhões do BNDES e outras fontes para financiar a neoindustrialização, no período 2024-2026. A política foi elaborada dentro do CNDI, Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial, formado por representantes do governo, da iniciativa privada e de entidades de classe.
Missões automotivas
O NIB está estruturado em seis missões, definidas pelo CNDI como Norte da política industrial. Das seis ao menos cinco conversam com a indústria automotiva de alguma forma, direta ou indiretamente. Até mesmo o pilar que trata do desenvolvimento da indústria da saúde, embora não tenha o setor automotivo como ponto interessado, acaba beneficiando a cadeia pois serão necessárias ambulâncias para ampliar o acesso da população aos serviços de saúde.
“Setor automotivo não é só carro de passeio, envolve as montadoras e os fornecedores, caminhão e ônibus”, observa Igor Calvet, diretor executivo da Anfavea, entidade que reúne os fabricantes de veículos instalados no País. “E o NIB, ainda que indiretamente, gera impacto na indústria em eixos que não são especificamente destinados a ela, como a agricultura sustentável, na qual entra toda a cadeia das máquinas autopropulsadas.”
Calvet se refere à Missão 1 do NIB, “cadeias agroindustriais sustentáveis e digitais”: nela a óbvia participação da indústria automotiva é no fornecimento de máquinas e equipamentos, mas é possível entrar empresas de toda a cadeia, inclusive fabricantes de caminhões, que podem colaborar com a redução das emissões de CO2 ao oferecer os motores Euro 6 mais modernos e alternativas de biocombustíveis, como biometano, HVO e outros.
A Missão 3 do programa, que trata das cidades inteligentes e mobilidade sustentável, a indústria automotiva tem a óbvia participação com o fornecimento de veículos de transporte público, dentre outras possibilidades.
A Missão 4 é importante para financiar a atualização dos processos industriais do setor e posicionar as empresas na transição tecnológica, com incentivo à adoção de tecnologias da Indústria 4.0 em seus parques fabris.
Na Missão 5, que trata da descarbonização, o setor automotivo é pilar fundamental para reduzir a emissão de CO2.
E na Missão 6, “tecnologias de interesse para a soberania e defesa”, as fabricantes de veículos e peças apoiam com sua tecnologia de veículos e sistemas de propulsão.

Vetor de outras indústrias
Em paralelo com o Mover, Programa Mobilidade Verde e Inovação, a política industrial brasileira reforçada pelo NIB tende a potencializar a indústria automotiva nacional. Nos cálculos de Calvet a tendência é elevar a participação do parque automotivo no PIB Industrial, hoje na casa dos 20%: “A conjuntura é favorável, a tendência é de o mercado voltar a crescer, por diversas razões como queda da taxa de juros, o marco das garantias, o reaquecimento da economia. Só que como o setor representa uma condição de valor agregado maior, crescerá mais do que os outros setores”.
É inegável que Lula, por meio do ministro Alckmin, deu atenção especial à indústria automotiva nesta primeira metade de seu terceiro mandato. A começar com o programa de descontos promovido no meio do ano passado, que ajudou a tirar da estagnação as vendas de veículos – foram destinados nada menos do que R$ 700 milhões para patrocinar descontos para o consumidor na compra um automóvel ou comercial leve zero-quilômetro, e outro R$ 1 bilhão foi reservado a caminhões e ônibus, mas nem todo o dinheiro foi usado.
A explicação para esta preocupação do presidente, afora ele ter trabalhado na indústria em seus tempos de metalúrgico, é o potencial da produção de veículos funcionar como alavanca para a própria economia.
“A indústria automotiva tem uma importância grande na geração de empregos de qualidade”, afirma Samy Moscovitch, analista de produtividade e inovação da ABDI, Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial. “Se expandirmos o olhar para o complexo da mobilidade da logística a geração de empregos é muito maior, sem contar postos de gasolina, oficinas mecânicas etc.”
“O setor automotivo é um setor vetor”, endossa Calvet, da Anfavea. “Ele puxa outros setores, como o de vidro, que puxa o de areia, puxa o de eletroeletrônicos, o de autopeças. Existe toda uma cadeia que está por trás da montadora.”
Investimento puxa investimento
Os cerca de R$ 130 bilhões em investimentos em curso anunciados pelas fabricantes de veículos no Brasil, em um horizonte que se estende até 2030, segundo a contabilidade do MDIC, tendem a funcionar como ponto de partida para que mais aportes sejam feitos por outras empresas, de outros setores.

Cláudio Sahad, presidente do Sindipeças, que representa as empresas fabricantes de autopeças, garante que o setor fornecedor está preparando investimentos. Na última projeção, feita em fevereiro, a expectativa era de R$ 6 bilhões este ano, 2% a mais do que em 2023: “Quando há previsibilidade de demanda as nossas empresas também elevam seus investimentos. É muito provável que o volume de investimentos previstos para 2024, em uma estimativa feita antes dos anúncios das montadoras, cresça bem mais”.
Até o fechamento desta reportagem o Sindipeças ainda não tinha atualizado suas projeções oficiais, obviamente alteradas após os seguidos anúncios de investimentos por parte de seus clientes, as fabricantes de veículos.
Avanço tecnológico
Uma das grandes preocupações do governo é com a atualização tecnológica da indústria. Grandes empresas já avançaram para a Indústria 4.0 e digitalizaram sua produção, mas os pequenos empresários, sem saúde financeira, continuam estagnados nessa área.
A intenção do governo é que 90% das empresas industriais brasileiras sejam digitalizadas para que a participação da produção nacional em novas tecnologias seja triplicada. Hoje o índice de digitalização, segundo o próprio governo, é de 23,5%.
Para fomentar a inovação e digitalização da indústria foram reservados R$ 66 bilhões em financiamentos do Programa Mais Inovação com recursos do BNDES e da Finep, com custo de taxa TR, além de linhas não reembolsáveis definidas pelo CNDI.

Sahad, do Sindipeças, diz que linhas de financiamento não têm sido gargalo para o setor, mas comemora a chegada de mais recursos. E destaca o Mover e seus projetos prioritários, que também atuam neste sentido: “Eles possibilitaram a muitas pequenas e médias empresas investir em inovação e desenvolvimento tecnológico”.
Do lado das montadoras, segundo Calvet, da Anfavea, boa parte dos R$ 130 bilhões do ciclo atual de investimentos tem este objetivo: “Todos os investimentos miram, principalmente, produtos e processos. Melhoria de processo produtivo, seja automação do chão de fábrica, melhoria da produtividade e novas plataformas para novos produtos”.
Segundo o diretor executivo da Anfavea os investimentos de anos atrás, após o Inovar-Auto, visavam à ampliação da capacidade produtiva que vislumbrava uma demanda que ainda não veio.
“Então temos capacidade ociosa. Portanto, tirando as empresas que estão entrando agora, não deverá haver investimento em ampliação de fábricas.”
O objetivo agora é reduzir a diferença de tecnologias e produtividade que eventualmente existe com outras regiões do mundo e posicionar as fábricas brasileiras no nível global, tornando possível a competição por mais investimentos em um futuro novo ciclo.
De volta ao jogo
Afora NIB e Mover Calvet cita outras políticas do governo que ajudam a alavancar a produção automotiva, estas de forma mais concreta: “Temos as obras do PAC, que puxam a demanda por máquinas propulsadas e caminhões. O Caminho da Escola, que gera efeito direto na indústria de ônibus”.
“O setor automotivo está de volta”, sentenciou Márcio de Lima Leite, presidente da Anfavea, em evento que marcou o lançamento das primeiras regulamentações do Mover, em Brasília, DF, na presença do presidente Lula. De fato há muito tempo não há uma perspectiva tão otimista quando se olha para o horizonte. O que não pode acontecer, novamente parafraseando Lima Leite, que usualmente cita Roberto Campos, é o País “perder a oportunidade de perder uma oportunidade”.