São Paulo – O transporte de pessoas sobre duas rodas promoveu a injeção de R$ 5 bilhões ao PIB do Brasil em 2023, o que significou 0,05% da geração nacional de riquezas. Foram R$ 2 bilhões de incremento direto na renda das famílias, por meio de salários e pagamentos por serviços prestados. Esta pesquisa que envolve a micro mobilidade foi encomendada à FGV, Fundação Getúlio Vargas, pelo aplicativo de corridas 99.

A cifra de R$ 5 bilhões é igual ou maior do que o PIB de 95% dos municípios brasileiros, a exemplo de Ubatuba, SP, Caldas Novas, GO, e Nova Friburgo, RJ. Outro comparativo é que equivale a 40% do total gasto mensalmente com o programa Bolsa Família, do governo federal.

Trata-se de impacto imediato na geração de empregos diretos e indiretos, incluídas tanto pessoas que trabalham nesta atividade como no comércio e na locação de motocicletas, combustíveis e seguros, com efeito dessa cadeia na realidade de 114 mil profissionais.

“É um número bastante relevante. Apenas para dar uma dimensão do que ele representa: se considerarmos a criação de empregos formais no ano passado, conforme dados do Caged, de 1 milhão 480 mil, esta modalidade pesquisada representa mais ou menos 7,6% do volume total”, avaliou Renan Pieri, doutor e mestre pela Escola de Economia de São Paulo da FGV. Outro comparativo é que o número supera a população de municípios como Ouro Preto, MG.

Há, ainda, reflexo sobre a arrecadação de impostos, diretos e indiretos, de R$ 461 milhões, o que equivale a 2,1% de toda a receita tributária do Estado de São Paulo, conforme dados de fevereiro de 2024. O valor superou o recolhimento anual de tributos sobre bens e serviços em municípios como Porto Seguro, BA, em 2021.

“Além disso a renda gerada para os motociclistas também acaba se tornando consumo, o que induz outros setores de atividade econômica a produzirem mais e, consequentemente, a gerarem mais renda”, afirmou Pieri. “Ter mais pessoas se locomovendo pelas cidades ativa fortemente o comércio. Mas há também impacto sobre materiais de transporte e até efeitos indiretos, um pouco mais distantes, mas ainda significativos, sobre agricultura, setor de alimentos e vestuário.”

A metodologia de consumo de produto da FGV mapeou o encadeamento dos setores no relatório de impacto econômico do transporte de duas rodas por aplicativo. Portanto o que é consumido de vestuário e entretenimento, e desembolsado com saúde e alimentação, entra nesta conta:

“Observamos, durante a pandemia, que o aumento do poder de compra com programas de transferência de renda, na época, gerou impacto muito forte no consumo de alimentos. Em torno de 3% do efeito gerado é sobre a agricultura, nesses outros setores de maneira secundária e induzida”.

Estados mais pobres têm maior reflexo no PIB

Os estados mais impactados pelo 99Moto em 2023, em termos de aumento da participação do PIB, são Amazonas e Amapá, com 0,16% cada, empatados em primeiro lugar, seguidos de Ceará e Pernambuco, ambos com 0,15%, Sergipe, com 0,14% e Piauí, com 0,13%.

Trata-se de locais com poder de consumo bastante reduzido, por isto o modal duas rodas aparece como uma alternativa aos transportes públicos ou mesmo opção para interligá-los. O Amazonas destaca-se também por causa da Zona Franca de Manaus, onde está concentrada a produção nacional de motocicletas.

“Se imaginarmos que existem várias atividades econômicas no País e num Estado, e pensarmos que uma atividade econômica sozinha consegue aumentar o PIB do Amazonas e do Amapá em 0,16%, temos impacto bastante expressivo.”

Em termos absolutos o reflexo maior é visto no Rio de Janeiro, com acréscimo de R$ 872 milhões ao PIB estadual por causa da atividade da 99Moto, de acordo com o levantamento da FGV, principalmente na Capital, responsável pelo crescimento de R$ 443 milhões no PIB do município, já considerados impactos diretos, indiretos e induzidos.

Em segundo lugar aparece o Estado de São Paulo, embora na Capital o serviço de moto táxi ainda não esteja operando, com incremento de R$ 650 milhões. Para fechar o pódio em Pernambuco o aumento é de R$ 447 milhões, sendo só Recife responsável por acrescentar R$ 249,7 milhões ao PIB da cidade. O quarto lugar ficou com Amazonas, com avanço de R$ 363 milhões, tendo Manaus, onde a cultura de motocicleta é arraigada, contribuído com aumento de R$ 336 milhões.

Alguns municípios paulistas foram incluídos na análise, como Osasco, com impacto de R$ 55 milhões, e São Bernardo do Campo, com R$ 30 milhões. E foi realizada, ainda, simulação do efeito da introdução do transporte por motocicleta no município de São Paulo, que geraria acréscimo de R$ 820 milhões no PIB, quase o mesmo que em todo o Estado do Rio de Janeiro.

“Para tanto foi tomada por base a frota de motos da cidade, bastante expressiva, e comparada com o restante do Estado de São Paulo onde o modal já existe. Projetamos quanto haveria de corridas em São Paulo, no município, de acordo com o que a gente observa no resto do Estado, dado o tamanho da frota existente.”

Quanto ao aumento de arrecadação de impostos diretos e indiretos a cifra seria de R$ 28 milhões, além da geração de 11 mil postos de trabalho diretos e indiretos: “Vale ressaltar que este impacto transborda para outras regiões. Sabemos que se aumentar a demanda por serviços em São Paulo isso gera procura por produtos de outras regiões, que acabam vendendo para São Paulo, que consequentemente gera renda para outras regiões”.

O valor total, portanto, chegaria a R$ 955 milhões, com número de empregos estimado em mais de 13 mil ocupações, somando São Paulo e o resto do Brasil, um aumento de R$ 451 milhões na renda das famílias, apontou o doutor e mestre pela Escola de Economia de São Paulo da FGV: “É uma forma de geração de renda que transborda para toda a economia e tem um potencial econômico bastante positivo”.

Transportar pessoas tem ganho até 75% maior

Desde que foi lançada, em 2022, a 99Moto cresceu bastante, segundo Fernando Paes, diretor de relações governamentais da 99, motivo pelo qual a empresa encomendou a pesquisa à Fundação Getúlio Vargas: “Como vimos pelo levantamento os números da 99Motos, sozinhos, são muito expressivos, então é possível inferir que o impacto do transporte de passageiros sobre duas rodas no Brasil é muito maior”.

Paes relatou que existe atualmente 1 milhão de motociclistas cadastrados no aplicativo: “O motociclista que transporta pessoas ganha, em média, de 60% a 75% a mais do que o entregador de comida, o entregador de bens”.

De acordo com o executivo a 99 já distribuiu para os seus motociclistas mais de R$ 1,5 bilhão nestes dois anos de atividade no Brasil.

De acordo com pesquisa da Ipsos citada pelo diretor de relações governamentais a 99 é a empresa mais bem avaliada no mercado de moto, hoje, por 56% dos entrevistados. E que 75% dos usuários do modal possuem de 18 a 44 anos: “Ou seja: é público mais jovem que está buscando interconexão com o transporte público e agilidade”.

Este mesmo levantamento apontou que 59% dos usuários são mulheres e que 68% se declararam pretos ou pardos: “O dado sobre as mulheres foi uma grata surpresa, uma vez que utilizam esse serviço para ir ao trabalho, a um ponto de ônibus, a uma estação de trem”.

Segundo Paes os preços tendem a ser até 30% mais baratos do que uma corrida de carro.

“Apesar de não haver hoje 99 Motos em São Paulo há discussão aberta sobre a viabilidade do moto táxi na Capital. Sabemos que existe transporte informal de passageiros em duas rodas na cidade, e entendemos que em algum momento isto será regulamentado.”

Outros dois dados importantes, de acordo com o executivo, é que 99,99% das corridas sobre duas rodas são concluídas em segurança — “e, quando a gente compara o transporte na 99Moto e fora do aplicativo, temos outro dado significativo: é catorze vezes mais seguro andar conosco do que fora da plataforma”. Para chegar a esta conta foram levantadas quantas vezes o seguro DPVAT é acionado em caso de acidente por 1 milhão de corridas, sendo fora do aplicativo 57,7 vezes e, pela 99, 4,1 vezes.

Otimista com o crescimento e o potencial deste mercado no ano passado a 99 investiu R$ 40 milhões na segurança de todo transporte oferecido pela companhia. A empresa, conforme Paes, possui série de exigências que passam por vestuário do motociclista, a obrigatoriedade do uso do capacete também ao passageiro e a forma como deve ser utilizado. Há a oferta de cursos de direção defensiva e seguro obrigatório aos profissionais.