São Paulo – Muito tem se falado sobre os esforços do setor automotivo para promover a descarbonização ao reduzir a emissão de CO2 dentro e fora das fábricas. Há, porém, outro efeito colateral da atividade industrial de grande impacto no meio ambiente que não tem sido atacado com a mesma intensidade ao da descarbonização: a geração de resíduos. Dados elaborados pela startup de gestão de resíduos Vertown a partir de informações do Ibama, da Abrelpe, Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais, e da base de dados de mais de 2 mil clientes da empresa, apontam que a cadeia automotiva é responsável pela geração de 14% dos resíduos sólidos do País.

Segundo Guilherme Arruda, CEO da Vertown, embora os números remetam a 2022, os mais recentes disponíveis, eles ilustram realidade que vai na contramão das tendências mundiais de descarbonização, pois a produção em larga escala de veículos resulta em enormes quantidades de resíduos sólidos, emissões significativas de gases de efeito estufa e impacto ambiental considerável.

“Hoje o foco está na transição para os carros elétricos mas acho que existe uma complexidade maior nesse processo que não é simplesmente trocar o modelo a combustão pelo a bateria. Isso porque os resíduos não desaparecerão com a mudança da forma de propulsão. Precisamos olhar para toda essa cadeia.”

Arruda entende que a solução não é simples e que é necessário fazer uma rastreabilidade do processo, a fim de identificar a origem destes resíduos e para onde vão, e então entender como será possível reduzir aquele volume.

Até porque, conforme estudo da Abrelpe, somente 4% das 82 milhões de toneladas de resíduos urbanos produzidos em 2022 foram reciclados. Os 96% restantes tiveram como destino aterros controlados, lixões a céu aberto ou destinações incorretas em grandes centros urbanos.

De acordo com Arruda a incineração de resíduos sólidos relacionados à fabricação de automóveis, que somente em 2022 liberou 1 milhão 492 mil 641 toneladas de CO2 na atmosfera, é equivalente à derrubada de aproximadamente 67 milhões 847 mil 318 árvores — “Queimar gera outro problema: poluir a atmosfera”.

Dentre estes resíduos destacam-se os provenientes da produção e da utilização de materiais como metais, plástico, vidro, borracha, fluidos e componentes eletrônicos na indústria automotiva. E, futuramente, será agregado a este problema o descarte de baterias.

“Quando falamos dos resíduos que possuem valor de mercado mais elevado, como os metais, normalmente eles são vendidos e reciclados. Mas e os outros que também compõem os veículos? Hoje identificamos que eles não possuem destinação tão clara nem tão fácil como se imaginava.”

O executivo destacou que o levantamento inclui não só o que há no produto final do carro, mas também resíduos do processo produtivo: material contaminado, resina, efluentes. Além disso o setor de máquinas e equipamentos gera quantidade grande de resíduos, assim como empresas de produção de embalagem.

Metais gerados pelo setor automotivo são mais fáceis de destinar e até comercializar, mas há outros resíduos que não possuem descarte correto. Foto: jcomp/Freepik.

Sobre a importância de realizar a rastreabilidade do processo, entender onde estão os maiores gargalos do processo e identificar para onde estes resíduos todos estão indo, se para aterro ou para reciclagem, o executivo destacou a necessidade de se atentar também às emissões de CO2 neste processo.

“Por exemplo: às vezes os destinadores estão muito longe, e é preciso considerar o que o transporte deste resíduo lança na atmosfera”, ponderou. “Às vezes também o valor agregado não é expressivo e torna-se caro reciclar.”

É aí que a Vertown entra, ao prestar consultoria e desenvolver inteligência a partir dos dados coletados a fim de indicar soluções mais adequadas aos resíduos gerados.

Um dos cases da startup identificou que o destinador dos resíduos estava muito distante e, ao sugerir um local de reciclagem mais próximo, foram eliminadas 80% das emissões de CO2 no processo de gestão de resíduos.

“A transição para uma economia circular em que os materiais são reutilizados e reciclados é essencial para reduzir o impacto ambiental do setor. Além disso investimentos em tecnologias limpas e na promoção de transportes públicos eficientes são fundamentais para reduzir as emissões.”