Descendente direto de um empresário bem sucedido do ramo da distribuição de veículos, José Luiz Gandini conhece os sintomas do mercado brasileiro como poucos – fruto de sua observação diária, na condição de presidente do Grupo que leva seu sobrenome, que possui concessionárias de automóveis, comerciais leves e motocicletas, e da própria experiência no ramo, que remonta à sua juventude.
Em entrevista exclusiva concedida à Agência AutoData, por e-mail, o empresário, também ex-presidente da Abeiva e fanático palmeirense, dá sua visão para explicar o atual momento das vendas no mercado interno: pura falta de confiança do consumidor. “Quem tem dinheiro prefere guardar e que não tem está fugindo de um financiamento”, argumenta. Confira.
A que o senhor atribui os resultados fracos de venda do primeiro bimestre? A volta da recomposição total do IPI, causando aumento de preços no varejo, pode ser considerada como o principal fator?
Entendo que há uma crise de confiança por parte dos consumidores brasileiros, antes do fator recomposição total do IPI. Os consumidores estão receosos em investir. Quem tem dinheiro quer guardar e quem precisa financiar está receoso em assumir quaisquer dívidas, principalmente com planos de médio ou de longo prazo.
Especificamente sobre a Kia, números da Fenabrave indicam 3,1 mil unidades vendidas no primeiro bimestre de 2015, em queda de 25% no comparativo anual. Ainda que na mesma faixa de retração do mercado geral, o índice é mais significativo para uma empresa de menor volume, como é o caso. De que forma esta retração está sendo administrada no dia-a-dia? Houve mudanças nos planos de negócios?
Em 2014 a Kia Motors do Brasil comercializou no varejo 23 mil 793 unidades. Se analisarmos friamente os números, fomos muito bem. Não se esqueça que a nossa cota [de importação sem IPI majorado em 30 pontos porcentuais, de acordo com as regras do Inovar-Auto] é de 4,8 mil carros ao ano. Assim, estamos pagando os trinta pontos adicionais da diferença, coisa que nenhuma outra marca está fazendo em grandes volumes, como é o nosso caso.
As atuais estimativas de venda da Kia Motors no País para este ano estão mantidas perante aquelas calculadas no fim de 2014? Quais seriam os números?
Nossa projeção para este ano é semelhante ao resultado obtido no ano passado, em 25 mil unidades. Apesar da crise de confiança e da instabilidade política, esperamos que todos os ajustes fiscais sejam colocados em prática o mais rápido possível, de modo que, no segundo semestre, a economia retome índices mais promissores. Confirmo que nosso objetivo inicial é chegar às 25 mil unidades este ano, mas este número será totalmente repensado se o câmbio se fixar nas atuais bases, em taxa próxima a R$ 3,10 como agora. Para tanto, contamos com o apoio da Kia Motors Corporation.
Diante do atual quadro qual será a estratégia de varejo e publicidade da Kia daqui por diante? O sr. iniciou campanha em jornais na semana passada ofertando bônus de R$ 10 mil para o Sorento. Iniciativas como esta serão reforçadas? E o apoio comercial às novelas de grande audiência, será mantido?
O bônus de R$ 10 mil já faz parte de uma ação para incrementar nossas vendas, neste momento crucial da economia brasileira. Vamos tentar manter as ações de merchandising, mas agora dentro de novas realidades, reforçando ações na internet.
Com relação ao tamanho da rede Kia este é considerado bom para o atual momento do mercado ou serão necessários ajustes?
Hoje a rede está formada por 132 pontos, o que representa uma proporção adequada para este momento.
Sobre a Geely, montadora que o sr. também representa no País e da qual assumiu a presidência, os planos estão mantidos? No último salão do automóvel a marca revelou projeção de vender 5 mil unidades no Brasil em 2015. Este número ainda se mantém?
Sim.
As operações da fábrica da Kia no Uruguai, onde é produzido o caminhão leve Bongo, estão mantidas normalmente?
Felizmente tudo está correndo muito bem.
O segmento de luxo, que antes destoava do mercado geral, fechou o primeiro bimestre em retração nas vendas no País. Os modelos Audi, BMW, Jaguar Land Rover e Mercedes-Benz, as quatro fabricantes que investem em fábricas no País, registraram licenciamentos 6,2% inferiores na soma de janeiro e fevereiro na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo dados da Abeifa e da Anfavea.
Ruben Barbosa, diretor de operações da Jaguar Land Rover no Brasil, espera que o câmbio fique mais estável até o fim do ano. A montadora iniciará sua produção local em 2016, na cidade de Itatiaia, RJ. “Torcemos para que a taxa esteja oscilando menos quando inauguramos a fábrica.”
Embora o presidente da Anfavea, Luiz Moan, considere positiva a superação da barreira dos R$ 3 pelo dólar, a desvalorização do real ainda não foi bem digerida pelas montadoras. Nenhuma das empresas que retornaram às solicitações de entrevista da Agência AutoData observou aspectos positivos na recente escalada da moeda estadunidense – ao contrário: Chery, Fiat, Honda, Mercedes-Benz e PSA Peugeot Citroën entendem que a situação desfavorece a indústria e a própria economia.
A taxa do dólar alcançou, superou e, ao menos nos últimos dias, se estabilizou acima dos R$ 3. Devido o seu recente histórico, é arriscado dizer que a cotação da moeda estadunidense alcançou um novo patamar definitivo e que a indústria precisa se adaptar à nova realidade: em 26 de janeiro sua cotação estava em R$ 2,57. Na quarta-feira, 11, menos de 45 dias depois, fechou em R$ 3,12.
ATÉ ONDE VAI? – A escalada de 20% do dólar em apenas seis semanas prejudica muito mais o planejamento das empresas, sejam montadoras ou importadoras, do que a estabilidade da moeda em qualquer patamar. Visconde, da Abeifa, reclama da volatilidade.
O pragmatismo do doutor Rupert Stadler, chairman da Audi AG, é enternecedor e reflete o andamento dos negócios da companhia e sua promessa de investir 24 bilhões de euro até 2019: “Tenho profundo orgulho pelo fato de o nosso perfil de capacitações e de competências mudar dia a dia”. Isso reflete nos resultados, anunciados na terça-feira, 10, em Ingolstadt, Alemanha, pertinho de Munique, e revelam os esforços desenvolvidos pelas equipes no ano passado: