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EDIÇÃO 196    Dezembro/2005
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Reportagens

Movimento brusco

Redação AutoData

Que existem muito mais nuvens escuras do que céu claro pairando sobre os telhados da indústria automotiva dos Estados Unidos todo mundo sabe há muito. Que medidas drásticas já estão para lá de tardias também. Mas aos poucos, parece, montadoras e sistemistas locais tratam de iniciar a dolorida operação de cortar a própria carne para evitar, na medida do possível, mal ainda maior.
A encrenca dos sistemistas Delphi e Visteon e de General Motors e Ford, é claro, transcende os próprios limites e estratégias dessas empresas. No entanto, muito pode ser feito ainda que externamente implique imagem de certa redenção perante concorrentes estrangeiros dentro de sua própria casa.

MÉDIO PRAZO - Em especial no caso das duas gigantes montadoras, que além dos elevados custos trabalhistas e problemas com os sindicatos, estão acossadas pela eficiência japonesa e, mais recentemente, pela ascensão coreana, que têm oferecido produtos mais baratos, econômicos e tão ou mais confiáveis e na medida do gosto do consumidor, que já não parece tão atraído pelos mastodontes sobre rodas que dominam o mercado dos Estados Unidos desde sempre.
Os altos custos trabalhistas, é bom lembrar, determinados, em parte, por acordos fechados com os trabalhadores em meados da década passada, quando a produção de veículos só fazia crescer nos Estados Unidos. Temia-se então que uma greve resultasse em prejuízos de milhões e milhões de dólares. Os executivos, muitos deles ainda hoje no board dessas empresas, esqueceram que a curva poderia se inverter. Reflexos desse lapso hoje são contas em vermelho profundo.
Na segunda quinzena de novembro, contudo, a General Motors tratou de dar importante passo no sentido de deixar seu novelo financeiro menos embaraçado no médio prazo. Passo duro para tentar recuperar a rentabilidade e estancar as perdas anuais de bilhões de dólares. Em 2005 os prejuízos na operação estadunidense somam US$ 4 bilhões.
As medidas, anunciadas em Detroit por Richard Wagoner, CEO da companhia, na segunda-feira, 21, são dolorosas, determinam corte de funcionários, fechamento de fábricas e menos despesas com compras.
A GM pretende reduzir em 9% a mão-de-obra nos Estados Unidos no período de 2006 a 2008. Cerca de 30 mil postos de trabalho serão extintos até lá. Wagoner fala em corte de custos operacionais da ordem de US$ 7 bilhões: US$ 6 bilhões com pessoal e US$ 1 bilhão com compras de componentes. A companhia espera efetivar boa parte das dispensas por meio de programas de aposentadoria antecipada e demissões voluntárias.
A redução da capacidade produtiva da maior montadora do mundo no seu principal mercado, os Estados Unidos, também faz parte da reestruturação anunciada por Wagoner e já fora sinalizada pelo executivo no início do ano. Até 2008 serão 1 milhão de unidades anuais a menos.
Até doze fábricas devem ser fechadas. Oito estão certas e as três primeiras já em 2006: Oklahoma City no início do ano, Lansing Craft Centre, em Lansing, Michigan, e Spring Hill Plant Line 1, no Tenesse. Em 2008 a Oshawa Car Plant 2, em Ontário, Canadá, também encerrará suas atividades encerradas.
A GM estuda, ainda, o fechamento de outras unidades produtoras de automóveis, mas já anunciou que também pretende encerrar manufaturas de estampados e motores. A estamparia de Lansing parará em 2006 e a de Pittsburgh em 2007, enquanto a fábrica de motores de St. Catharines, em Ontário, fechará as portas em 2008. A produção do motor 3.8 V6 da unidade de Flint North, em Flint, Michigan, também acabará em 2008. Além de fechar as portas dessas unidades, a GM promoverá, no ano que vem, a redução do terceiro turno na linha 1 da fábrica de Oshawa, em Ontário, e da planta de caminhões de Moraine, Ohio.
No comunicado oficial divulgado na fatídica segunda-feira 21, a montadora afirmou também que pretende transferir parte de sua produção para países com mão-de-obra mais barata, bem como aumentar a produtividade das fábricas nos Estados Unidos.

FORD - A Ford também encaminha uma afiada faca em sua operação nos Estados Unidos. E que deve cortar pelo alto: 4 mil funcionários de nível executivo estão na trajetória da lâmina.
Mark Fields, presidente das operações estadunidenses, calcula que o quadro será reduzido em 10%. A maior parte dos executivos deixará a Ford já no primeiro trimestre de 2006. Apenas neste ano a montadora eliminou 2,7 mil postos de trabalho. O balanço do último trimestre da empresa apontou perdas da ordem de US$ 284 milhões.
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