A 63ª edição do Salão Internacional de Veículos Comerciais IAA, realizada em Hannover, Alemanha, abriu suas portas no dia 23 de setembro sob o lema: "Veículos comerciais: eficiente, flexível, à prova do futuro". Com 1 mil 731 expositores, oriundos de 41 países, e um total de 272 lançamentos em produtos – de pequenas peças a veículos completos –, a mostra deste ano foi 20% menor do que a de 2008 quando estiveram presentes pouco mais de 2 mil expositores, número recorde na história do IAA.
Todavia, ainda que respingada pelos efeitos do tsunami que devastou a economia mundial bem naqueles dias da edição passada, o IAA 2010 foi marcado por alguns firmes sinais de recuperação dos mercados mundiais de veículos comerciais.
Retomada. E a principal boa nova está na retomada dos volumes de vendas para breve nos chamados mercados maduros. Apesar da fragilidade com a qual ainda convivem as economias dos Estados Unidos e da Europa, Andreas Renschler, presidente da Daimler Trucks, acredita nisso. Durante um jantar com a imprensa no IAA 2010 traçou o cenário para os próximos anos, arriscando alto:
"O mercado mundial de caminhões pode crescer 50% até 2015, chegando próximo a 3 milhões de unidades".
Esse volume, diz o executivo, decorrerá de um aumento na carga transportada como consequência da prosperidade econômica. E lembrou que o mercado começa a dar sinais de melhora na Europa e em alguns outros importantes países, embora o momento ainda não inspire comemorações.
"A boa notícia é que quando a economia mundial recomeça a andar bem, o setor de veículos comerciais anda ainda melhor."
Renchsler apoia sua inferência no fato de que o FMI reviu por duas vezes suas projeções para este ano. A mais recente aponta crescimento de 4,6% em relação ao ano passado e aumento de mais de 7% no volume de trocas comerciais globais. "Isso significa que mais mercadorias serão transportadas e mais caminhões serão necessários."
As novas normas de emissões no mercado estadunidense também podem provocar uma melhora razoável nas vendas daquela região, enquanto na América Latina – especialmente no Brasil – as vendas tornaram-se extremamentes quentes e até mesmo surpreendentes.
Na Ásia, o Japão ensaia os primeiros passos para uma retomada, graças a alguns incentivos governamentais, enquanto China e Índia puxam a demanda daquela parte do mundo e a Indonésia tende a surpreender com um crescimento de 87% nos caminhões pesados.
Na Alemanha também existem boas notícias. A partir de PIB previsto para algo em torno de 3,5% surgem os naturais reflexos nas vendas de caminhões.
O mesmo acontece em todos os países da Europa Ocidental, apesar dos riscos da Espanha e Grécia, no Leste do velho mundo e na Turquia que deverá alcançar um crescimento de caminhões médios e pesados da ordem de 70%. "Todos os mercados andam na mesma direção do crescimento."
Por essas e outras a Daimler Trucks não esconde a satisfação com os resultados do primeiro semestre do ano, que vieram bem melhores que o inicialmente projetado. As vendas da divisão de caminhões alcançaram 154 mil 354 unidades, contra 119 mil 539 veículos negociados no mesmo período do ano passado. E as margens do Ebtid saíram de um negativo de € 650 milhões para um positivo de € 430 milhões.
Outro motivo de comemoração é que as vendas acumuladas até agosto no mercado estadunidense e latino-americano atingiram crescimento de 32%, ao saírem das 59 mil 739 unidades no mesmo período do ano passado para 78 mil 626 neste ano.
No mercado de caminhões do Nafta, concorrendo com as marcas Western Star e Freigthliner, os resultados passaram de 39 mil 968 para 49 mil 880 unidades, crescimento de 25%.
Com a marca Fuso, na Ásia, as vendas registraram crescimento de 40%, ao passarem de 63 mil 245 para 88 mil 369. A totalização dos números deságua em vendas de 216 mil 875 unidades até agosto de 2010, contra 162 mil 952 unidades no ano passado, registrando um crescimento de 33% para a Daimler Trucks.
O ciclo de fartura resvala especialmente nos países emergentes, hoje praticamente base de sustentação das matrizes.
Não fosse assim, o déficit com remessas de lucros e dividendos até agosto não teria quase dobrado no Brasil na comparação com o mesmo período do ano passado, para US$ 17,8 bilhões. Nesse contexto de abastança a Terra Brasilis foi uma das citadas à exaustão pelos executivos europeus.
"A MAN Latin America é a pérola do grupo, a menina dos olhos", metaforizou Georg Patchta-Reyhofen, CEO da MAN SE, sediada em Munique, na Alemanha, durante apresentação dos resultados da empresa no IAA 2010.
Os motivos do entusiasmo têm razões práticas pinçadas da contabilidade da companhia. No primeiro semestre deste ano o grupo apurou crescimento de 59% na comparação ao mesmo período de 2009, com faturamento € 7,2 bilhões, enquanto precisou de todo o ano passado para faturar € 9,8 bilhões.
O resultado operacional cresceu 66% e atingiu € 404 milhões apenas em seis meses. Em 2009, o resultado foi de € 504 milhões. Os bons números foram, em boa parte, originados pela operação na América Latina.
A satisfação de Patchta vem também da liderança no mercado brasileiro de caminhões e de uma boa participação nos de chassis de ônibus.
O executivo viu as vendas de caminhões saltarem no primeiro semestre deste ano para 49 mil 907 unidades, contra as 30 mil 300 contabilizadas no mesmo período do ano passado, registrando crescimento de 65%.
As vendas de ônibus saíram de 4 mil 985 para 7 mil 567 unidades, avançando 52% na mesma base de comparação.
Com os números nas mãos o CEO tem claro que a internacionalização foi a melhor decisão que a MAN tomou. E nela, principalmente a compra da liderança do mercado brasileiro de veículos comerciais ao adquirir a Volkswagen Caminhões e Ônibus.
Georg Patchta-Reyhofen acredita que para a MAN SE continuar no ritmo de crescimento anual na faixa de dois dígitos há necessidade de forte presença nos mercados do Bric. E ressaltou que o Brasil, com seus resultados, não pode ser comparado à China.
"São realidades diferentes, com fornecedores de tradição, experiência e qualidade e que permitiram à planta de Resende, RJ, em pouco tempo, introduzir o terceiro turno. Ou tornar realidade, em menos de dois anos, a linha de produção do primeiro caminhão MAN, com motor MAN."
A grande novidade no primeiro MAN montado no Brasil reside no fato do modelo TGX chegar ao mercado equipado com um motor MAN da fase Euro 4, ao invés da Euro 5, correspondente a Conama P7, e obrigatória no País a partir de janeiro de 2012. A marca, desse modo, antecipa sua chegada nas terras sul-americanas.
Na mesma conversa com os jornalistas, surgiu a confirmação de que os 500 engenheiros da MAN Latin America trabalham com afinco nos chassis de ônibus urbanos mais pesados, para que a marca aproveite as oportunidades da Copa do Mundo e Olimpiadas. Para apressar o projeto, um articulado equipado com carroçaria MAN, em breve estará rodando em testes pelo Brasil afora.
Paolo Monferino, CEO da Iveco, prefere usar de cautela em relação à recuperação dos mercados europeus. Em seu discurso para uma enorme plateia internacional de jornalistas, ponderou que os mercados, com muito poucas exceções, experimentaram uma contração sem precedentes na crise e analisou os dias de hoje:
"A indústria europeia de veículos comerciais e industriais até agora ainda não está totalmente recuperada. E não irá se recuperar em poucos anos".
Sem demonstrar pessimismo, o engenheiro Monferino lembrou que as vendas na Europa estão crescendo muito lentamente, mas que existem outras áreas do mundo com sinais significativos de recuperação.
Todavia o executivo mantém a expectativa lançada aos investidores do Grupo Fiat, em abril de 2009, de alcançar a rentabilidade de dois dígitos em 2014, com um volume de negócios total de € 12 bilhões.
"As condições de mercado deverão permitir-nos passar de 0,5% de retorno sobre as vendas em 2009, para uns 3% a 3,4% em 2010, até chegar a 10% em 2014". Esse ritmo posto em função da letargia do mercado europeu, em comparação com o desempenho de nossas principais atividades na América Latina e China.
"A América Latina, que está se tornando rapidamente um dos mercados mais importantes para a Iveco, com crescimentos de 13,2% no primeiro trimestre e 39,9% no segundo".
E, de novo, o Brasil se sobressai no contexto com quase 70% dos negócios da marca. Tal importância se traduzirá em um anúncio, ainda sem data marcada, de um novo ciclo de investimentos na região, após concluídos os objetivos dos R$ 570 milhões do período 2007 a 2011.
De parte desse montante, um dos últimos projetos incluídos no ciclo é a nova família de caminhões médios Vertis, lançada no Brasil nesse outubro.
O veículo é o resultado de um programa específico de desenvolvimento de produtos para a América Latina, com base inicial em uma plataforma existente na China, da qual sobraram apenas 10% em componentes.
Tudo novo. Por outro lado, a Iveco prepara-se para desembolsar € 1,4 bilhão em investimentos e, com eles, trazer ao mundo uma linha de produtos completamente nova em 2014.
O projeto inclui uma nova gama do pesado Stralis, cuja característica principal será a construção modular, com base em uma plataforma global ou um verdadeiro caminhão mundial, nas palavras do CEO.
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Por debaixo do pano
Os batalhões de chineses continuam esquadrinhando milímetro por milímetro os bólidos exibidos nos salões do IAA, em Hannover, na Alemanha.
Munidos de máquina fotográfica, bloquinho de notas e canetas, circulam sozinhos ou em dupla, metendo-se por baixo dos veículos e medindo em pormenores, sem se incomodar sem qualquer cerimônia. De quebra, ainda acabam produzindo histórias hilárias.
Nesta edição do salão nem mesmo o cavalo Concept S, apresentado pela MAN, ficou livre de suas medições. Coberto por um pano para manter o suspense da apresentação oficial, foi invadido por uma dupla deles: um se encarregou de levantar o manto e outro meteu-se por baixo para fotografar em detalhes.
