Claudio Carsughi era uma das pessoas mais educadas e elegantes que tive a honra de conhecer ao longo de minha carreira. E quando falo em elegância, não me refiro apenas aos ternos impecáveis, sempre bem cortados e sem uma única ruga, que ele costumava usar nos eventos do setor automotivo. Carsughi era elegante no modo de falar, de trabalhar, de formular suas perguntas e, principalmente, de tratar as pessoas.
A impressão era de que ele tinha sempre acabado de sair do banho e se preparado cuidadosamente para mais um compromisso profissional. Estava sempre alinhado, sereno e atento a tudo o que acontecia ao seu redor.
Mas sua elegância ia muito além da aparência. Ela estava na forma tranquila com que transmitia seus conhecimentos, na segurança de quem sabia muito bem do que estava falando e na capacidade de fazer perguntas perfeitas, curtas e precisas.
Antes de cada uma delas, apresentava-se invariavelmente da seguinte forma: “ Claudio Carsughi, La Stampa”. Falava o nome do jornal italiano com um orgulho que nunca procurou esconder. Era também uma forma de reafirmar sua ligação com a Itália, com a imprensa italiana e, principalmente, com Firenze, cidade para a qual se mudou ainda criança e pela qual cultivou enorme paixão.
Carsughi nasceu em Arezzo, mas gostava de dizer que vinha da região de Firenze. Comportava-se, aliás, com aquilo que imaginamos ser a mais legítima elegância de um fiorentino. E era, naturalmente, um torcedor fervoroso da Fiorentina.
Minha admiração por Carsughi começou muito antes de conhecê-lo pessoalmente. Posso dizer que praticamente cresci ouvindo seus comentários sobre Fórmula 1 e também sobre futebol na Rádio Jovem Pan. Seu jeito calmo de falar, aquele sotaque italiano forte e inconfundível e a profundidade de suas análises sempre me encantaram.
Ele não precisava elevar a voz para demonstrar conhecimento ou autoridade. Falava com a tranquilidade de quem conhecia profundamente o assunto e não precisava fazer qualquer esforço para provar isso.
Quando finalmente tive a oportunidade de conviver com ele, ainda que por períodos curtos, em vários eventos e atividades promovidas pela indústria automobilística, descobri que o homem correspondia perfeitamente ao profissional que eu admirava havia tantos anos.
Tive também a honra de me sentar ao seu lado em diversos testes de automóveis. Acho que ele gostava da minha companhia. E guardo com particular carinho uma observação que ele costumava fazer a meu respeito: dizia que eu era um dos poucos jornalistas que não dirigia como um “maluco”.
Vindas de Claudio Carsughi, engenheiro de formação, profundo conhecedor de automóveis e um dos mais respeitados jornalistas especializados do País, aquelas palavras soavam quase como um certificado de habilitação. Talvez ele simplesmente preferisse preservar a própria vida. Mas gosto de acreditar que fosse realmente um elogio.
Esses momentos permitiram que eu conhecesse um pouco mais o homem que existia por trás do jornalista admirado por várias gerações. Carsughi era gentil, bem-humorado e dono de uma educação que se manifestava nos pequenos gestos. Demonstrava respeito por todos e mantinha, mesmo nas situações mais simples, a postura de um verdadeiro cavalheiro.
Minha esposa também teve a sorte de conviver bastante com Dona Hilda, como carinhosamente chamávamos sua mulher. Tivemos longas conversas. Essa proximidade tornou ainda mais afetiva nossa relação com o casal e permitiu que conhecêssemos um lado mais familiar de Carsughi.
Sua morte, aos 93 anos, encerra uma trajetória extraordinária, iniciada quando chegou ao Brasil, em 1946, ainda adolescente, logo após a grande guerra. Pouco tempo depois começou a escrever para a imprensa italiana sobre os preparativos brasileiros para a Copa do Mundo de 1950.
Ao longo de mais de sete décadas de atividade, construiu uma carreira que atravessou diferentes gerações e praticamente todos os meios de comunicação. Trabalhou em rádio, televisão, jornais, revistas e plataformas digitais. Cobriu futebol, Fórmula 1 e a indústria automobilística sempre com a mesma seriedade, precisão e paixão.
Passou por veículos fundamentais da imprensa brasileira, como Jovem Pan, Bandeirantes, Gazeta Esportiva, Jornal da Tarde, Placar, Quatro Rodas, ESPN Brasil e SporTV, além, é lógico, das publicações italianas que representou com orgulho no Brasil.
Sua formação em engenharia deu às análises sobre automóveis e competições uma consistência técnica rara. Mas Carsughi jamais transformou seu conhecimento em arrogância. Ao contrário: quanto mais sabia, mais simples parecia sua maneira de explicar.
Esta talvez tenha sido uma de suas maiores virtudes: em um ambiente no qual tantas pessoas procuram chamar a atenção, Carsughi conquistava o respeito pela discrição. Em um jornalismo cada vez mais barulhento, fazia-se ouvir falando baixo. E em uma profissão na qual todos acreditam ter as respostas, ele se destacava também pela qualidade das perguntas.
Carsughi fez parte de minha formação como jornalista muito antes de se tornar alguém com quem tive a felicidade de conviver. Depois que o conheci, minha admiração pelo profissional tornou-se também admiração pelo ser humano.
Hoje, ao recordar os eventos, as viagens, os testes e as conversas que tivemos, volto a enxergá-lo como ele sempre aparecia: terno impecável, postura serena, olhar atento e nenhuma palavra fora do lugar.
O jornalismo brasileiro perde uma de suas maiores referências. E eu me despeço de uma pessoa que tive a honra de admirar primeiro à distância e, depois, de conhecer um pouco mais de perto. Ficam seu exemplo, sua voz calma, seu inconfundível sotaque italiano e a elegância com que atravessou mais de sete décadas de jornalismo.
Grazie, maestro.























