São Paulo – O setor sucroenergético brasileiro tem potencial para gerar, anualmente, 41,2 bilhões de m³ de biogás que podem ser convertidos em biometano, o equivalente a 41 bilhões de litros de diesel. No entanto menos de 2% desse volume é efetivamente aproveitado. Foi o que apontou o estudo internacional Biometano para a Descarbonização do Transporte, encomendado pelo Instituto MBCBrasil com o objetivo de fomentar o uso de resíduos como combustível em veículos pesados e de longa distância.
O levantamento foi conduzido pelos pesquisadores Gláucia Mendes Souza, professora da Universidade de São Paulo e líder da IEA Bioenergy Task 39, Luís Augusto H Nogueira, da Universidade Federal de Itajubá, Heitor Cantarella, do Instituto Agronômico de Campinas e Clayton Barcelos Zabeu, do Instituto Mauá de Tecnologia.
À Agência AutoData o presidente do conselho de administração do Instituto MBCBrasil, José Eduardo Luzzi, avaliou que a tecnologia de biodigestão disponível no País é comercialmente madura, mas torná-la mais viável exige superar desafios:
“No caso da vinhaça, sua concentração relativamente baixa de carbono orgânico pode limitar o rendimento de metano quando utilizada isoladamente. A combinação com outros resíduos disponíveis nas usinas, como torta de filtro e resíduos da colheita, pode ampliar este aproveitamento”.
Luzzi ressaltou que o gargalo atual não está apenas na disponibilidade da biomassa ou da tecnologia, mas na criação das condições necessárias para transformar este potencial em produção e demanda em escala: “A expansão depende de infraestrutura e distribuição, acesso a financiamento, capacitação técnica, previsibilidade regulatória e desenvolvimento de mercado.”
Projetos operacionais em usinas paulistas como Cocal, em Narandiba e Paraguaçu Paulista, Raízen, em Guariba, São Martinho, em Pradópolis, além da Adecoagro, em Ivinhema, MS, comprovam que a conversão de resíduos em combustível já é realidade comercial. Somente na safra 2024/2025, o Brasil processou cerca de 680 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, gerando volume estimado em 380 bilhões de litros de vinhaça.
Fora do setor sucroalcooleiro, em Paulínia, SP, foi inaugurado o maior aterro sanitário com capacidade nominal de até 225 mil Nm³/dia. Em Goiânia, GO, a prefeitura anunciou a conversão da frota de ônibus urbanos para biometano.
Produzido a partir da biodigestão de resíduos orgânicos como vinhaça, dejetos animais, lixo urbano e esgoto, o biometano tem a capacidade de unir a redução de emissões que chegam a 90% dependendo da matéria-prima, a benefícios diretos à economia circular e saúde pública.
Brasil pode exportar tecnologia
Com 755 unidades produtivas de biogás registradas e capacidade crescente de fabricação de biometano o Brasil vive a fase de expansão de 2024 a 2030. O relatório apontou ainda que o País pode se consolidar como polo exportador não apenas da molécula, mas de engenharia e serviços para biodigestores e, principalmente, experiência prática na adaptação das tecnologias de biogás e biometano às condições locais.
“Contribuição particularmente relevante do Brasil está no know-how desenvolvido no aproveitamento da vinhaça e de outros resíduos do setor sucroenergético para a produção de biogás e biometano”, exemplificou Luzzi. “A experiência brasileira pode gerar aprendizados para outros países produtores de etanol de cana-de-açúcar que disponham de resíduos semelhantes e busquem ampliar seu aproveitamento energético.”
O cenário abre espaço para a cooperação Sul-Sul com mercados emergentes, como Índia e China, que enfrentam desafios semelhantes de transição energética na mobilidade. Contudo, esta expansão internacional exige padronização: marcos regulatórios consistentes, sistemas de certificação, garantias de origem e metodologias de contabilização de carbono.
Lei de Resíduos Sólidos e certificado de garantia incentivam mercado
No campo regulatório a Lei de Resíduos Sólidos, que prevê a redução gradual de despejo de resíduos em lixões e aterros sanitários, somada à criação do CGOB, Certificado de Garantia de Origem do Biometano, pela Lei 14 993/2024, operam como catalisadores de novos investimentos.
Na prática, o CGOB funciona como um título negociável: cada certificado equivale a 100 m³ de biometano injetados na rede ou comercializados, com validade de dezoito meses. O mecanismo permite desatrelar o valor ambiental da molécula física de gás, criando uma receita adicional para os produtores.
O movimento ganha tração com a Resolução CNPE, Conselho Nacional de Política Energética, 4/2026, que fixou meta de redução de emissões no gás natural via introdução de biometano ou compra de CGOBs, patamar que pode chegar progressivamente a 10%. Em ecossistemas maduros, receitas paralelas como digestato, CO2 alimentício e créditos de carbono, respondem por 20% a 60% do faturamento das fábricas.
Melhora no TCO com redução de até 30%
O custo total da operação, em comparação ao diesel, pode resultar em uma redução por quilômetro rodado de até 30%, dependendo da rota operacional e do custo regional do biometano, mas, em alguns casos, pode ficar 25% acima.
Teste envolvendo o transporte pesado no Estado de São Paulo apontou o custo de US$ 1,87/km para diesel, US$ 1,73/km para CNG/biometano – forma comprimida do combustível – e US$ 1,59/km para Bio-LNG – forma liquefeita. “Os números mostram que, em condições favoráveis, o biometano pode ser competitivo em relação ao diesel, mas não devem ser convertidos em afirmação genérica de economia de 30% por quilômetro”.
A autonomia vai de 300 km a 700 km para caminhões a Bio-CNG e de 1,2 mil km a 1,7 mil km para Bio-LNG e a substituição do diesel não exige a conversão de motores, mas a adoção de veículos movidos a gás natural, compatível ao biometano.
O principal entrave para a expansão da frota pesada, portanto, reside na logística de suprimento: apenas 10% do potencial de biometano da América do Sul está localizado a menos de 20 km de gasodutos de transporte. Para contornar a situação o setor defende a criação de corredores azuis, com postos de abastecimento sincronizados, combinando estações de CNG para operações regionais e redes de LNG para operações de maior distância e soluções de rede isolada, com gás comprimido/liquefeito sobre rodas.
Plataforma para diálogo setorial
O objetivo central do Instituto MBCBrasil com o levantamento, segundo Luzzi, é contribuir ao letramento e à conscientização do potencial da tecnologia e de sua capacidade na descarbonização da mobilidade, especialmente no transporte pesado, provendo subsídios técnicos para qualificar o debate entre governos, montadoras, transportadores e o setor produtivo.
“O estudo não é plano de negócios para uma fábrica específica, mas uma plataforma técnica para orientar decisões, integrar o know-how brasileiro às discussões globais e acelerar a descarbonização da mobilidade pesada.”























