São Paulo – O trânsito é um fantasma que ainda atemoriza muitos motoristas brasileiros. Esta é a principal conclusão da pesquisa inédita Velocidade em Areas Urbanas e Segurança Viária: Evidências sobre Comportamentos, Percepções e Atitudes, realizada pela Fundación Mapfre com o desenvolvimento da Poli USP, Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, e da UFPR, Universidade Federal do Paraná.
O estudo revelou que a pressão gerada por congestionamentos e o medo de atrasos exercem influência direta sobre a segurança viária no País, provocando consequentemente atitudes de risco. O motorista quer dirigir com segurança mas se sente pressionado pelo trânsito ou por circunstâncias do dia a dia.
A pesquisa, que contou com o apoio da Senatran, Secretaria Nacional de Trânsito, ouviu 1 mil 540 pessoas de diferentes regiões e levantou as motivações que levam a determinados comportamentos e percepções sobre sinalização e velocidade no trânsito. Os dados mostram que o redesenho das cidades e a influência familiar podem ser cruciais para preservar o bem-estar e a vida nas ruas.
“Nosso objetivo é possibilitar o desenvolvimento de medidas e campanhas educativas mais eficientes a partir de evidências e contribuir para a segurança viária no Brasil”, disse Fátima Lima, representante da Fundación Mapfre no Brasil.
Pressão para seguir o ritmo de outros carros
A pesquisa colheu informações que chamam atenção. Em 2025 as mortes em sinistros de trânsito chegaram a 1 mil 38 na cidade de São Paulo, número que representa o segundo maior patamar da série histórica. No Estado foram 6 mil 134 vítimas fatais no período, segundo a plataforma do Detran-SP Infosiga, Sistema de Informações Gerenciais de Sinistros de Trânsito.
O maior vilão das vias brasileiras continua sendo o excesso de velocidade, que potencializa a probabilidade de ocorrências e a gravidade de suas consequências. De acordo com o Banco Mundial o Brasil perde cerca de US$ 60 bilhões de dólares ao ano em sinistros de trânsito.
Com ajuda de IA, inteligência artificial, o estudo simulou cenários urbanos com modelos psicológicos com o intuito de analisar o que motiva as escolhas dos motoristas e suas atitudes efetivas nas vias. Uma das conclusões é que o condutor apresenta forte motivação para agir a favor da segurança, mas é frequentemente sabotado pelo meio em que vive. Mais de 90% dos entrevistados associam o respeito aos limites de velocidade a valores positivos, como cidadania e preservação da vida.
No entanto um terço dos condutores acredita que esta predisposição se enfraquece por fatores como pressão para acompanhar o ritmo de outros carros, atrasos e urgências do cotidiano. Existe percepção subjetiva de que respeitar os limites aumenta o tempo de viagem e que a velocidade definida é muito baixa para as condições de tráfego em algumas vias.
Importância do núcleo familiar
Embora o medo das multas seja a principal razão para diminuir a velocidade para 90% dos entrevistados o núcleo familiar é responsável pela influência no comportamento dos motoristas. Para 80% o respeito às normas de trânsito acontece em prol da segurança de cônjuges, mães e filhos.
A boa sinalização também é capaz de interferir nas atitudes dos motoristas. Em locais onde há maior circulação de pedestres a indicação de limites de velocidade resulta em redução média de até 10 km/h, restringindo consideravelmente as possibilidades de óbitos e lesões graves em caso de acidente.
Como comparação pesquisa semelhante feita no Reino Unido, e que serviu de referência para o estudo da Fundación Mapfre, mostrou que a velocidade passando de 48 km/h para 32 km/h diminui em 10% a probabilidade de sinistros com vítimas fatais.
Outro dado relevante é que a sinalização por placas tem impactos diferentes nas pessoas conforme o formato da rua.
Veja as constatações da pesquisa:
- Em vias locais e cruzamentos a placa de velocidade possui alta eficácia, especialmente quando combinada com mini-rotatórias ou lombadas.
- O motorista tende a ignorar as placas nas vias expressas largas. Em ruas com maior fluxo de veículos e velocidade boa parte dos condutores ignora o limite permitido apontados nas placas.
- A presença de pedestres nas calçadas funciona como moderador natural, implicando em redução voluntária da velocidade. As placas servem para reforçar este comportamento, deixando a velocidade em patamares mais seguros.























