São Paulo — O trânsito das grandes cidades não está associado apenas ao risco de chegar atrasado no destino ou à propensão de provocar mais acidentes. A jornada de ir e voltar do trabalho – de automóvel ou transporte coletivo – é considerado pela comunidade médica gatilho real para o desenvolvimento da síndrome do burnout.
O burnout é distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico resultante de situações de trabalho. Segundo estimativa da Anamt, Associação Nacional de Medicina do Trabalho, aproximadamente 30% dos trabalhadores ocupados no Brasil são diagnosticados com a síndrome.
Com o retorno definitivo ao trabalho presencial adotado por 48% das empresas, de acordo com levantamentos de mercado das consultorias WeWork e Michael Page, os departamentos de recursos humanos passaram a enfrentar uma grande preocupação: a de que a locomoção dos funcionários não se transforme em problema de saúde ocupacional devido ao estresse causado pelos congestionamentos.
A recente atualização da NR-1, Norma Regulamentadora nº 1, criada pelo Ministério do Trabalho, reforçou este desafio. Ela exige que as empresas identifiquem, avaliem e gerenciem fatores psicossociais no programa de gerenciamento de riscos. Desta forma quadros de ansiedade, estresse crônico e esgotamento profissional estão no radar de auditorias, fiscalizações e métricas de compliance do mundo corporativo.
Pesquisas que envolvem dados de mobilidade urbana e saúde ocupacional revelam conexão direta de tempo gasto no deslocamento com desgaste emocional dos profissionais.
“Viagens de 20 minutos são suficientes para causar fadiga”, afirmou o médico do trabalho Marcel Baddini Storti, que acompanha de perto funcionários de grandes empresas. “Percursos de 50 minutos, então, são ainda mais desgastantes e mexem também com a parte física das pessoas, que já chegam cansadas no trabalho.”
Pressão menor no home oficce
Segundo Storti a volta aos escritórios depois do longo período de home office imposto pela Covid 19 provocou outra pandemia, a psiquiátrica.
Ele contou: “Há uma geração de jovens que sempre trabalhou em casa. Eles acordavam quase na hora de iniciar o expediente e mal tiravam o pijama. Foi um choque ter de trabalhar presencialmente e encarar o trânsito todos os dias. Além disto, sem saber lidar com a pressão do ambiente profissional, muitos apresentaram quadros de ansiedade, depressão e, posteriormente, bornout. No home office a pressão é menor: quem não é visto não é lembrado”.
Estudo da WellHub, plataforma global de bem-estar corporativo, vai ao encontro das palavras de Storti. Apontou que 90% dos trabalhadores relataram algum sintoma de burnout ao longo do último ano.
Pesquisa de Mobilidade Urbana da CNI, Confederação Nacional da Indústria, seguiu a mesma linha e revelou porque tantos trabalhadores brasileiros desenvolvem problemas emocionais:
- 36% perdem mais de uma hora diária no trânsito;
- 21% gastam de uma a duas horas no trânsito, 7% de duas a três horas e 8% mais de três horas diárias;
- 51% relataram queda de produtividade profissional e 60% chegam atrasados ou estressados no escritório;
- 32% dos profissionais já recusaram ofertas de trabalho devido a dificuldades de deslocamento; e
- 55% afirmaram que a mobilidade urbana precária afeta negativamente o bem-estar.
O sistema de transporte público saturado ajuda a entender os resultados que abrangem mobilidade urbana. Afinal o trajeto de casa ao local de trabalho deixou de ser mera ação individual para se tornar problema estratégico de gestão.
O transporte representa o segundo maior investimento na planilha de benefícios corporativos e sua ineficiência interfere diretamente no orçamento das companhias.
Análises da Global Trevo Consulting, companhia de consultoria empresarial, revelam que 80% dos profissionais associam o trajeto a impactos negativos na saúde física e 79% na saúde psicológica.
Congestionamentos causam estresse
Não é à toa que as chefias começaram a reformular políticas de deslocamento. “A jornada de trabalho não começa quando a pessoa registra o ponto, mas ao sair de casa”, disse Antônio Carlos Gonçalves, CEO do Fretadão, empresa de mobilidade corporativa. “Quem chega ao escritório após enfrentar duas horas de trânsito desgastante inicia o expediente com energia física e mental comprometida.”
A solução adotada pelo Fretadão é oferecer veículos com assentos reservados, climatização, pontos estratégicos de embarque e monitoramento em tempo real, a fim de transformar o percurso em aprazível período de descanso, leitura ou desconexão.
“A medida funciona como prevenção primária de estresse, atacando o problema na fonte antes que ele se converta em afastamento por saúde mental.”
Mesmo assim a repetição diária de tempo gasto no trânsito, a irritação que ele provoca, o ambiente de pressão no trabalho e a volta com o trânsito de novo carregado provocam uma combinação explosiva: esgotamento, recuperação inadequada, sobrecarga de pressão profissional até chegar ao burnout.
A preocupação tambem encontra respaldo na Abramet, Associação Brasileira de Medicina de Tráfego. Estudos da entidade demonstram que os congestionamentos são a principal causa de estresse no trânsito, afetando o bem-estar físico, psíquico e social das pessoas durante os deslocamentos ao trabalho.
Sintomas da síndrome de burnout, segundo o Ministério do Trabalho
- Cansaços físico e mental excessivos
- Dificuldades de concentração
- Sentimentos de incompetência
- Dor de cabeça frequente
- Alterações no apetite
- Sentimentos de fracasso e insegurança
- Alterações repentinas de humor
- Alteração nos batimentos cardíacos
- Insônia
- Negatividade constante
- Isolamento
- Dores musculares
- Pressão alta
- Sentimentos de derrota e desesperança
- Fadiga
- Problemas gastrointestinais























