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BYD testa embalagens de módulos fotovoltaicos em condições estressantes

EXCLUSIVO PARA ASSINANTES: Braço dedicado à geração de energia solar busca ampliar sua nacionalização
Paineis Solares, Usina, Campinas

São Paulo – Pela primeira vez e de forma inédita, após seis anos da sua instalação definitiva no Brasil para produzir painéis fotovoltaicos, a BYD Energy decidiu testar não seus produtos, mas as embalagens. A intenção é verificar o quanto a logística deteriora as placas solares, por isto, foram aplicadas condições mais estressantes do que o usual nessa avaliação. Desde sua fábrica em Campinas, SP, as embalagens – com os produtos devidamente embalados – viajam até a cidade de Buritizeiros, MG, em trajeto de 2,3 mil quilômetros que conta com trechos bastante precários e carentes de manutenção.

O objetivo, de acordo com Rodrigo Garcia, gerente de P&D da BYD Energy, era colocar seu produto em um roteiro que fosse fiel à realidade de clientes, como usinas fotovoltaicas: “Este produto nunca é levado a uma loja no centro da cidade pavimentada. Leva-se para áreas remotas”.

Garcia garantiu que a BYD sempre usou embalagem reforçada mas, afirmou, que a qualidade desse material vem piorando e, mesmo que o cliente não perceba valor agregado [ele só o enxerga o custo], ainda assim, é importante ter esse tipo de preocupação.

“Sendo assim fizemos o teste com qualidade inferior com especificação comum de mercado. E amarramos da mesma forma, no mesmo caminhão, como sempre procedemos para entregar ao cliente. O interessante foi ver como saiu e como voltou. O antes e depois. E conseguimos detectar problemas graves, em quantidades muito maiores do que imaginávamos.”

Garcia assinalou que a empresa preza pela ausência de trincas no produto quando ele sai da fábrica e chega ao cliente, pois elas podem evoluir, em casos extremos, para problemas de segurança, podendo causar, por exemplo, um incêndio.

De qualquer maneira o cliente será afetado na geração de energia, apontou o executivo, pois ele não terá o retorno financeiro esperado: “Nessa pontinha se perde muito e o cliente só vai perceber isso lá na frente. A caixa de junção começa a esquentar mais do que deveria e derrete. Uma célula começa a superaquecer. E, de repente, queima-se componente importante. Só vai piorando. E esses problemas são de difícil detecção”.

Ao considerar que um módulo fotovoltaico é fabricado para durar de 25 a trinta anos, e que o cliente vai perceber seu dano só lá na frente, quando ele for acionar a empresa não conseguirá mais ter argumentação densa o suficiente para endereçar a responsabilidade ao fabricante. E ficará com o prejuízo.

A embalagem mais reforçada tem impacto no custo, mas a BYD não está aumentando seus preços por causa disso, garantiu Garcia: a empresa sempre fez isso por entender que se trata de agregação de valor: “É um custo mínimo perto do preço do módulo em si. Sem contar que este custo é diluído, uma vez que uma embalagem comporta até 31 módulos”.

O teste também não consumiu investimento extraordinário, assinalou o gerente de P&D da BYD Energy. Essa avaliação de integridade constatou que 6% dos módulos apresentaram microfissuras porque foram transportadas em condições não recomendadas e em embalagens comuns.

Projeção da Absolar aponta que em 2050 geração de energia solar deverá ultrapassar a hídrica
Crédito: Divulgação.

Indústria solar tem enorme potencial, mas é dominada pela importação

Rodrigo Garcia contextualizou que a gigantesca massa do mercado brasileiro é composta por módulos importados, e lamentou: “Essa é uma realidade porque a indústria nacional não está sendo impulsionada. E, sem volume, fica difícil nacionalizar no começo. A maioria dos insumos, assim com os módulos, é trazida de fora”.

Em 2022 a indústria nacional teve participação de 0,2% no mercado, citou Garcia. Isso em um mercado “gigantesco”, como classificou, de 18 giga watt-pico, e que nos últimos anos teve importante crescimento. Dados da Aneel e da Absolar mostram que, em julho deste ano, 15% da matriz energética brasileira proveio da geração solar fotovoltaica.

Os 32,6 GW de potência instalada dessa modalidade significam o dobro do que foi produzido em 2021 inteiro, de 14,3 GW. No ano passado a geração alcançou 25,3 GW. Os Estados que mais contribuem atualmente com a geração distribuída são Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul.

A projeção para 2050 é que 32,2% da matriz energética brasileira seja solar fotovoltaica, ultrapassando a hidrelétrica, que deverá responder por 30,2% do total. Hoje, metade da eletricidade no País possui origem hídrica.

“A energia solar é questão estratégica mundial. Todos os países estão querendo fazer o que nós buscamos aqui no Brasil, que é incentivar a indústria nacional. Os Estados Unidos e a Europa têm criado políticas para incentivar o setor, até porque, atualmente, o mundo depende 100% da China.”

O objetivo, segundo ele, é estabelecer competição saudável do importado com o nacional, a fim de não frear o movimento, por exemplo, barrando em 100% o produto que vem de fora. Até porque há muita diferença no custo, e o plano é ganhar mercado pouco a pouco, ao mesmo tempo em que a empresa consegue agregar e desenvolver fornecedores. Ao estimular maior número de players no mercado tem-se custos melhores.

Na planta de Campinas da BYD Energy é realizado o processo de solda, laminação, aplicação de cola, de cura, de medição e teste dos módulos fotovoltaicos: “Ou seja: há diversos processos de transformação também. Não se trata de uma simples montagem”.

Em torno de duzentas pessoas trabalham no processo produtivo na fábrica de Campinas. E um dos principais objetivos é ampliar este número, de acordo com o executivo. Há um cálculo de referência, mencionado por ele, de que, caso existisse a cadeia completa do módulo no País, a cada giga de capacidade seriam gerados 3 mil empregos.

“Se aqueles 18 giga watt-pico fossem totalmente produzidos no Brasil essa indústria geraria 54 mil postos de trabalho.”

Companhia tem a intenção de ampliar índice de nacionalização, mas diz que é necessário dispor de escala Crédito: Divulgação.

BYD Energy quer ampliar produção local de placas fotovoltaicas

Rodrigo Garcia garantiu que a intenção da BYD Energy é ampliar a nacionalização. Embora não divulgue o porcentual de localização nem a fatia de mercado que, assegurou, é muito baixa, a projeção é a de desenvolver cadeia e trazer mais da produção para o País.

Ele contou que a companhia está em contato com fornecedores de vidro e alumínio, que é a estrutura do módulo, de cobre, que é o fiozinho de cobre estanhado, de embalagens, da caixa de junção e interconexão que são cabo e conector, e que diversas indústrias já fazem isso.

“Podemos, posteriormente, trazer os mais difíceis, aqueles sem know how no País. Buscar o conhecimento e trazer o desenvolvimento. Por exemplo: a parte de encapsulantes para a indústria solar, as células fotovoltaicas, que é o core que queremos trazer, é o valor agregado do produto. É tudo nichado mas é possível trazer.”

Aqui no Brasil, citou, há o minério de silício, que é exportado, e se compra a célula: “Ou seja: temos o começo, perdemos o meio e importamos o produto final. Em teoria temos todas as peças para desenvolver essa indústria estratégica. Trata-se de trabalho a longo prazo”.

Por que a empresa não compra insumos que são fabricados localmente? O executivo justificou que o plano de nacionalização do produto ainda não deslanchou, não foi efetivo: “Vieram ex-tarifários a torto e direito, sem critério, investimos em fábrica e mesmo assim eles não caíram. Investimos para ter o similar e, mesmo assim, não conseguimos derrubá-los no governo passado, que não quis incentivar este setor”.

Ao contrário, foi concedido incentivo aos importados, com alíquotas que caíram à metade. E todos os ex-tarifários entraram, ou seja, eles pagam zero de imposto de importação.

A indústria nacional possui pacote pequeno de benefícios, mas não consegue brigar com isso. A própria China possui diversos incentivos à exportação para manter seus volumes. É preciso haver estratégias anti-dumping se não os clientes continuarão importando dos chineses porque é mais barato, inclusive as matérias-primas.

“Temos de aprender, desenvolver, para ter um custo competitivo. Não é um processo instantâneo. Mas, se não houver suporte e incentivo de governo, é impossível conseguir dar escala à indústria nacional.”

Sobre a possibilidade de haver aumento de custo pelo fato de que, quando a indústria nacional está começando não há escala, ao passo que a China possui volume gigantesco e muitos incentivos, isto não é descartado. Mas, para Garcia, o processo de amadurecimento desta indústria precisa existir, disse, ao entender que se trata de algo estratégico e necessário.

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