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Eletrificação? Primeiro é preciso estocar o carbono.

EXCLUSIVO PARA ASSINANTES: Enquanto acredita-se que a eletrificação é a solução, engatinhamos na captura e armazenamento de CO2, iniciativa que já poderia ter resolvido o problema das emissões no planeta

São Paulo – Enquanto as discussões na COP 28 em Dubai, Emirados Árabes Unidos, confirmam a urgência de ações para reduzir o aquecimento do planeta e evitar o avanço dos eventos extremos que testemunhamos quase todos os dias, outra constatação tem sido muito comentada pelos líderes mundiais, especialistas e empresários: o atraso, e até mesmo o descaso, na adoção de soluções e tecnologias para mitigar a dispersão de CO2 na atmosfera e convergir a economia para o net zero, o fim das emissões de gases de efeito estufa. E enquanto a indústria automotiva oferece a eletrificação como solução, este setor e todos os outros deixam a principal iniciativa de lado: a captura e armazenamento de carbono.

De acordo com relatório da Agência Internacional de Energia, AIE, nos últimos três anos não houve expansão nos projetos de captura e armazenamento de carbono, CCS, sigla em inglês para Carbon Capture and Storage. As fábricas existentes para esta atividade mantiveram a captação de 40 milhões de toneladas ao ano.

No entanto, para cumprir as metas do Acordo de Paris e manter o aumento da temperatura global em 1,5 grau Celsius, ou, no máximo, em 2 oC – o que já traria um impacto assustador e ainda desconhecido de eventos extremos no planeta – a AIE estipula que a capacidade global para reter as emissões das centrais elétricas e da indústria em geral enterrando o dióxido de carbono nas profundezas do subsolo deverá ser de 400 milhões de toneladas já em 2030.

Ou seja, a sete anos do prazo para atingir esta meta, classificada como uma das mais relevantes para solucionar o desafio da descarbonização, as iniciativas estão praticamente estacionadas, muito por causa dos altos investimentos necessários e da falta de políticas públicas que incentivem todas as formas de armazenamento de carbono. 

Reportagem da Bloomberg que apontou os diversos problemas e a inanição no desenvolvimento do CCS também mostrou, por outro lado, que dentre todos os investimentos em energia limpa ou formas de descarbonizar a economia, como a geração eólica e solar, por exemplo, apenas uma tecnologia quase sempre recebe uma avaliação cada vez mais otimista, mas não consegue progredir: a captura e armazenamento de carbono.

À Bloomberg Fatih Birol, diretor executivo da AIE, disse que “a história da CCS tem sido de grande decepção”. Ele argumenta que se as diretrizes apontadas pela sua organização tivessem sido adotadas “poderia ter mudado a trajetória da luta contra as alterações climáticas e a segurança energética, e dado uma perspectiva diferente à indústria dos combustíveis fósseis”.

O que é CCS?

A mais tradicional forma de captura e armazenamento separa CO2 de outros gases e normalmente coleta emissões de chaminés e da própria produção de petróleo. O carbono é transportado para um local de armazenamento, geralmente um campo de petróleo e gás esgotado, onde é enterrado permanentemente. Este processo tem sido utilizado comercialmente desde a década de 1970, principalmente para extrair mais petróleo. O dióxido de carbono comprimido atua como um lubrificante perfeito para expulsar os resíduos mais difíceis de alcançar dos poços envelhecidos.

Existem outras tecnologias que, por exemplo, captam o CO2 do ambiente. Este gás de efeito estufa é separado do ar e, depois, armazenado. Outra técnica com impacto direto no Brasil é o processo de bioenergia com captura e armazenamento de carbono. Durante a transformação de vegetais em biocombustíveis, como etanol, biometano e bioeletricidade, há liberação de CO2, atualmente ventilado para a atmosfera. Este CO2 é capturado, separado de outros gases e comprimido para ser transportado até o local de injeção para armazenamento permanente em formações geológicas profundas.

Os segmentos industriais com grande interesse em utilizar as tecnologias CCS são os que mais dependem de combustíveis fósseis em seus processos produtivos ou de combustíveis de alta densidade energética. As indústrias de cimento, siderurgia, química e fertilizantes, além da cadeia de produção de biocombustíveis são candidatas. Mas o setor automotivo, responsável por quase 20% do PIB industrial no Brasil, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, também tem grande potencial para reduzir a pegada de carbono em toda sua cadeia adotando o CCS.

Ainda que a participação da indústria seja de apenas 5,2% nas emissões totais de CO2 no Brasil os processos industriais atingiram um volume próximo a 85 milhões de toneladas em 2021, segundo a CCS Brasil, entidade especializada no tema. De acordo com seus estudos 57% dessas emissões podem ser mitigadas com a adoção de projetos e tecnologias de CCS. Dentre os segmentos industriais mais relevantes considerando a quantidade de CO2 emitida, a maior participação está na produção de metais, essencial para o setor automotivo, que correspondeu a quase 70% das emissões de todos os processos industriais.

A geração de energia também é uma atividade relevante na cadeia automotiva. Apesar do Brasil possuir uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo as fontes fósseis que utilizam petróleo e derivados, gás natural e carvão mineral representaram pouco mais de 53% da oferta interna de energia em 2021, segundo dados da EPE, Empresa de Pesquisa Energética, vinculada ao Ministério de Minas e Energia.

De acordo com o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa, SEEG, iniciativa da ONG Observatório do Clima, o setor de energia foi responsável por 25,3% das emissões de CO2 no País, a segunda maior contribuição do cenário nacional. A maior parte destas emissões concentrou-se nas Regiões Sudeste e Sul do País, com 47% e 16%, respectivamente, do CO2 emitido para gerar energia. Para a CCS Brasil o potencial para captura de CO2 chega a 32% das emissões do setor de energia, podendo reduzir cerca de 130 milhões de toneladas provenientes de fontes fósseis por ano. A CCS Brasil calcula que este potencial representaria em torno de 8% das emissões totais do Brasil em 2021.

Iniciativas no País

O Brasil não está engatinhando na captura e armazenamento de CO2, porém os três projetos que envolvem de alguma forma partes da cadeia de CCS estão em estágios de desenvolvimento muito diferentes, de acordo com levantamento da CCS Brasil.

O primeiro e mais antigo projeto brasileiro é da Petrobras que desenvolve etapas não só de armazenamento mas, também, de utilização do CO2 capturado. As atividades de armazenamento por meio de reinjeção de CO2 são realizadas pela Petrobras nos campos do pré-sal. O projeto começou como um piloto, no campo de Tupi, e se estendeu aos campos de Mero e Búzios, acumulando atualmente 40,8 milhões de toneladas de CO2 reinjetados. Só em 2022 foram 10,6 milhões de toneladas de CO2 injetadas e a expectativa é chegar a 80 milhões de toneladas de CO2 até 2025.

A segunda iniciativa está em fase de desenvolvimento de projeto e é liderada pela FS Bioenergia, a maior produtora de etanol de milho do País. A empresa planeja investir cerca de US$ 65 milhões para estruturar este projeto, que deverá implementar sistemas de captura e estocagem de CO2 em sua unidade de Lucas do Rio Verde, MT. Esse projeto tem potencial, segundo a CCS Brasil, para reduzir as emissões de CO2 na produção de biocombustíveis, sendo uma referência para o setor.

O terceiro projeto em operação está localizado em Criciúma, SC: uma planta piloto de pesquisa e desenvolvimento para captura de CO2 a partir da geração de energia termoelétrica a carvão. Embora ainda esteja em fase inicial este projeto é considerado muito promissor e pode contribuir significativamente para reduzir as emissões de CO2 na geração de energia utilizando combustíveis fósseis.

Segundo levantamento da Agência Internacional de Energia existem 47 projetos de CCS em operação no mundo que, somados, têm uma capacidade anunciada que varia de 74 a 82 MtCO2 capturados por ano. Os projetos se concentram majoritariamente em países desenvolvidos.

No entanto o aproveitamento dessa capacidade ainda está muito aquém do esperado e contradiz a confiança dos cientistas no CCS como ferramenta para frear os eventos climáticos. A Bloomberg revelou, por exemplo, que a maior central de captura de carbono do mundo, construída no Texas, Estados Unidos, pela Occidental Petroleum Corp, nunca operou com mais de um terço da sua capacidade em mais de uma década.

Enquanto o CCS é apenas uma esperança, e a eletrificação da mobilidade também está longe de entregar uma solução para a descarbonização, as chuvas torrenciais, a seca e a já não tão improvável savanização da Amazônia, as ventanias que se transformam em tornados, as nevascas fora de época e uma série de outros eventos extremos ainda inimagináveis que já, já se converterão em muitas vidas humanas e de outras espécies, continuarão batendo à porta com cada vez mais frequência. 

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