São Paulo – O cenário internacional para o comércio exterior está diferente do habitual em virtude de mudanças de ordem econômica e política vigentes nas últimas oito décadas, do liberalismo ao protecionismo, fruto de tensões geopolíticas que colocaram no centro das disputas as commodities do agronegócio, as áreas da energia e de minérios. É o que analisou o diplomata Rubens Barbosa, que foi embaixador do Brasil nos Estados Unidos e na Inglaterra, e atualmente é CEO do Irisi, Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior, e presidente de honra do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp, durante o evento Conexão Abipeças, realizado pelo Sindipeças.
“Nós estamos vendo o aumento da preocupação com a segurança alimentar diante do aumento da população global e das dificuldades de produção dentro dos países. A mesma coisa com a energia, em países como Filipinas e Indonésia, tendo restrições para usar a eletricidade. E quanto aos minérios a dependência da indústria, sobretudo para fazer os produtos mais de alta tecnologia, só reforça a tensão geopolítica.”
Barbosa salientou, no entanto, que o Brasil está muito bem colocado nesses três itens. “O problema é que nós não temos uma estratégia para isso, nem uma visão de médio e longo prazo, tampouco uma política de investimento”.
É preciso negociar direto com ministérios
Neste cenário, para que as empresas do setor automotivo não percam oportunidades e consigam se tornar mais competitivas no comércio exterior, o embaixador disse ser fundamental que sindicatos e associações comerciais negociem diretamente com o MDIC, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
“O objetivo é discutir formas de se obter redução de série de custos para a indústria automotiva sem vinculação política, discutido tecnicamente”, assinalou Barbosa, ao dar como exemplo o que realizou à frente da Abitrigo, Associação Brasileira da Indústria do Trigo, ao pactuar com o Ministério da Agricultura e o MDIC.
Segundo ele o governo não age se não for motivado: “O governo tem tantos problemas aqui no Brasil, sociais, econômicos, políticos. Se não ficar em cima não sai. Então, em certas coisas menores na área de importação e de exportação, é possível pleitear a fim de melhorar a eficiência, reduzir a burocracia e as regulamentações. E isso pode ser feito discretamente com os ministérios competentes. É algo técnico no qual as associações podem ajudar”.
Para o embaixador é preciso agir em paralelo com entidades como CNI, Confederação Nacional da Indústria, e Fiesp, pois, em suas palavras, embora sejam importantes, às vezes defendem causas que interessam a “certos grupos” e não a todos: “Tanto a Fiesp como a CNI hoje não representam, na minha visão, completamente os interesses de todo o setor. Há coisas menores que não chegam a ser foco de atenção nem delas, mas que as associações podem fazer”.
Expansão de destinos de exportação
“O mundo está mudando e quem não se adaptar a este novo mundo, com essas novas prioridades, ficará de fora”, disse o embaixador. Ele exemplificou que o setor de autopeças, até pouco tempo atrás, tinha espaço no mercado estadunidense. Com o tarifaço tudo mudou. Ao mesmo tempo a concorrência local com produtos chineses cresce dia após dia.
Para melhorar a competitividade é o momento de expandir mercados para além de Argentina e México, salientou, tanto como para outros países da América Latina e da África: “A invasão de carros elétricos da China será um problema sério para a indústria automobilística, que terá de se reinventar. Nosso mercado interno não será suficiente, diante da maior competição com chineses”.
Brasil pode ser área de influência
Frente às mudanças geopolíticas o mundo está evoluindo para áreas de influência, lembrou Rubens Barbosa, ao citar a estadunidense, a chinesa, a russa e a europeia, e afirmar que o novo equilíbrio será multipolar, com forças interagindo e evitando conflagração global.
“Pelo menos neste futuro, no curto e médio prazos, esta será a situação. E o Brasil, se fizermos o dever de casa, pode ser um desses polos. Agora temos de falar pela América do Sul, o que claramente [é um status que] precisa ser construído.”