Recebi há alguns dias, de um importante executivo da indústria automotiva brasileira, mensagem curta comentando notícia que foi publicada em meados deste mês no portal UOL sobre a crítica feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva à decisão da Vale de comprar navios na China em vez de estimular a indústria naval brasileira. Segundo disse Lula “não tem sentido a gente fazer esforço em estaleiro brasileiro e a Vale estar gerando emprego na China”.
O presidente afirmou, ainda, que pretende conversar diretamente com o presidente da companhia sobre isto, porque considera que este tipo de decisão “não é correta com o Brasil”.
A observação do meu amigo que veio junto com o link da notícia sobre este assunto foi curta, simples e extremamente provocativa: “Só faltava essa: navio não pode, carro pode?”.
Peço desculpas ao meu amigo pela apropriação da frase no título deste meu artigo, mas confesso que ela resume de maneira quase perfeita uma das maiores contradições industriais que, acredito, o Brasil vive atualmente.
E a pergunta é legítima! Se existe preocupação do governo com a geração de empregos na China em vez de aqui quando o assunto é construção naval, por que esta mesma preocupação parece não existir, com a mesma intensidade, quando falamos da crescente importação de veículos completos que estamos presenciando?
Antes de qualquer coisa considero importante deixar claro um ponto: este debate não pode ser simplificado em uma tentativa de negar a impressionante evolução da indústria chinesa, pois a China realmente se transformou, talvez, no maior fenômeno industrial da história contemporânea.
Sua eficiência produtiva, velocidade de desenvolvimento tecnológico, capacidade de investimento, domínio de cadeias produtivas e agressividade comercial realmente colocaram o país em um patamar extremamente difícil de ser acompanhado atualmente. E especialmente no setor automotivo os chineses representam hoje um verdadeiro ponto fora da curva. Ignorar isto seria mesmo ingenuidade.
Mas reconhecer a atual competência industrial chinesa não significa aceitar passivamente um processo de desindustrialização local. E é exatamente aqui que desejo colocar minha reflexão. Não escrevo este artigo como alguém contrário à concorrência internacional ou ao avanço tecnológico global. Ao contrário. Competição é saudável e necessária. O consumidor merece acesso às melhores tecnologias, produtos modernos e preços competitivos.
Escrevo este texto como alguém que acredita profundamente na importância da indústria brasileira. Simplesmente porque considero que indústria, num país como o Brasil, não representa apenas produção. Representa empregos de qualidade. Representa engenharia. Representa formação técnica. Representa inovação. Representa pesquisa. Representa cadeias produtivas complexas. Representa desenvolvimento regional. Representa arrecadação. Representa soberania econômica.
E poucos setores simbolizam isto de maneira tão clara quanto a indústria automotiva brasileira. Ao longo de mais de 70 anos o Brasil construiu uma das maiores bases automotivas do planeta. Não estamos falando apenas de montadoras. Estamos falando de milhares de empresas, fornecedores, sistemistas, centros de desenvolvimento, universidades, concessionárias, transportadoras e profissionais altamente qualificados.
Cada fábrica instalada no País ajuda a sustentar um gigantesco ecossistema de empregos diretos e indiretos. E talvez seja justamente isto que esteja faltando no debate atual: compreender que o verdadeiro valor da industrialização vai muito além do produto final.
Quando uma fábrica fecha, reduz produção ou perde competitividade não desaparecem apenas números de produção. Desaparecem oportunidades de crescimento profissional, conhecimento acumulado, engenharia local e empregos capazes de gerar renda, consumo e desenvolvimento social de longo prazo.
Por isso a frase do meu amigo faz tanto sentido. Se o governo considera inadequado que uma empresa brasileira compre navios no Exterior porque isto gera empregos fora do País, por que a mesma lógica não aparece com igual intensidade quando falamos da importação crescente de veículos completos?
A pergunta não é contra ninguém. É a favor do Brasil! Porque nenhum país relevante do mundo abriu mão de defender sua capacidade industrial, principalmente a China. E dificilmente existirá desenvolvimento econômico sustentável sem indústria forte, moderna, competitiva e instalada localmente.
Por isso sigo acreditando que defender a indústria automotiva brasileira não é defender empresas. É defender empregos de qualidade, tecnologia, desenvolvimento e futuro. E, neste momento em que iniciamos uma nova corrida eleitoral talvez esteja mesmo na hora de o País responder, com mais clareza, à pergunta feita por meu amigo:
“Navio não pode, carro pode?”.