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O mundo começa a olhar para o carbono e isto pode mudar tudo para o Brasil

O que importa não é o como: é reduzir a pegada do carbono. As diversas tecnologias disponíveis serão testadas nos próximos anos.

Durante um dos debates realizados no Anfavea Vision nesta semana, em São Paulo, uma observação feita quase de passagem chamou particularmente minha atenção: ao comentar os rumos da atual regulamentação ambiental na Europa, um dos participantes de um dos debates realizados informou, quase que de passagem, que a Alemanha está avançando rapidamente no reconhecimento dos combustíveis renováveis dentro das suas estratégias de descarbonização e que, a partir talvez já em 2030, veículos abastecidos por biocombustíveis poderão passar a ser considerados “zero emission”.

Se isto se confirmar, está observação é, no meu ponto de vista, de extrema relevância porque revela algo muito mais do que uma simples classificação regulatória, vez que talvez signifique que podemos estar assistindo ao início de uma mudança profunda na forma de como o mundo está analisando o problema da descarbonização dos transportes.

Durante anos, principalmente ao longo de boa parte da segunda metade da década passada, a discussão parecia relativamente simples e ficou resumida à necessidade de substituir motores a combustão por motores elétricos. A regulamentação então construída em diversos mercados a partir deste raciocínio, principalmente da Europa, acabou quase que totalmente desenvolvida a partir desta lógica.

Isto, obviamente, não significa que os veículos elétricos estão deixando de ter importância ou que não devam mais ocupar um papel relevante na luta pela descarbonização do planeta. Mas certamente demonstra que a discussão ambiental é muito mais ampla e complexa do que a simples escolha da tecnologia que deve ser utilizada para movimentar um veículo.

Nunca e demais lembrar que, historicamente, as regulamentações ambientais e as decisões tomadas quase sempre se concentraram nas emissões produzidas pelo escapamento dos veículos. Analisando-se o problema somente sob esta ótica, é óbvio que um automóvel elétrico apresenta desempenho ambiental superior, vez que não produz emissões locais diretas durante sua utilização.

O problema é que o tal do carbono não nasce somente na saída do escapamento. Ele está amplamente e principalmente presente também na geração da energia elétrica, principalmente quando estudamos as formas não ambientalmente corretas como a produção elétrica se dá Europa e na Ásia.

É exatamente a partir desta constatação que análises conhecidas no Brasil como “do poço à roda” começaram a ganhar cada vez mais relevância, primeiro nos debates nacionais e, agora, ao que parece, também nas discussões internacionais. A pergunta está deixando gradativamente de ser “qual veículo emite menos?” para se transformar em algo muito mais abrangente: “qual solução efetivamente emite menos carbono ao longo de toda a sua existência?”.

E é justamente nesse ponto que o Brasil, na minha leitura dos fatos, poderá ocupar uma posição privilegiada pois, enquanto grande parte do mundo ainda busca novas alternativas para reduzir suas emissões, nossa indústria construiu ao longo de

décadas, com a adoção do etanol, uma das experiências mais bem-sucedidas do planeta na utilização de combustíveis renováveis.

E o etanol, com este movimento, pode estar deixando de ser apenas um combustível alternativo para se transformar definitivamente em uma plataforma tecnológica importante. Não é à toa, inclusive, que países como Índia e Japão estão iniciando movimentos para também ampliar a utilização do combustível em suas matrizes energéticas. E aqui na América Latina, países como a Argentina e Colômbia também já começaram a implementar seu uso para movimentar os veículos que comercializam.

Há poucas semanas, inclusive, a Índia lançou um dos primeiros automóveis flex desenvolvidos especialmente para aquele mercado. Mais do que um simples lançamento, o projeto chamou a atenção por contar com participação relevante da engenharia brasileira da Bosch no desenvolvimento dos sistemas e da fábrica local no fornecimento dos componentes necessários para a adaptação da novo veículo ao combustível renovável.

Pelo visto, o conceito de que “o futuro não será elétrico, será eclético”, que Christopher Podgorski, presidente da Scania Latin América, criou anos atrás e difundiu primeiro em um seminário de AutoData, começou a se espalhar agora também pelo mundo.

E, isto acontecendo, certamente haverá espaço para elétricos, híbridos, combustíveis sintéticos, células de combustível e também para biocombustíveis renováveis. E, quem sabe, para que a indústria e a capacidade de desenvolvimento tecnológico do Brasil possam ficar cada vez mais em evidência no mundo…

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