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Scania vê possível guerra de preços e admite que há o que aprender com os chineses

Presidente Christopher Podgorski afirma que excesso de capacidade da indústria chinesa pressiona mercados globais e defende regras iguais para todos

São Paulo — A chegada de empresas fabricantes de veículos com origem na China ao mercado brasileiro de pesados deve intensificar a concorrência nos próximos anos e pode desencadear guerra de preços. Mas para Christopher Podgorski, presidente e CEO da Scania na América Latina, o desafio não está apenas em competir com as novas marcas mas, também, em aprender com a velocidade de desenvolvimento da indústria chinesa.

O executivo afirmou que o avanço dos fabricantes asiáticos é consequência direta da capacidade excedente instalada na China e da necessidade de encontrar novos mercados para absorver essa produção.

“Se você tem uma fábrica na China com capacidade para produzir cem e está produzindo cinquenta o que faz com as outras cinquenta? Você procura mercado para elas no mundo.”

Segundo Podgorski a mudança de postura dos Estados Unidos e da Europa, que elevaram barreiras comerciais para conter o avanço dos veículos chineses, redirecionou parte desta produção para outros mercados: “Os Estados Unidos fecharam a porta com tarifas de 100%. A Europa também elevou suas barreiras. Então eles olharam para outros mercados. E o Brasil apareceu como uma alternativa”.

O executivo admitiu que existe risco de pressão sobre preços. Apesar disso avaliou que o segmento de caminhões possui características diferentes das observadas no mercado de automóveis e destaca que a construção de uma operação sólida vai muito além da importação de veículos.

“Nós, Scania, temos 70 anos de Brasil. Temos uma rede de concessionárias extremamente bem posicionada. Investimos continuamente em treinamento, suporte e distribuição de peças. Trabalhamos muito para evitar que um veículo fique parado.”

Para Podgorski o principal desafio para os novos concorrentes será justamente construir essa estrutura de pós-venda e atendimento: “A parte mais fácil é ocupar a capacidade ociosa que existe lá na China. Quem está chegando precisa construir todo o resto”.

O presidente da Scania espera que a competição aconteça sob as mesmas condições regulatórias para todos os fabricantes: “Pode vir quem quiser. Mas precisa seguir as mesmas regras que nós seguimos”.

Segundo ele importar kits parcialmente montados não pode ser equiparado aos investimentos realizados pelas empresas que produzem localmente: “Nós investimos R$ 6 bilhões em três ciclos de investimento de 2018 a 2028. Foi um esforço para industrializar, testar e validar produtos para a realidade brasileira”.

Podgorski também questionou a adaptação dos veículos chineses às condições mais severas de operação encontradas no País.

“A China dispõe de uma infraestrutura muito diferente. As estradas são excelentes. Quero ver esses veículos entrando nas fazendas do Mato Grosso para buscar soja em condições de muita poeira ou muita lama.”

Aprender com a China

Embora cobre igualdade de condições o executivo evitou tratar os chineses apenas como concorrentes. Ao contrário: afirmou que a Scania decidiu aprender com aquilo que considera uma das principais virtudes da indústria do país asiático: a velocidade de execução: “Em vez de lutar passivamente contra eles estamos tentando aprender e combinar o melhor dos dois mundos”.

A Scania realizou na China o maior investimento individual de sua história, de 2,2 bilhões de euros, em uma fábrica inaugurada no ano passado. Segundo Podgorski a unidade terá capacidade para produzir até 50 mil caminhões por ano quando atingir o ritmo pleno de operação: “Normalmente levamos de seis a sete anos para desenvolver um novo caminhão. Na China fizemos isso em três anos”.

O executivo atribuiu este ganho de velocidade à cultura industrial chinesa: “Eles não têm medo de errar. Fazem, erram, corrigem e seguem rapidamente”.

A experiência também tem acelerado a incorporação de tecnologias digitais dentro da companhia. Segundo ele o plano da Scania não é resistir à transformação provocada pela China e, sim, absorver aquilo que considera positivo: “A engenharia sueca continua sendo extremamente respeitada. Mas estamos aprendendo muito com os chineses”.

Brasil segue prioridade

Apesar da nova dinâmica competitiva Podgorski afirmou que os investimentos da Scania na América Latina não serão alterados: “Nos últimos vinte anos o Brasil foi, em volume, o maior mercado da Scania no mundo. Isto não tem volta”.

A empresa continua avaliando novos projetos para a região, disse o presidente, e mantém planos de industrialização futura de caminhões elétricos pesados no País: “Tudo o que enxergamos hoje indica que a industrialização acontecerá aqui. Não é uma questão de se, mas de quando”.

Para Christopher Podgorski a chegada dos chineses representa mais um elemento de transformação de um setor que passará por mudanças profundas nos próximos anos: “Se for assim eu não tenho nada a temer. Temos só que jogar com o mesmo regulamento”.

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