São Paulo — A transformação do powertrain exige investimentos em diferentes tecnologias e maior integração entre montadoras e fornecedores. Para representantes da Bosch, BorgWarner e Horse, o Brasil tem oportunidades tanto no desenvolvimento de soluções eletrificadas quanto no aprimoramento dos motores a combustão e no uso de biocombustíveis. O desafio é garantir escala, previsibilidade e competitividade para ampliar a produção local.
O tema foi debatido no Seminário Eletrificação e Descarbonização, promovido por AutoData. Participaram do painel os executivos: Gáston Diaz Perez, presidente da Bosch; Marcelo Rezende, diretor para a área de baterias da BorgWarner; e Márcio Melhorança, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Horse para a América Latina.
Para Perez, o País precisa aproveitar a experiência acumulada na indústria automotiva e, ao mesmo tempo, desenvolver competências em eletrificação. “A grande oportunidade é desenvolver uma indústria flexível e competitiva, capaz de atuar em diferentes tecnologias, acompanhar a transformação do mercado e agregar cada vez mais valor local.”
O executivo defendeu a construção de uma cadeia de fornecimento integrada, com participação de montadoras, fabricantes de componentes e empresas de software. Segundo ele, o modelo de desenvolvimento adotado na China, com maior colaboração entre os diferentes elos da indústria, oferece uma referência para o Brasil.
“A discussão é quando a próxima geração da descarbonização será desenvolvida aqui no Brasil”, observou o presidente da Bosch. Para ele, a integração entre mecânica, eletrônica, sistemas elétricos e software é fundamental para desenvolver veículos competitivos e reduzir a dependência de soluções importadas.
Baterias avançam na nacionalização
Na BorgWarner, a montagem de conjuntos de baterias já é realizada no Brasil. Marcelo Rezende afirmou que a operação de Piracicaba, no interior paulista, produz os packs com sistemas de gerenciamento eletrônico e térmico. Ele destacou a próxima etapa: “Temos trabalhado muito para desenvolver a base de fornecedores, para que possamos não só fabricar o sistema completo, mas também utilizar cada vez mais componentes nacionalizados.”
A fabricação de células, porém, ainda representa um desafio. Segundo Rezende, essa etapa deve avançar no médio prazo. Ele pontuou que será enquanto o desenvolvimento de sistemas eletrônicos e softwares também ganha importância, especialmente diante das exigências de segurança dos veículos eletrificados.
Deste modo, o executivo explicou que a BorgWarner pretende produzir no Brasil uma bateria com tecnologia LFP, utilizando células importadas da FinDreams, subsidiária da chinesa BYD. A estratégia prevê a fabricação local dos conjuntos e de seus sistemas integrados, mas não inclui a produção de células pela própria empresa.
Motores a combustão ainda têm espaço para evoluir
Ademais, Márcio Melhorança destacou que os motores a combustão ainda podem ganhar eficiência, mas defendeu que a prioridade brasileira também seja ampliar o acesso às tecnologias eletrificadas. Para ele, a combinação entre motores híbridos e etanol pode aproveitar a estrutura industrial já estabelecida e contribuir para a redução de emissões. “Acredito que o grande desafio esteja em como viabilizar ou tornar o híbrido, as soluções eletrificadas, mais acessíveis.”
Segundo o executivo, a ampliação do mercado para essas tecnologias pode fortalecer a cadeia nacional e abrir oportunidades em outros países. No entanto, o diretor da Horse também alertou para o risco de parte do desenvolvimento tecnológico migrar para outros mercados. “Temos que cuidar para não perdermos o protagonismo do flex.”
Escala e previsibilidade orientam investimentos
No caso da escala e previsibilidade do mercado para as novas tecnologias, Perez analisou que os dois fatores são determinantes para os investimentos. “Se o mercado de 3 milhões de veículos for adotar 20 tecnologias diferentes, é muito difícil a indústria reagir.”
Nesse sentido, para o diretor da BorgWarner, o custo da eletrificação exige planejamento. “Os investimentos são altíssimos, por exemplo, numa fábrica de bateria”.
Enquanto Melhorança acrescentou que a eletrificação exigirá também capacitação para a manutenção dos veículos. Nos híbridos plug-in, os sistemas de alta tensão demandam cuidados específicos. “Mais do que nunca, precisamos preparar toda a cadeia para saber fazer a manutenção correta dessas tecnologias.”
Além disso, o diretor da Horse defendeu que a política industrial priorize tecnologias para favorecer a escala. “Hoje, a política industrial deixa aberta a escolha de diversas tecnologias. E isso não vai no sentido da escala, mesmo no mercado do tamanho que é o do Brasil.”























