São Paulo — O processo global de transição energética não pode ser visto pelo Brasil como mera oportunidade comercial de consumo: é preciso transformá-lo em alavanca para a neoindustrialização e para a soberania tecnológica. Foi o que avaliou Sérgio Roberto Knorr Velho, coordenador geral da indústria de bens de consumo não duráveis e semiduráveis da Secretaria de Desenvolvimento Industrial, Comércio e Serviços do MDIC, durante o Seminário Brasil Eletrificação e Descarbonização, realizado por AutoData na terça-feira, 20.
Knorr Velho destacou que o Brasil inicia esta corrida com vantagem comparativa crucial: uma matriz elétrica 88% limpa e descarbonizada. Tal diferencial permite que os veículos produzidos no País já nasçam com uma pegada de carbono reduzida ao longo de todo o seu ciclo de vida.
Segundo o especialista o Brasil encontra-se em uma “encruzilhada estratégica” e precisa escolher ser um consumidor passivo — limitando-se a importar kits desmontados em CKD e SKD e pacotes tecnológicos fechados — ou assumir a rota da neoindustrialização verde e sustentável no século 21.
Para sustentar esta transformação o governo aposta nas diretrizes da NIB, Nova Indústria Brasil, e no Programa Mover, Mobilidade Verde e Inovação, que estabelece horizonte de longo prazo com metas de descarbonização, estímulos ao investimento em pesquisa e desenvolvimento e valorização do conteúdo local.
Knorr Velho ressaltou a mudança profunda na medição de eficiência energética promovida pelas novas diretrizes: “Esta métrica é revolucionária porque passa de uma óptica do poço à roda para futuramente do berço ao túmulo, cobrindo todo o ciclo do automóvel, premiando a reciclabilidade e a economia circular”.
Para que os objetivos sejam alcançados o coordenador reforçou a necessidade da oferta de crédito direcionado à modernização do parque fabril por meio de órgãos como BNDES e Finep, partilhando os riscos de inovação com a cadeia de autopeças.
Híbridos flex e frota pesada
O Brasil conta com a rota dos veículos híbridos flex e, sob a perspectiva do ciclo de vida completo, um modelo que rode a etanol emitido no Brasil gera menos carbono do que um veículo 100% elétrico carregado na rede média europeia. Esta solução aproveita a infraestrutura de distribuição de combustíveis já existente e conecta a engenharia automotiva ao agronegócio sustentável.
Na mobilidade pesada, contudo, o imperativo reside na eletrificação direta e no aproveitamento do poder de compra público. Sendo um dos maiores fabricantes mundiais de carrocerias e chassis de ônibus o País deve utilizar as concessões urbanas para criar escala de montagem e adensamento local, avaliou Knorr Velho.
“A primeira experiência de rodar em um veículo elétrico para a maioria dos usuários no Brasil será em um ônibus urbano elétrico. As prefeituras precisam usar o poder de compra pública para alavancar a escala de montagem e integração local destes veículos.”

Baterias, minerais críticos e o Triângulo de Sábato
O coordenador do MDIC abordou também a superação do que considerou neoextrativismo mineral: “O Brasil possui expressivas reservas de lítio, níquel e terras raras, mas precisa condicionar as concessões ao refino local e à purificação dos componentes em território nacional, avançando no empacotamento de módulos e no desenvolvimento de softwares estratégicos como o BMS, battery management, o sistema de gerenciamento de bateria”.
A estruturação desta cadeia exige articulação envolvendo Estado, indústria e academia, o chamado Triângulo de Sábato. Como exemplos históricos bem-sucedidos desta tríade no Brasil Knorr Velho, que também é autor do livro A revolução da mobilidade sustentável, pela Editora Blucher, citou os casos da Embraer e da Petrobras.
Ao projetar os rumos para os próximos anos sintetizou as prioridades para a indústria automotiva nacional: “Precisamos de uma eletrificação soberana do transporte coletivo urbano, da consolidação da plataforma híbrido flex e de uma exigência de agregação de valor e refino doméstico dos minerais críticos para baterias, garantindo assim que o Brasil não seja apenas um exportador de terra bruta e importador de tecnologia”.























