São Bernardo do Campo, SP — Enquanto as montadoras avançam em soluções energéticas para biocombustíveis, a Mercedes-Benz ainda avalia a viabilidade do biometano para caminhões pesados no Brasil. Marcos Andrade, gerente sênior de marketing de produto e comunicação da empresa, afirmou que a tecnologia enfrenta desafios de durabilidade, eficiência e custo que dificultam sua aplicação em operações de transporte de cargas.
“O biometano ainda está em uma fase de muitos testes, análises, discussões e feedback interno. Está vindo com vários clientes, mas, até o momento, não temos essa solução disponível no mercado para o nosso cliente”, afirmou Andrade.
Segundo o executivo da Mercedes-Benza, a fabricante identifica aplicações em que o combustível pode fazer sentido, mas não vê a mesma perspectiva para o mercado como um todo. “Em conversa também com diversos setores, identificamos que, sim, para alguns segmentos, nichos do mercado, faz sentido. E são neles que temos que focar.”
O gerente destacou o biodiesel como uma alternativa mais prática para a transição energética do transporte rodoviário, principalmente pela infraestrutura de abastecimento já existente no País. “Acreditamos muito mais no biodiesel, porque esse é o futuro realmente sustentável, com a praticidade de ter uma rede de distribuição praticamente pronta em todo o Brasil.”
Durabilidade dos motores é um dos desafios
A capacidade de operar com cargas elevadas é um dos fatores que dificultam a aplicação do biometano em caminhões pesados, segundo o executivo. Ele explicou que a operação brasileira utiliza veículos com configurações como 6×2 e 6×4, que podem transportar até 58,5 toneladas e 74 toneladas, respectivamente.
Na avaliação técnica, essa condição exige muito dos motores a gás, especialmente em relação à temperatura e à durabilidade. “Quando falamos de biometano, a vantagem é a pulverização. Por outro lado, o desafio do transporte no Brasil, quando comparado com outros países, é a carga.”
Andrade alegou que que as cargas elevadas impõem condições severas de funcionamento aos motores. “Uma solução associada a uma alta carga, como temos no 6×4 e no 6×2, leva um motor de 13 litros a trabalhar numa condição extremamente estressada em termos de temperatura. E não temos garantia de durabilidade como tem nos motores a diesel tradicionais.”
Desse modo, a empresa vê limitações para a expansão da tecnologia nos segmentos de maior capacidade de carga. Uma alternativa técnica poderia envolver motores maiores, mas a adaptação às condições do mercado brasileiro ainda exige desenvolvimento. “De fato, uma solução técnica mais viável seria um motor de 15 litros, que acolha o desafio do mercado brasileiro.”
Ele ressaltou que a Mercedes-Benz não pretende lançar um produto sem assegurar os requisitos exigidos pela operação. “Não queremos fazer brincadeira em relação ao produto, porque acreditamos em durabilidade. Temos discutido soluções, mas não é tão simples assim como se imagina.”
Custo ainda não fecha a conta
Além dos desafios técnicos, a fabricante considera que a adoção do biometano precisa garantir disponibilidade e confiabilidade ao transportador. A avaliação inclui o desempenho do veículo, a eficiência, o preço e a rentabilidade para as partes envolvidas. “Essa difusão não é tão fácil se a gente olhar a questão puramente técnica e, principalmente, um pilar da nossa empresa, que é a confiança e a disponibilidade.”
Segundo ele, a Mercedes-Benz ainda não alcançou o equilíbrio necessário. “Não encontramos esse balanço entre uma solução técnica, eficiente, com preço adequado e uma rentabilidade para todas as áreas envolvidas, nossa empresa e o cliente.”
Além disso, Andrade acrescentou que a conta precisa incluir os custos posteriores à compra do caminhão. “Tem que incluir o custo de manutenção, revenda. Nós vemos que, mesmo para os clientes, está complicada essa equação.”
O executivo também mencionou a baixa participação dos veículos a gás no mercado como um indicador de que a viabilidade econômica ainda é um obstáculo. “A conta também não está fechando ainda. Mas as discussões são intensas aqui. Espero que, entendendo o que realmente faz sentido, continuemos a desenvolver tudo isso.”
Outras fabricantes já têm caminhões a gás
Segundo dados da Abegás, o Brasil possui hoje mais de 2,5 mil caminhões movidos a gás natural e biometano em circulação. Em comparação à frota nacional dos caminhões pesados, o número representa 0,1% dos 2,2 milhões.
Enquanto a Mercedes-Benz mantém a tecnologia em avaliação, outras fabricantes oferecem caminhões movidos a gás natural que também podem utilizar biometano, conforme a especificação do veículo e a disponibilidade do combustível.
A Scania tem modelos a gás em diferentes configurações, entre eles o X-gas G 410 8×2. A Volkswagen Caminhões e Ônibus desenvolveu o Constellation 26.280 a biometano para a coleta de resíduos urbanos. A Iveco também tem soluções a gás na linha S-Way.
A presença desses veículos no mercado não significa, necessariamente, que todos sejam abastecidos exclusivamente com biometano. O gás natural fóssil também pode ser utilizado nas aplicações compatíveis.























