Guarulhos, SP – Durante a apresentação de seu primeiro lançamento à imprensa, o Arcfox T1, que subverte a lógica dos chineses e estreia no mercado com um veículo de alto volume, Oswaldo Ramos, COO da BAIC no Brasil, reforçou sua meta: estar entre as cinco marcas mais vendidas até 2031.
Este é o plano de todas as marcas, argumenta o nobre leitor em seus pensamentos. Antes existia o número mágico de 10%, que foi alcançado por poucas marcas. Mas Ramos, nesta entrevista exclusiva à Agência AutoData, mostra os argumentos para que a meta seja alcançada.
Ramos traz na bagagem a experiência de ter lançado a chinesa GWM no mercado nacional, que agora começa a beliscar o Top 10, mas só atua em segmentos de preços mais altos. Com a BAIC deseja repetir a experiência tendo em mãos um plano de produto mais agressivo.
A ideia é lançar carros competitivos em segmentos campeões de vendas. “A ideia é, se não ter o mais vendido, ter um dos três mais vendidos em cada segmento”, afirmou o COO.
Como na GWM, também, está nos planos produção e engenharia local e sistema flex. A corrida começa em 11 de novembro, com o lançamento oficial da marca e abertura de concessionárias. O Arcfox T1 entra em pré-venda em 29 de outubro.
Confira os principais pontos da entrevista:
O objetivo traçado pela BAIC é de ser uma das cinco marcas mais vendidas do Brasil até 2030. O plano envolve somente veículos elétricos ou também híbridos e a combustão?
No primeiro trimestre do ano que vem chega o híbrido. Para 2026 temos dois lançamentos programados, o Arcfox T1 e o Arcfox T5, que é um veículo médio elétrico. A partir de março chega o B30, um SUV de 4m70, híbrido, um carro de volume, para competir forte no segmento. E assim segue nosso portfólio, com até dez produtos em 2028, que será um ano de consolidação da nossa linha.
Este híbrido já será flex?
Não, a tecnologia está em desenvolvimento. Estamos com a Bosch desenvolvendo o sistema em um X55, em breve vocês verão ele rodando por aí. Ele é o primeiro a ser desenvolvido com tecnologia flex e depois de terminar toda a calibração vem a parte de homologação. Então deverá ficar para 2028.
E como chegar ao Top 5?
Tem muita marca tradicional que nunca chegou, mas também nunca teve um produto de entrada de R$ 129 mil competitivo. Para chegar lá, estaremos em todos os segmentos de alto volume com carros campeões, em uma estratégia muito dirigida a produto. A intenção é não ter talvez o mais vendido, mas um dos três mais vendidos em cada segmento. Também tem rede, marketing, pós-vendas e pessoas. É responsabilidade nossa estruturar o negócio e ter um produto campeão de vendas em cada segmento.

Você falou agora que vai ter que competir em todos os segmentos. Tem uma picape no horizonte?
Tem uma picape no horizonte. A BAIC tem no DNA o desenvolvimento de picapes, porque tem também a Foton dentro do grupo. Mas no Brasil existe a peculiaridade de uso de picapes como carro de passeio. Na China a circulação de picapes é proibida em grandes centros das maiorias das cidades. Então precisamos entender muito bem o consumidor brasileiro, o agro, entender não só a robustez necessária para este tipo de veículo mas também o diferencial competitivo de tecnologia que podemos agregar para o consumidor brasileiro de picapes. É algo que demanda mais tempo mas, sim, está nos nossos planos.
A BAIC terá um centro de desenvolvimento no Brasil, para fazer trabalhos de engenharia?
Está no nosso plano a engenharia local. O Brasil tem muito a contribuir com as características do seu mercado e mesmo do mundo ocidental, porque foi a porta de entrada que a China conseguiu. A indústria automotiva brasileira é centenária em engenharia. Os chineses se surpreendem com a qualidade dos nossos engenheiros, que conseguem agregar muito na parte mecânica, suspensão, freios, componentes que precisam de mais robustez. Eles, por sua vez, trazem engenharia de bateria e de software. É uma combinação boa.
Vocês abrirão 50 concessionárias em novembro e prometem mais 100 para 2027. Como foi apresentar a BAIC para os concessionários? Como ela foi recebida? Teve mais interessado do que loja em potencial?
Há uns tempos atrás uma marca nova atraía grupos que tinham muitas marcas. Como eles eram multimarcas pensavam: ok, vou apostar nisso aí também. Assim iniciou o ciclo chinês. Na BAIC foi interessante porque além do multimarcas que viu que deu certo, aquele que só tem uma marca entrou no jogo também. O monomarca enxergou que ele precisava agregar em seu portfólio uma marca eletrificada. E as montadoras tradicionais foram mais flexíveis, porque para elas interessa mais ter um concessionário com bom portfólio e boa saúde financeira.
Algumas lojas dividirão terreno com lojas de marcas tradicionais?
O tipo de investimento no passado, com prédios muito grandes, não cabe mais hoje. Tem muita venda online e o espaço físico pode ser menor. Então é natural que prédios sejam divididos por grupos, porque a conta fecha melhor. Tem lojas divididas em diversos lugares e é natural e saudável.

Vocês estão entrando no mercado direto no coração, em um segmento de alto crescimento e muita concorrência, o de compactos elétricos. Por que essa decisão?
Nossa intenção é ser uma marca de volume, que ofereça valor agregado e diferenciação. Não podemos, então, lançar um carro e dar errado, a dúvida vai prevalecer sobre nossa imagem. Precisamos de um produto que acelere de forma mesmo que gradual, junto com a demanda, mas que seja campeão de vendas. Colocar o carro na rua para a marca ficar conhecida. A ideia foi justamente começar por um segmento de volume para isto, para a marca ficar conhecida.
Vem um volume grande de carros no primeiro lote importado?
Por causa do volume de carros chineses chegando no Brasil existe uma restrição muito grande de navios para transportar os veículos da China para cá. Falta navio e o custo subiu. Produzimos 3 mil carros e embarcamos 2,3 mil por causa desta restrição, tem carro ainda esperando navio. Mais produção virá agora em novembro e dezembro e estamos planejando a logística, para garantir a estabilidade no fornecimento. Então estamos pegando navios, por exemplo, que fazem paradas na Europa, para garantir que os carros cheguem. Só que, por esta rota, a demora sobe dos tradicionais quarenta para setenta dias. Aí fica a dúvida: pegamos esta rota ou esperamos uma melhor? Hoje o gargalo não é na produção, não é decisão de investimento, ele está nos embarques. Mais uma razão para que carros de grande volume sejam montados no Brasil, não só pelo imposto ou viabilidade financeira.
A produção local da BAIC está confirmada?
Ela é necessária. Não temos ainda os pormenores, mas a conta fecha e a decisão da matriz foi tomada: teremos. Todo o estudo foi feito, foi o primeiro que fiz junto com os chineses, e Pequim acertou. Agora temos as alternativas para escolher para fazer um anúncio, quem sabe, no ano que vem.
Será uma fábrica do zero, buscam parcerias ou alguma que esteja inativa?
Todas as cartas estão na mesa.
E qual será o modelo, apenas montagem de kits CKDs ou buscarão fornecedores locais?
A tendência é operar no sistema peça a peça. Quanto temos uma visão de médio a longo prazo de nacionalização é melhor começar em um sistema flexível e pensar peça a peça: começa a comprar pneu, vidro, alguns itens que são naturais aqui e muito competitivos. A lógica do peça a peça funciona melhor, com uma aceleração ao longo do tempo, ampliando a localização do conteúdo.

A BAIC olha para além do Brasil, na América Latina?
Sem dúvida. O Brasil é o grande polo de produção para a América Latina porque é onde está a maior demanda. É uma indústria centenária, com cultura, DNA e mão-de-obra de qualidade. O Brasil pode, sem dúvida alguma, tornar-se base de exportação para a América Latina e talvez até para o Ocidente. Um ponto interessante: a BAIC é muito forte na Argentina, com um importador de lá. É a marca chinesa mais conhecida na Argentina, tem muito carro circulando em Buenos Aires. É uma prova de que o carro é adequado para o consumidor sul-americano.
Tivemos uma invasão de marcas chinesas recentemente e a BAIC é mais uma. Como você acha que ficará o mercado? Todas sobreviverão?
Acredito que quem está aqui hoje, fica. Temos no Brasil hoje onze grandes grupos automotivos: fala-se muito em marcas mas grupos são onze, que são grandes ou médios. Não tem pequeno mais, quem era pequeno entrou e saiu. Os pequenos grupos chineses não devem chegar ao Brasil porque, antes, haverá uma consolidação na própria China. O ponto não é quem sobrevive no Brasil, mas quem sobrevive na China, os pequenos grupos serão agregados aos maiores. Lá existe a visão de que serão de sete a dez grupos, que será refletida no Brasil. E no meu ponto de vista quem está aqui não desaparece.























