São Paulo — O setor automotivo registrou dez operações de fusões e aquisições no primeiro semestre de 2026, ante quinze no mesmo período de 2025, acumulando queda de 33%, segundo a pesquisa de fusões e aquisições, que é feita trimestralmente pela KPMG com onze setores da economia.
Em entrevista exclusiva a AutoData Guilherme Almeida, sócio da consultoria, atribuiu a retração a um mercado mais seletivo, pressionado pelos juros elevados e pelas incertezas que afetam as decisões de investimento.
Recuo de 87%
Segundo a pesquisa da KPMG os valores divulgados nas transações automotivas somaram R$ 25 milhões, recuo de 87% diante dos R$ 202 milhões registrados nos primeiros seis meses de 2025. A comparação exige, porém, uma ressalva importante: somente duas das dez operações deste ano tiveram seus valores informados, ante quatro das quinze anunciadas no primeiro semestre do ano passado. Os valores, portanto, não representam necessariamente a totalidade dos negócios realizados.
O desempenho automotivo integra o levantamento de indústria e de automotivos realizado pela consultoria, 32 operações de janeiro a junho de 2026, queda de 44,8% sobre as 58 registradas no mesmo período de 2025. Neste conjunto os valores movimentados recuaram 90,8%, de R$ 26,2 bilhões para aproximadamente R$ 2,4 bilhões.
Apesar da retração equipamentos e modernização industrial se destacaram e lideraram os valores transacionados no primeiro semestre de 2026. A maior operação do período foi a aquisição da Mills pela Loxam, por R$ 1,9 bilhão, segundo os dados apresentados por Almeida.
A queda de 90,8% no levantamento agregado foi determinada principalmente pela ausência de negócios do porte dos registrados um ano antes. No período estudado duas operações de papel e celulose concentraram cerca de 95% dos R$ 26,2 bilhões contabilizados no primeiro semestre de 2025.
Segundo o sócio especialista da KPMG foram elas a aquisição, pela J&F, dos 49% remanescentes da Eldorado Brasil, por R$ 15,2 bilhões, e a compra, pela Suzano, de 51% dos negócios internacionais de papéis para higiene da Kimberly-Clark, por R$ 9,7 bilhões.
Excluídas estas duas operações extraordinárias da comparação Almeida observou que não houve perda relevante no porte médio dos ativos negociados. O recorte automotivo, por sua vez, respondeu por aproximadamente 1% dos valores nos dois semestres e pouco justifica a dimensão da queda observada no conjunto da indústria.
A redução na quantidade de transações, entretanto, indica menor atividade no mercado. Na avaliação do sócio da KPMG os juros mantidos em patamar elevado por um período prolongado, as tensões geopolíticas e o adiamento de negócios em razão do calendário eleitoral contribuíram para tornar os compradores mais seletivos.
Das 32 operações de indústria e de automotivos anunciadas no primeiro semestre de 2026 quinze foram domésticas, envolvendo apenas empresas brasileiras, e dezessete tiveram participação estrangeira. As transações internacionais representaram, assim, 53% do total, diante de 47% das domésticas. Os compradores estratégicos, que são as empresas que adquirem ativos para desenvolver seus próprios negócios, responderam por 84% das operações.
Chegada das chinesas ainda não teve consequências
Ainda segundo a KPMG a expansão das montadoras chinesas no Brasil ainda não apareceu na pesquisa como um movimento de aquisições de fornecedores explicitamente associado à instalação ou ao crescimento destas fabricantes.
“A Pesquisa de M&A ainda não identificou aquisições de fornecedores explicitamente associadas à instalação e expansão das montadoras chinesas.”
O especialista ainda citou movimentos na rede de distribuição, como a aquisição de direitos de uma concessionária BYD, por exemplo, mas lembrou que esse tipo de negócio não representa consolidação da cadeia industrial.
A expansão das fabricantes pode ocorrer por meio de novas unidades, ampliação da capacidade produtiva ou contratos de fornecimento, sem necessariamente gerar uma fusão ou aquisição. Os dados disponíveis, contudo, não permitem confirmar uma preferência por novas fábricas, importação de componentes ou espera por maior escala de produção local.
Dentre os fornecedores nacionais a necessidade de ganhar escala e incorporar tecnologias abre espaço para novos negócios. Neste sentido Almeida apontou que a pesquisa já registra operações em componentes para eletrificação, sistemas eletrônicos, peças plásticas de maior complexidade, climatização e freios.
“A necessidade de ganhar escala e de incorporar novas tecnologias pode estimular fusões e aquisições por fornecedores nacionais”, avaliou o sócio da KPMG. São áreas que, segundo ele, ainda apresentam potencial de crescimento.
O levantamento da KPMG considerou operações anunciadas envolvendo empresas brasileiras com participação de investidores estratégicos ou financeiros. Cada negócio é contabilizado uma única vez, independentemente do número de investidores envolvidos.























