São Paulo – O majoritariamente masculino ambiente de trabalho no setor automotivo ainda é adverso para as mulheres ao redor do mundo, aponta estudo conduzido pela empresa de recursos humanos Gi Group em onze países, com 6,5 mil profissionais. Brasil e China, no entanto, destacam-se ao liderar ranking com a maior proporção de companhias trabalhando para alcançar a equidade de gêneros, sendo que no País 96,4% dos respondentes acenaram positivamente quanto ao tema e 93,5% dos chineses.

De fato, hoje em dia é raro ver empresa brasileira deste setor, seja montadora ou fornecedor, que não possua alguma ação em vigor a fim de incluir e promover mais, em busca de um ambiente de trabalho mais igualitário. É crescente o movimento de companhias que estão abrindo espaço para que as mulheres demonstrem sua capacidade produtiva e exerçam as mesmas funções que os homens.

Tanto que outro destaque para as empresas dessa indústria no Brasil é que está no topo da lista na promoção de representantes do sexo feminino a cargos de liderança, movimento que vem ocorrendo segundo 59% dos entrevistados.

Reportagem da Agência AutoData neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, traz exemplos de mulheres que não somente representam a operação na América do Sul como tornaram-se executivas globais das indústrias de suprimentos em que trabalham.

Ana Britto, diretora da divisão de temporários e efetivos da Gi Group Holding, ressaltou ser inegável a importância de mulheres na indústria automotiva e notável leve crescimento da presença feminina. O setor, no entanto, ainda é visto como predominantemente masculino “e é por isto que campanhas de incentivo e de ações para dar mais voz às profissionais são fundamentais para mudar este cenário nos próximos anos”.

Na avaliação de Britto as novas tecnologias e práticas de trabalho no setor podem capacitar um maior número de mulheres para ingressar nas empresas, uma vez que oferecer trabalho remoto e híbrido significa que as mulheres em cargos administrativos, de vendas e marketing, por exemplo, podem obter a flexibilidade necessária para equilibrar trabalho e vida pessoal.

Ela citou, com base na pesquisa – que considera tanto montadoras quanto fornecedoras de autopeças –, ações que já estão sendo postas em prática, como remuneração igualitária e oportunidades para avanço de carreira dentro da companhia, programas de mentoria e redes de apoio na empresa, parceria com instituições educacionais para inspirar jovens mulheres a considerarem uma carreira no setor automotivo e oferta de bolsas de estudos para aumentar a participação feminina em programas educacionais relacionados ao setor.

Iniciativas das quais as executivas entrevistadas pela Agência AutoData, que trabalham na Schaeffler e na Phinia, contaram fazer parte.

A pesquisa da Gi Group foi realizada em parceria com a Politecnico di Milano, a maior universidade de tecnologia da Itália, e a INTWIG Data Management, empresa de inteligência de dados, no Brasil, Estados Unidos, China, Reino Unido, Alemanha, França, Hungria, Itália, Japão, Espanha e Polônia.

Dentre os países que apresentaram menor número de empresas com iniciativas do tipo estão Japão, apontaram 80,1% dos entrevistados, e Polônia, 78,6%. A Itália destaca-se por ser o mais focado em garantir a igualdade de remuneração e oportunidades de progressão na carreira, de acordo com 66% dos respondentes. No Brasil 57% apontaram a existência de ações com esse fim. A Hungria, de acordo com 72%, prioriza a oferta de treinamento para combater preconceitos, mesmo aqueles inconscientes.

Quais medidas as empresas do setor no Brasil vêm tomando para reduzir diferenças de gênero?

Apesar dos avanços globais indústria ainda é pouco atrativa às mulheres

Metade dos respondentes em âmbito global alegou que as empresas em que trabalham possuem ações para garantir igualdade de remuneração e oportunidades para as mulheres, e 40,8% afirmaram que é oferecido a elas trabalho flexível, licença-maternidade e auxílio alimentício.

As companhias têm lançado mão de ações para promover lideranças femininas, de acordo com 41,1% dos participantes da pesquisa, ao passo que 38,4% informaram que a fraca visibilidade dada a essas lideranças no setor as afasta desse mercado de trabalho.

Para cerca de um terço dos respondentes fatores como o equilíbrio do trabalho com a vida pessoal e a desigualdade na evolução de carreira acabam afugentando mulheres desta indústria. Porcentuais semelhantes também apontaram que estereótipos da maior presença masculina também as desencorajam, assim como a fraca percepção da representação de gênero nas empresas.

Especificamente no Brasil o setor é pouco atrativo, principalmente por três fatores: baixa visibilidade das líderes femininas, falta de equilíbrio do trabalho com a vida pessoal e desigualdade na evolução da carreira.

Na análise da diretora da divisão de temporários e efetivos da Gi Group Holding, Ana Britto, diante destes fatos os principais desafios estão em dar mais espaço às poucas lideranças femininas nesta indústria para que elas incentivem mais mulheres a buscarem uma carreira na área.

Além disso citou a importância de trabalho do RH para oferecer um ambiente de trabalho digno, levando em conta cargo de trabalho, programas de bem-estar e de treinamento e desenvolvimento independentemente do gênero e a compreensão de que a mulher, hoje, ainda tem a dupla jornada.

“Pesquisas apontam que a mulher é a principal responsável pelos cuidados com o lar e a família, e isso precisa entrar na discussão de RH e liderança e, claro, da sociedade, para que possa haver uma mudança de cultura sobre divisão das tarefas em casa.”

Fatores que desencorajam mulheres a ingressarem no setor

Para que as mulheres possam avançar na carreira e chegar a cargos de liderança, entende Britto, é necessário haver trabalho conjunto a fim de proporcionar condições igualitárias para que elas possam se dedicar à jornada profissional: “Falando em ações práticas é possível fazer campanhas de recrutamento e seleção dedicadas ao público feminino no setor, dar mais acesso a programas de treinamento e desenvolvimento e equiparação salarial, independentemente do cargo”. Iniciativas que diversas montadoras e sistemistas vêm adotando no País.

Atrair mais profissionais femininas também poderá trazer maior competividade às companhias que mais investirem nessa mão de obra, avaliou a especialista, uma vez que elas podem ajudar as montadoras a atenderem melhor necessidades e preferências desse importante segmento do mercado consumidor: “Sem mulheres não há futuro para o setor automotivo”.