São Paulo – A média salarial do setor automotivo no Brasil em 2023, considerando as áreas operacionais e administrativas, foi de € 1 mil ou R$ 5 mil 430. A cifra, entretanto, está 60% aquém do que é pago a profissionais que desempenham funções semelhantes na China: € 2,5 mil ou R$ 13 mil 575. O mesmo vale para países tradicionais no ramo automobilístico, como Alemanha, França, Itália e Japão, que costumam gratificar melhor o trabalho de seus profissionais.
Esse patamar de € 1 mil é o mesmo pago em países como Polônia, que se destaca como um dos maiores fabricantes de carros de passeio do Leste Europeu, e Hungria, que abrigará, assim como o Brasil, uma fábrica da BYD para a produção de veículos elétricos. Nenhum dos dois, porém, têm o volume de veículos feitos aqui, o oitavo fabricante global, nem o sexto maior mercado de 0 KM do mundo.
A média salarial do setor automotivo no Brasil equivale à metade do remunerado na Espanha, de € 2 mil ou R$ 10 mil 860, e corresponde a um quarto daquele pago em países como Reino Unido e Estados Unidos, em que ultrapassa € 4 mil ou R$ 21 mil 720.
Os dados foram levantados a partir de pesquisa realizada pela Gi Group Holding, empresa de recursos humanos especializada em recrutamento e seleção de origem italiana, com 6,5 mil profissionais de onze países, além do Brasil, China, Estados Unidos, Polônia, Hungria, Espanha, Itália, Alemanha, França, Japão e Reino Unido.
O estudo com o título Tendências de RH – Setor Automotivo foi conduzido em parceria com a maior universidade de tecnologia da Itália, a Politecnico di Milano, e a empresa de inteligência de dados INTWIG Data Management. Esse recorte do levantamento – que incluiu dados sobre a presença da mulher no setor automotivo e os desafios em busca da equidade de gênero publicados no dia 8 de março – foi compartilhado com exclusividade com a Agência AutoData.
O que mais chama atenção nas informações apresentadas é o fato de que o trabalhador na China recebe, em média, 2,5 vezes o valor do contracheque do empregado brasileiro que desempenha a mesma função.
Na avaliação de Renato Soares, diretor responsável pela unidade de negócios de treinamento e de desenvolvimento e integrante do comitê do Gi Group Holding, se por um lado, quando se analisa o salário médio do setor automotivo no Brasil, nota-se que ele supera diversas outras atividades, ao remunerar quase quatro vezes o salário mínimo, atualmente R$ 1 mil 412. Por outro lado é preciso entender o que pode deixá-lo desvalorizado frente ao de outro países, como a China.
“Quando falamos de € 1 mil para o empregador isso representa, em seu bolso, € 1,7 mil ou € 2 mil por causa dos encargos trabalhistas. Não à toa existe discussão ativa em torno da desoneração da folha de pagamento porque é inegável que há aspectos que acabam influenciando na forma como as empresas desenham seus planos de remuneração.”
Ou seja: o custo Brasil acaba impactando também nessa análise comparativa. E, como é sabido, os direitos trabalhistas na China estão muito aquém dos assegurados no Brasil, o que contribui com esta diferença: “Não sei dizer exatamente como isto funciona em outros países. Os europeus costumam ser mais fortes no quesito de direitos trabalhistas, mas na China sabemos que isso é mais fraco”.

Os valores apurados pela pesquisa equivalem à gratificação de um ano e são líquidos, ou seja, não consideram a incidência da carga tributária de cada uma das localidades. Desta forma é possível estimar o que contribui para que o vencimento do profissional brasileiro seja menor quando comparado a outros países.
Djansen Alexandre Dias, responsável pela vertical de negócios do Gi Group que inclui montadoras e fornecedores, lembrou que o quesito produtividade e o quanto de mão de obra é necessária para se fabricar em cada país também pode interferir na cifra que consta no holerite.
“Na Europa há mais tecnologia de automação e, portanto, é requerido volume menor de mão de obra, só que a força de trabalho demandada é mais capacitada. Então por vezes, para uma mesma vaga, a especialização para fábrica que está mais automatizada precisa ser superior ao que é exigido no Brasil, e isto reflete no valor do salário também.”
Dados da pesquisa mostram que a remuneração anual de um diretor de fábrica no Brasil parte de € 44,8 mil e na China o piso para a mesma função é de € 78 mil – quase o dobro. Um programador CNC aqui recebe a partir de € 5,6 mil e, em uma automotiva chinesa, € 15,6 mil – praticamente três vezes mais.
Em outro comparativo o cargo de gerente de manutenção mostra diferença bem mais sutil nos valores iniciais, de € 44,8 mil no Brasil e € 45,5 mil na China. No entanto a distância dos vencimentos máximos para o posto, ou seja, para os sêniores, é flagrante: no mercado brasileiro chega a € 77,1 mil e no chinês vai a € 91 mil.

Digitalização e pandemia mudaram o cenário para o trabalhador brasileiro
Na avaliação de Dias o Brasil é dotado de virtude que durante muito tempo o beneficiou, mas que agora se torna desafio devido à crescente digitalização dos processos na indústria automobilística:
“Com a remuneração de salários mais baixos no País tínhamos vantagem competitiva quando as empresas decidiam investir por aqui, pois elas conseguiam atender suas demandas com investimento um pouco menor e com mão de obra qualificada”.
Só que a pandemia trouxe cenário novo com a propagação do trabalho remoto, uma vez que não há disponibilidade de trabalhadores capacitados num volume muito maior do que a oferta de vagas. Então isto fez com que profissionais fossem atraídos por empresas estrangeiras sem que precisassem se mudar para as matrizes. A consequência foi a redução de funcionários qualificados no mercado, o que prejudicou o atendimento a demandas nacionais.
Outro ponto mencionado por Soares é que mesmo quando se olha para o setor dentro do País os profissionais capacitados são disputados, o que também pode criar pontos fora da curva quanto à remuneração ou eles podem ser atraídos para outros ramos de atividade.
Quanto ao treinamento dificilmente o Brasil conseguirá competir com países mais desenvolvidos e industrializados, sentenciou Dias: “Então o projeto de atração de pessoas acaba sendo mais abrangente do que somente o salário, senão não se consegue chamar a atenção nem reter os talentos”.

Haverá mudança no salário com a transição para a eletrificação?
Sobre as perspectivas acerca da diferença salarial daqui a cinco anos, frente à transição para a eletrificação, o diretor responsável pela unidade de negócios de treinamento e desenvolvimento do Gi Group assinalou que dependerá de como os países se prepararão para elas.
“Por exemplo: nós não temos carro autônomo por aqui ainda. É preciso melhorar a tecnologia e a comunicação de dados antes de dar um passo à frente. Trata-se de algo mais estrutural.”
Se o País não estiver atento a isto, para que as companhias tenham custos competitivos, “pode ser que a decisão de algumas empresas seja até a de fechar operação no País e concentrar atividades em outras localidades”.
Mais otimista o responsável pela vertical de negócios do Gi Group afirmou esperar que sejam estabelecidos maiores níveis salariais até 2027:
“Não sei se a diferença com outros países mais industrializados e desenvolvidos será reduzida, porque acredito que a média destes outros locais também deverá aumentar dada a transformação que está acontecendo, que envolve número menor de pessoas empregadas frente à automatização dos processos. Mas as vagas que se mantêm são muito mais especializadas do que eram antes e, portanto, as pessoas deverão estudar mais e pleitear salários maiores”.
Dias citou a fábrica da BYD em Camaçari, BA, no mesmo espaço em que até 2021 estava a Ford, cujas obras de construção já começaram e a previsão de início da produção é aguardada para o quarto trimestre: “Eles já chegaram mexendo muito com o mercado e oferecerão muita inovação. Acredito que contarão com mão de obra, principalmente, do Brasil. Não trarão todo o efetivo da China, até porque não faz sentido.”

Isto deverá gerar maior demanda por funcionários qualificados, sendo que o mercado não tem capacidade de formar pessoas na mesma velocidade. A consequência disto, inferiu, será o pagamento de salários acima da média.
Outro exemplo está no híbrido flex, que requer conhecimento específico do Brasil, assim como ocorrerá com países como Índia e Rússia – diferentemente de locais que saltaram direto para o veículo 100% elétrico –, o que não dá para importar e terá de ser desenvolvido localmente, “mais uma necessidade de mão de obra especializada e um indicativo de que os salários médios poderão ser melhores daqui a algum tempo”.
As montadoras estão formatando programas de desenvolvimento para treinar seus profissionais e prepará-los para os desafios da eletrificação e da automação dos veículos e do processo produtivo. Assim como para organizar a rede concessionária e o reparo de veículos.
O Gi Group contribui com esta transição ao formar parcerias com instituições de ensino técnico a fim de elevar a quantidade de mão de obra qualificada disponível e minimizar a rotatividade. A holding cuja matriz fica em Milão mantém filial baseada em São Paulo com vinte escritórios pelo país e emprega cerca de 650 profissionais diretos no Brasil.