São Paulo – Muitos reagiram com estranheza quando, em janeiro, a Stellantis divulgou ter adquirido 70% do controle da Comercial Automotiva, empresa dona da DPaschoal, um dos maiores e mais tradicionais prestadores de serviços automotivos do Brasil. Por que razão uma montadora, aqui no Brasil e com maior volume de vendas e quantidade de marcas sob seu guarda-chuva, avançaria sobre este pulverizado segmento, majoritariamente formado por pequenas oficinas?

Afora os argumentos de seu CEO Emanuele Cappellano, de que o movimento está em linha com o planejamento Dare Forward 2030 da Stellantis que busca alcançar o primeiro lugar na satisfação dos clientes pelo atendimento das necessidades de mobilidade e serviços, o dinheiro que circula na reposição automotiva ajuda a explicar o interesse na DPaschoal: no ano passado o setor movimentou R$ 61 bilhões, dos quais 20% em peças originais e 80% em fabricantes independentes na reposição e pós-vendas.

Ou seja: as montadoras controlam apenas 20% do total, com as pessoas que, atraídas pela manutenção da garantia de fábrica do veículo, cumprem o cronograma de revisão obrigatória. Passado este período existe um mar de opções para o cliente levar seu carro para a manutenção.

Rede DPaschoal conta com mais de 120 lojas espalhadas pelo Brasil. Foto: Divulgação.

“Quem frequenta as lojas DPaschoal são os segundos ou terceiros donos do veículo”, disse Paulo Solti, vice-presidente de peças e serviços da Stellantis e novo presidente da Comercial Automotiva, sucedendo a Luís Norberto Pascoal, que manteve um assento no conselho. “A média de idade dos veículos atendidos é de seis anos. Eles já passaram pelas concessionárias para as manutenções de garantia e agora buscam outras opções. A DPaschoal, portanto, complementa a nossa atuação e não concorre diretamente com nossos concessionários.”

Grupos concessionários, por sinal, são parceiros das montadoras neste avanço. Segundo Luís Felipe Teixeira, diretor comercial de pós-vendas da General Motors, muitos donos de pontos de vendas Chevrolet estão abrindo unidades do Centro Automotivo ACDelco, o ponto de ofensiva da companhia no segmento de serviços automotivos.

Objetivo da GM é alcançar cem Centros Automotivos ACDelco até 2025. Foto: Divulgação.

A GM usou a força da sua marca ACDelco para avançar na área. Desde o ano passado abriu cerca de trinta Centro Automotivos ACDelco pelo País, número que pretende dobrar até o fim do ano. Teixeira disse que até 2025 a ideia é ter cem unidades espalhadas pelo Brasil.

“Nosso objetivo é abrir Centros Automotivos ACDelco por todo o País. Atualmente a rede já conta com unidades nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Rondônia, Santa Catarina, Mato Grosso, Paraíba e Pernambuco.”

Segundo Teixeira os centros ACDelco buscam oferecer “um serviço de qualidade, que se diferencia por uso de peças genuínas e originais, mão-de-obra especializada e equipamentos de diagnóstico computadorizado de última geração, com uma boa relação de custo-benefício, para os consumidores que não frequentam mais as concessionárias e que precisam fazer a manutenção de seus veículos de todas as marcas contando com nosso portfólio”.

O uso das peças genuínas multimarcas é outro fator importante na estratégia da GM e da Stellantis, duas empresas que mantêm na reposição componentes para seus veículos e de seus concorrentes. A GM com a própria ACDelco e a Stellantis com a Bproauto, lançada no ano passado, além da Sustainera, de peças remanufaturadas.

Junto com a DPaschoal a Stellantis agregou em seu portfólio as marcas DPK, KDP, AutoZ, Maxxi Trainning, Kmaxx, Recmaxx, Autocred e Maxxipel. Sua rede é formada por mais de 120 lojas em catorze estados. Vale lembrar que a companhia já operava no segmento, no Brasil, por meio da Eurorepar, que era controlada pela PSA.

O vice-presidente Solti, à época da compra da Comercial Automotiva, afirmou que a tendência era uma junção das duas redes sob a marca DPaschoal, mas que ainda nada estava definido. Ele disse à reportagem que tudo ainda era prematuro e que teria alguns meses para definir o plano de ação e os próximos passos da divisão.

Já a ACDelco, segundo Teixeira, busca o crescimento orgânico, ainda sem planos de aquisição de algum grupo ou empresa do pulverizado segmento. A certeza, entretanto, é que o movimento é sem volta: “O segmento de reparação automotiva está aquecido, impulsionado pelo comércio de carros usados e por alguns consumidores que têm optado por investir na manutenção do veículo atual para mantê-lo por mais tempo”.