São Paulo – As seguidas altas na taxa Selic, atualmente em 12,75% ao ano, que puxam os juros para aquisição de veículos, começam a dar os primeiros sinais de influência no mercado brasileiro. Embora no caso dos 0KM, em que a taxa já chegou a média de 26,5% ao ano segundo dados recentes do Banco Central, ainda não seja o fator principal, já que o descompasso na cadeia que prejudica o ritmo de produção, o impacto exista, ele é maior no mercado de usados e seminovos.

Segundo Enilson Sales, presidente da Fenauto, os financiamentos representam cerca de 70% das vendas no segmento de usados e a taxa de juros ganhou papel relevante em 2022.”Esse aumento tem impactado significativamente as operações. Hoje a taxa de juros em alta, inflação subindo e preços ainda não estabilizados são os principais fatores para que as vendas estejam em queda”.

Até maio o mercado de usados recuou 19%, após crescer 18% no ano passado, quando mais de 15 milhões de veículos foram negociados pegando carona com a crise nos 0KM, cuja produção foi prejudicada pela falta de semicondutores e componentes.

A inflação também não colabora: até abril o IPCA acumula alta de 4,3%. Nos últimos doze meses, 12,1% de aumento. Assim, o consumidor já cauteloso com o aumento dos juros, segura a decisão de compra porque sua renda está sendo corroída.

Nicola Tingas, consultor econômico da Acrefi, Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento, considerou a aceleração da inflação e sua resiliência no Brasil e no mundo, que tira de forma significativa o poder de compra da população, como a principal razão para a retração do mercado de veículos e de outros segmentos: “Os juros praticados estão subindo por causa da inflação e são mais um custo adicional, mas acho que seu papel é secundário no recuo da demanda, com a inflação sendo o maior inibidor para tomada de crédito”.

Não é a questão principal – No mercado de veículos novos, apesar de já chamar a atenção, juros e inflação são vistos como questões secundárias. Para Anfavea são fatores que também afetam o desempenho da indústria de veículos novos, problema que é visto em todo o mundo, de acordo com seu presidente, Márcio de Lima Leite, que avalia o cenário como um dos grandes desafios do Brasil:

“Vemos que tudo isso tem impacto, mas ainda não é tão evidente pelo desafio maior ser a capacidade de produção para atender a demanda atual. É um ponto de atenção que estamos monitorando, principalmente quando falamos de crédito”.

Segundo Leite a entidade está analisando o dia a dia do mercado para entender o perfil do consumidor e os segmentos mais impactados, porque considera a compra de um automóvel em trinta ou quarenta meses, com taxa de juros próxima a 30% ao ano, muito pesada, junto com o preço dos veículos que subiram por causa da inflação e do custo maior de produção.

O presidente da Anef, Paulo Henrique Lage Noman, também avalia a alta nos juros para financiamentos como um fator secundário, ainda que tenha seus impactos. Para Noman a queda nas vendas de veículos 0 KM em 2022 foi puxada, ainda, pela falta de produtos disponíveis e também pela subida da taxa Selic, com expectativa de recuo apenas em 2023, assim como a taxa de juros praticada para compra de veículos a prazo.

Perspectivas – Com a taxa Selic em trajetória ascendente as projeções não são das melhores. E o mercado espera uma nova alta, para 13,25%, ainda em junho, de acordo com Tingas, da Acrefi, que também considerou uma segunda alta em agosto, por causa da resiliência da inflação.

Com relação à venda de veículos no segundo semestre a expectativa da Fenauto é de que o mercado de usados ainda registre queda nos próximos dois meses, para depois iniciar sua recuperação até o final do ano, que talvez não seja suficiente para gerar crescimento. Mas, se empatar com 2021, o resultado será considerado como positivo.

No caso da Anfavea, ainda que monitore de perto a queda das vendas dos veículos novos e todos os fatores que impactam o mercado, a taxa de juros atual não preocupa a ponto de pensar em revisar seus planos para o ano. Dessa forma a entidade mantém a projeção de vendas de 2,3 milhões de veículos, alta de 8,5% sobre 2021, apostando na recuperação dos emplacamentos até dezembro.