São Paulo – O compartilhamento de técnicas que permitam melhoria nos processos produtivos é algo intrínseco à cultura da Toyota. Desta vez a companhia divide seu conhecimento para multiplicar a fabricação de cadeiras de rodas pela AACD, Associação de Assistência à Criança Deficiente. Ao aplicar a metodologia TPS, Sistema Toyota de Produção, que acompanha a montadora desde os primórdios, o plano é expandir em 25% a quantidade de equipamentos, dos atuais oitenta para cem por mês. Pelo menos.

Otacílio do Nascimento, gerente de ESG e comunicação da Toyota, contou a Agência AutoData que a ideia surgiu quando foi conhecer a oficina ortopédica da AACD, parceira da montadora há dois anos, período pelo qual vem apoiando projetos sociais de reabilitação.

“O processo de fabricação pareceu um pouco confuso, sem padrão. Vi a oportunidade de aplicar nele a experiência da Toyota. Então profissionais da equipe do TPS foram até lá e identificaram a possibilidade de melhorar o fluxo de cadeiras de rodas e próteses de pernas e braços. Anunciamos a parceria em agosto.”

De lá para cá já foram realizados dois treinamentos práticos com sessenta pessoas, divididas em dois grupos, que se deslocaram da unidade da AACD no Ibirapuera, em São Paulo, até a fábrica da Toyota em Sorocaba, no Interior. Encontros online também vêm sendo promovidos.

Nascimento contou que esta etapa inicial é composta por questionamentos e provocações. Isto porque, muitas vezes, o funcionário está acostumado com uma forma de trabalhar, há anos, mas que pode ser ajustada. Em outras é identificado que ele possui mais aptidão para determinado processo do que para outro.

Funcionários da AACD em visita à fábrica da Toyota em Sorocaba, SP, para conhecer, na prática o TPS na linha de produção. Foto: Divulgação.

Ou seja, a iniciativa vai além de melhorar e padronizar processos pois inclui a gestão de pessoas. Envolve, ainda, soluções simples, como a instalação de um nicho para que o profissional não tenha de se abaixar e levantar toda vez que precisar utilizar determinada ferramenta.

“Se melhoramos a experiência dos funcionários também elevamos a produtividade e conseguimos atender a mais pessoas que precisam das próteses e das cadeiras de rodas. Temos escutado os profissionais a fim de entender dificuldades e como eles vislumbram a possibilidade de aperfeiçoar suas atividades.”

Objetivo: usar resíduos de tecidos e espumas dos carros nas cadeiras de rodas.

O objetivo final, que deve ser alcançado até o início do ano que vem, é reduzir desperdícios de tempo, processos e materiais, observou Nascimento. Para ele uma das possibilidades cogitadas para diminuir a perda de insumos é o uso de resíduos de tecidos e espumas dos veículos para produzir o encosto da cadeira de rodas da AACD.

“Existe espaço para testar e, ao mesmo tempo, diminuir o descarte de resíduos da nossa própria operação. Trata-se de um trabalho de formiguinha para fazer um grande diagnóstico. É preciso questionar de onde vêm as matérias-primas, como podem ser descartadas e se conseguimos obter processo de economia circular.”

A montadora já realiza trabalho de reuso de descartes de tecidos automotivos, uniformes de empregados, airbags e cintos de segurança doados para ONGs de costureiras para a confecção de mochilas, bolsas e roupas de pets por meio do Projeto ReTornar, da Fundação Toyota, da qual Otacílio do Nascimento é diretor.

Segundo Otacílio do Nascimento existe a possibilidade de prolongar parceria com a AACD. Foto: Divulgação.

“A Toyota está trabalhando para ser uma empresa referência em soluções de mobilidade, as quais não estão centradas apenas no carro. Isso se aplica, por exemplo, a uma empresa de locação, como a Kinto, e ao uso de resíduos de alumínio do processo de produção de motores para confeccionar próteses ortopédicas a quem teve os pés amputados, o que fizemos há dois anos com a Revo.”

O gerente de ESG reforçou que havia o propósito de buscar proposta de TPS social em que pudesse haver contribuição à sociedade e, ao mesmo tempo, fomentar a mobilidade. E, neste caso, isso será alcançado, pois as entregas da AACD ocorrem tanto a pacientes particulares como por meio do SUS.

“Estamos olhando também para a possibilidade de ampliar os tipos de produtos feitos na oficina ortopédica da AACD. E, de repente, tornar viável uma segunda e até uma terceira onda para dar continuidade a esta parceria.”

Metodologia TPS é aplicada em segmentos como saúde, aviação e mineração

A primeira experiência de aplicação do TPS com viés no social foi no Hospital Santa Cruz, em São Paulo, cujo maior problema era o tempo na sala de espera, lembrou Nascimento:

“Olhamos para o layout do espaço, para onde os pacientes iam, qual o deslocamento tinham dentro do hospital e conseguimos melhorar a eficiência do atendimento em 40%. Significa que se demorava 90 minutos para serem atendidos este tempo caiu para 50 minutos, e mais pessoas puderam ter o serviço em menos tempo”.

O executivo rememorou também que durante a pandemia a Toyota e outras empresas se juntaram para melhorar o processo de manutenção de respiradores realizado por uma empresa que não estava dando conta da demanda e, assim, dar celeridade ao serviço.

Desde 2015 a metodologia TPS vem sendo aplicada em diversos segmentos, além de saúde, aviação e mineração, a fim de promover ganhos de eficiência. Empresas como Vale e Embraer têm buscado consultoria da Toyota, por exemplo. Mas, nestes casos, são cobrados honorários pela montadora.