“Eu tenho a impressão de que nós participamos de uma grande festa com sexo, drogas e rock’n roll e acordamos no dia seguinte nos perguntando ‘O que nós fizemos?’ ” A frase é de Ricardo Ramos, diretor do BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Ele respondia aos pedidos de mais crédito feitos pelos representantes do setor automotivo durante seminário promovido na terça-feira, 13, pela Anfavea, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores. Segundo Ramos o crédito farto via BNDES viciou e trouxe muitos problemas à economia brasileira.
Segundo o presidente Antônio Megale, da Anfavea, o setor sempre se beneficiou da oferta de condições de juros muito subsidiados, “e agora estão repensando essa visão. Há uma nova diretriz no governo federal. Essa nova política foca mais na sustentabilidade. Entretanto, quando a gente fala do setor de caminhões, a participação do BNDES é fundamental. Há uma discussão sobre a existência do futuro sem o BNDES. Nós achamos que, nesse futuro próximo, ainda não. Precisamos do BNDES”.
Ramos argumentou que o BNDES não deve ser a única fonte de financiamento: “Foi ruim para o BNDES e para o setor de caminhões a gente se tornar monopolista. Devemos funcionar como uma fonte alternativa”.
Ele disse que o foco atual do banco está em áreas de “impacto mais abrangente para a sociedade”. Tecnologia e sustentabilidade, por exemplo: “Podemos ser um partícipe importante para o desenvolvimento de novas tecnologias. A questão do meio ambiente é cara para nós”.
Alcides Braga, presidente da Anfir, Associação Nacional dos Fabricantes de Implementos Rodoviários, disse que não é segredo que o setor se acostumou a viver do BNDES: “Trabalho há 37 anos nesse setor, e há 35 a gente sempre teve o BNDES como um dínamo”.
Segundo Braga o banco não pode, “de uma hora para outra”, dizer que não é mais um ator importante: “O setor não está preparado para isso. Existe uma dependência, sim. E isso tem que ser encarado”.
Para Braga o BNDES deve prezar pelo desenvolvimento e não ser apenas um banco:
“É sua função natural e ele tem recursos para isso. O BNDES tem que dar crédito de 100% para quem não tem dinheiro para investir pelo menos nesse período de retomada”.
Braga contou que a Anfir nunca apoiou o “pacote de bondades” historicamente oferecido pelo banco, mas defendeu que essa nova postura pode enforcar ainda mais o setor: “Não é hora de pensar em caminhão verde ou de focar na indústria 4.0. Há uma carnificina no mercado!”.
Braga referia-se aos números mostrados minutos antes por Sérgio Zonta, vice-presidente da Fenabrave. Ele relatou que mais de 2 mil concessionárias fecharam as portas nos últimos anos, sendo duzentos de caminhões. O número de demissões nas revendas, segundo o executivo, passa de 127 mil:
“Nós acreditamos na necessidade de um redesenho profundo da área de canais de financiamento. Se analisarmos objetivamente vivemos totalmente do BNDES por um largo tempo. E isso acabou consolidando um só canal de financiamento. No passado tínhamos leasing, CDC, consórcio, que ao longo do tempo sumiram”.
Carlos Alberto Sisto, vice-presidente da Anef, Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras, reclamou que o BNDES tirou muito o pé do acelerador nos últimos meses: “Estou há três anos no Brasil e não consigo enxergar a vida sem o BNDES. O BNDES diminuiu o valor financiado e a taxa de juros não parece cair. Isto está gerando uma angústia nos nossos clientes em um momento que o mercado já está retraído. A impressão que dá é que tiraram o sexo, as drogas e deixaram só um pouco de rock’n roll”.