São Paulo — Poucas vezes um lançamento representou muito mais do que um novo veículo. Mas é exatamente este o caso do Volare híbrido elétrico a etanol. O micro-ônibus, que começará a ser vendido ainda neste ano, marca apenas a primeira etapa de plano muito mais amplo da Marcopolo para a eletrificação do transporte coletivo brasileiro.
A empresa conclui a fase de homologação do modelo e já trabalha para levar a mesma arquitetura híbrida flex ao Torino, seu principal ônibus urbano, cujo desenvolvimento integra o projeto financiado pela Finep e deverá resultar em uma nova geração de veículos eletrificados a partir de 2027.
Todavia, mais do que ampliar seu portfólio, a empresa aposta em uma solução desenvolvida no Brasil para resolver um dos principais gargalos da eletrificação das frotas: a ausência de infraestrutura de recarga nas garagens.
“O futuro da mobilidade não será de uma única tecnologia. Mas um futuro multienergias”, afirmou Renato Florence, gerente de engenharia de planejamento e desenvolvimento da Marcopolo. “Nosso papel é oferecer ao operador a solução mais adequada para cada realidade operacional.”
Uma plataforma construída no Brasil
A origem do projeto remonta a 2019, antes mesmo da pandemia. Na época a Marcopolo percebeu uma mudança importante no mercado latino-americano. Chile e Colômbia, por exemplo, passaram a adquirir ônibus elétricos completos importados da China, rompendo o modelo tradicional que utilizava chassis e carrocerias produzidos no Brasil.
Sem encontrar no mercado nacional uma plataforma elétrica pronta a empresa decidiu desenvolver sua própria tecnologia. O primeiro resultado foi o Attivi, ônibus elétrico integral apresentado como demonstração da capacidade da engenharia brasileira de produzir veículos eletrificados.
Entretanto, paralelamente, os engenheiros seguiram também outro caminho: iniciaram o desenvolvimento de uma arquitetura híbrida que começou utilizando um gerador a diesel e que migrou para o etanol.
Além disso a Marcopolo já tem um roteiro tecnológico que prevê aplicações futuras com célula de combustível. “O híbrido sempre fez parte do nosso roadmap. O objetivo era evoluir da solução diesel para o etanol e, no futuro, utilizar outras fontes renováveis conforme a tecnologia amadurecer.”
Tecnologia da Marcopolo não funciona como um híbrido convencional

Ao contrário dos automóveis híbridos tradicionais o Volare utiliza uma arquitetura denominada elétrica em série, também conhecida internacionalmente como Range Extender. Em outras palavras, na prática, o veículo é sempre elétrico.
O motor responsável por movimentar as rodas funciona exclusivamente por energia elétrica durante 100% da operação. Já o motor a combustão nunca traciona o veículo. Sua única função consiste em acionar um gerador que produz eletricidade para recarregar as baterias quando necessário.
Todo este gerenciamento funciona automaticamente. Desta forma um software desenvolvido pela engenharia da Marcopolo monitora continuamente o estado de carga da bateria, o perfil da operação, a topografia da rota e a intensidade de uso e o consumo energético. Quando identifica redução do nível de carga aciona o gerador, que passa a produzir mais energia do que o veículo consome naquele momento, restabelecendo a carga da bateria sem interromper a operação.
Na prática o ônibus elimina completamente a necessidade de carregadores plug-in. “O software identifica as condições de utilização do veículo e decide exatamente quando o gerador deve entrar em funcionamento para consumir o mínimo possível de etanol.”
Engenharia nacional e elevado conteúdo local
Grande parte da tecnologia embarcada foi desenvolvida no País. Neste sentido a WEG fornece tanto o motor elétrico de tração quanto o gerador, ambos produzidos em Jaraguá do Sul, SC. Já o motor a etanol utilizado para acionar o gerador é fabricado pela Horse, em São José dos Pinhais, PR.
O elevado índice de nacionalização também permite que o modelo atenda às exigências de conteúdo local necessárias para financiamento via Finame. Este é um fator considerado fundamental para acelerar sua adoção no mercado.
Esse trabalho faz parte de investimento de R$ 115,4 milhões dos quais R$ 80,8 milhões são financiados pela Finep para o desenvolvimento de uma família de veículos híbridos composta por quatro versões de micro-ônibus e um ônibus urbano.
Menos bateria, menor custo e mais autonomia
Enquanto os ônibus elétricos convencionais dependem de grandes bancos de baterias e infraestrutura de carregamento a arquitetura híbrida da Marcopolo busca um equilíbrio diferente. Como o gerador recarrega continuamente as baterias durante a operação o veículo necessita de um conjunto significativamente menor de acumuladores. Na prática isto reduz peso, diminui custos e amplia a autonomia operacional. Além é claro de o preço do híbrido ser consideravelmente menor.
Segundo Florence o Volare foi dimensionado para percorrer aproximadamente 450 quilômetros com um tanque de 200 litros de etanol, podendo ampliar este alcance dependendo das condições de operação graças ao sistema de frenagem regenerativa. Além disso a redução do volume de baterias diminui o custo com um dos componentes mais caros dos veículos elétricos.
“A bateria representa aproximadamente metade do valor de um ônibus elétrico. Quando reduzimos esta necessidade criamos uma vantagem competitiva importante em custo.”
Solução para cidades sem infraestrutura elétrica
A Marcopolo acredita que justamente aí reside o principal diferencial da nova tecnologia. Embora o mercado brasileiro avance na eletrificação das frotas urbanas a expansão da infraestrutura elétrica ainda representa um desafio para operadores de transporte coletivo.

A instalação de carregadores rápidos, subestações e reforços na rede elétrica exige investimentos elevados. E, muitas vezes, depende da capacidade das distribuidoras de energia. Todavia, o híbrido elimina esta dependência. O operador continua abastecendo o veículo com etanol da mesma forma que hoje abastece um ônibus a diesel, mas toda a tração permanece elétrica.
Para regiões produtoras de etanol, como o Interior paulista e o Centro-Oeste, a proposta ganha ainda mais relevância. “O combustível já está disponível. Em muitas operações basta substituir o tanque de diesel por um reservatório de etanol, sem necessidade de investimentos pesados em infraestrutura elétrica.”
O Volare será apenas o começo
Embora o micro-ônibus inaugure esta arquitetura o plano da Marcopolo vai muito além dele. A empresa já desenvolve versão híbrida do Torino, seu principal modelo urbano. O projeto integra o programa financiado pela Finep e deve resultar na chegada da tecnologia aos ônibus urbanos de maior capacidade a partir de 2027.
A plataforma, contudo, não deve parar no Torino. Por sua característica modular a arquitetura equipará diferentes veículos da linha Marcopolo, e a companhia não descarta uma versão híbrida do Attivi.
A Marcopolo também continua desenvolvendo tecnologias baseadas em biometano, bem como na eletrificação por baterias e em aplicações futuras com célula de combustível. “Cada região tem uma realidade energética diferente. Nossa estratégia é oferecer a tecnologia mais adequada para cada operação, e não apostar em uma única solução.”
Uma nova etapa da indústria brasileira
O lançamento comercial do Volare híbrido representa mais do que a chegada de um novo micro-ônibus. Simboliza a tentativa da indústria nacional de reassumir protagonismo em um mercado que, nos últimos anos, passou a ser fortemente disputado por fabricantes asiáticos.
Ao desenvolver uma plataforma híbrida nacional, com fornecedores brasileiros, elevada nacionalização e foco em combustíveis renováveis amplamente disponíveis no País, a Marcopolo busca construir uma alternativa tecnológica alinhada às condições reais de operação do transporte coletivo brasileiro.
Se a ideia se confirmar no Torino e, posteriormente, em outros segmentos, a empresa pode inaugurar uma nova etapa da eletrificação nacional. Que seria menos dependente da infraestrutura elétrica, mais adaptada às características regionais e baseada em uma combinação de diferentes fontes de energia para acelerar a descarbonização do transporte coletivo.






