São Paulo – O furto de cabos e fios de instalações elétricas é um crime recorrente principalmente nas grandes cidades brasileiras e causou prejuízo de R$ 90 milhões em 2025. Mas agora os ladrôes estão mirando novo alvo: os equipamentos de recarga de veículos eletrificados que, uma vez danificados, não provocam somente perdas materiais como causam a indisponibilidade do aparelho aos usuários de carros híbridos plug-in ou 100% elétricos. Consequentemente, podem prejudicar a expansão da eletromobilidade brasileira.
Com o aumento da infraestrutura de recarga nos últimos anos os criminosos passaram a vislumbrar a oportunidade de arrancar os cabos dos eletropostos e vendê-los aos receptores, como galpões ilegais de sucata e reciclagem, interessados no alto valor do cobre.
O prejuízo de cada cabo furtado vai de R$ 5 mil a R$ 7 mil. Segundo Thiago Castilha, sócio diretor da E-Wolf, empresa especializada em soluções de recarga, a proteção do equipamento deve ser considerada já a partir do planejamento do ponto de recarga, o que inclui o monitoramento da operação.
“O problema impõe nova variável na gestão da infraestrutura da mobilidade elétrica”, afirmou. “Se não bastasse o prejuizo financeiro a estação danificada deixa de oferecer o serviço ao motorista e compromete a rentabilidade do operador do ponto de recarga.”
EZVolt desenvolveu solução
Para ele, a infraestrutura de recarga precisa ser tratada como ativo exposto em ambiente público: “É preciso antecipar os riscos e dificultar a ação dos criminosos”.
Depois de sofrer dois ataques de vândalos em hubs na cidade de São Paulo, a EZVolt criou solução para seus equipamentos. Uma porta com fechadura integrada protege a estrutura do aparelho e só é desbloqueada por intermédio do aplicativo antes do início da recarga, como se fosse um crachá digital de identificação.
“Demoramos seis meses para desenvolver a tecnologia que está sendo adotada em todos os nossos pontos de recarga”, disse Gustavo Tannure, CEO da EZVolt. “Nossos hubs se localizam em lugares de alta circulação e funcionam 24 horas. Portanto, precisam de mais segurança”.
Castilha reforçou que os cabos concentram materiais de valor e, em determinadas instalações, ficam vulneráveis em áreas externas, estacionamentos e locais de circulação aberta: “O momento mais crítico é justamente quando a estação não está em uso, geralmente de madrugada. Os criminosos aproveitam e agem com serrotes e alicates”.
Proteger o cabo, porém, é apenas uma parte da solução. A estrutura completa da estação pode ser alvo de furto e vandalismo, enquanto os sistemas digitais associados à recarga também abrem a possibilidade para diferentes tipos de fraude.
“Por isto a segurança dos pontos de recarga deve combinar camadas de proteção, como controle de acesso, monitoramento remoto, telemetria e mecanismos capazes de identificar alterações ou comportamentos suspeitos.”
Não existem, por enquanto, estatísticas oficiais consolidadas sobre os furtos específicos em eletropostos: “Nossa percepção é que as ocorrências estão aumentando. Toda semana aparecem de dez a vinte casos relatados no boca a boca do mercado”.
O que diz a lei
A preocupação cresce na medida em que a rede de recarga brasileira se espalha em estacionamentos, postos de combustíveis, centros comerciais, condomínios, rodovias e áreas públicas: “A descentralização é conveniente para o usuário mas por outro lado cria diferentes níveis de exposição dos equipamentos”.
De acordo com Ayrton Barros, diretor geral da NeoCharge, empresa brasileira de infraestrutura para mobilidade elétrica, o local escolhido para a instalação de carregadores deve ser acessível para carros e pessoas mas é indispensável haver controle rigoroso de entrada.
“Um endereço menos restrito tem de receber sistema de vídeomonitoramento, cabeamento de aço para dificultar os furtos e proteção de grade durante à noite.”
Barros lembrou ainda que, diante de soluções paliativas, já existem no mercado seguros que podem ser contratados pelos donos de eletropostos para evitar o prejuízo: “As perdas são relevantes, porque a reposição do cabo é custosa, além do não faturamento nos dias em que o carregador fica inoperante”.
A reposição do cabo de carregador rápido custa de R$ 8 mil a R$ 10 mil: “No caso de furto dos cabos que pertencem à própria infraestrutura o desfalque é ainda maior, podendo chegar a R$ 30 mil”.
Na esfera legal o crime de subtração de fios, cabos e equipamentos de infraestrutura está previsto na lei 15 181/2025, que o considera ataque direto a serviços públicos essenciais. A lei altera o Código Penal em três frentes principais. Para furto qualificado de cabos a pena é de 2 a 8 anos de prisão. A punição vai de 6 a 12 anos quando o furto compromete serviços essenciais. Já os receptadores estão sujeitos à condenação de até 16 anos de reclusão.























