Hannover, Alemanha — A Mercedes-Benz Trucks chega à IAA Transportation 2026 com uma mensagem clara sobre o futuro do transporte pesado. A eletrificação já deixou de ser projeto experimental, mas a bateria não será a única resposta para a descarbonização.
Assim a fabricante apresenta na feira que abre ao público na terça-feira, 15, o eActros Lowliner, desenvolvido para operações de alto volume, e o NextGenH2 Truck, movido a hidrogênio líquido e célula de combustível. E leva à IAA números que mostram o avanço da tecnologia elétrica em operações reais. O eActros 600 já ultrapassou 160 milhões de quilômetros rodados por clientes na Europa desde o início da produção em série, no fim de 2024.
Mais do que o volume acumulado o perfil das operações chama atenção. Segundo dados de telemetria do TruckLive 50% da quilometragem diária dos eActros 600 supera 400 quilômetros e cerca de 20% ultrapassa 600 quilômetros.
O resultado reforça a tese da Mercedes-Benz de que o caminhão elétrico já consegue atender aplicações de longa distância. Entretanto a expansão em escala continua condicionada à infraestrutura de recarga e à disponibilidade de energia a preços competitivos.
eActros Lowliner amplia território da bateria
O eActros Lowliner representa uma nova frente para a tecnologia elétrica da Mercedes-Benz Trucks. A fabricante desenvolveu o cavalo mecânico 4×2 para operações de longa distância com implementos de grande volume. Especialmente os chamados mega trailers, semirreboques mais longos.
A configuração mantém altura de quinta-roda e vão livre próximos aos de um caminhão convencional. Desta forma o conjunto consegue atender às exigências legais de altura e, ao mesmo tempo, oferecer até 3 metros de altura interna no implemento.
A Mercedes-Benz oferece o modelo com duas ou três baterias LFP de 207 kWh cada. Na configuração eActros 600 Lowliner, com três pacotes, a autonomia chega a aproximadamente 500 quilômetros com carga total.
Já o eActros 400 Lowliner utiliza duas baterias. A redução de peso permite elevar a capacidade de carga útil para cerca de 24 toneladas, contra aproximadamente 21 toneladas do 600 Lowliner.
Além disto o caminhão utiliza a mesma arquitetura elétrica do eActros 600. O eixo elétrico reúne dois motores e uma transmissão de quatro marchas, com potência contínua de 400 kW e máxima de 600 kW.
A arquitetura elétrica de 800 volts também integra o conjunto, assim como o sistema de recuperação de energia. O Predictive Powertrain Control considera topografia, traçado da via e sinalização para antecipar as condições da rota e buscar maior eficiência energética.
Recarga
Na recarga CCS2 o caminhão aceita até 400 kW. Com duas baterias a Mercedes-Benz informa tempo de aproximadamente 46 minutos para passar de 10% a 80% de carga. Com três pacotes o intervalo chega a cerca de 70 minutos.
A fabricante também prepara a chegada do Megawatt Charging System, o MCS. A solução deverá permitir recargas inferiores a 30 minutos e estará disponível para o Lowliner na segunda metade de 2027.
A produção em série começará no segundo trimestre de 2027 na fábrica de Wörth. Mas os pedidos para os mercados da União Europeia e outros países começam neste ano.
Uma viagem de 45 mil quilômetros com eActros que inclui o Brasil
Para colocar a tecnologia elétrica à prova em condições ainda mais extremas o caminhoneiro profissional e criador de conteúdo Tobias Wagner, conhecido como Elektrotrucker, inicia na IAA uma expedição de aproximadamente 45 mil quilômetros com um eActros 600.
A proposta prevê uma viagem por cerca de trinta países e cinco continentes, com no máximo oitenta paradas para recarga. O percurso inclui Europa, Ásia, Austrália e Américas, com passagem prevista pelo Brasil.
A expedição pretende mostrar até onde um caminhão elétrico de longa distância consegue chegar em diferentes condições de infraestrutura. Ao mesmo tempo deve produzir dados sobre recarga, autonomia e operação em regiões nas quais a infraestrutura para veículos pesados elétricos ainda está em desenvolvimento.
Hidrogênio mira mais de 1 mil quilômetros
Se a bateria avança em aplicações nas quais a infraestrutura permite planejamento energético o hidrogênio ocupa outra posição nos planos da Mercedes-Benz. O NextGenH2 Truck representa a evolução do caminhão de célula de combustível da empresa. O modelo utiliza hidrogênio líquido e a célula BZA150 desenvolvida pela cellcentric.
A nova geração incorpora diversos componentes já presentes no eActros 600, como a ProCabin de aerodinâmica aprimorada, a nova geração do eixo elétrico, o Multimedia Cockpit Interactive 2 e a arquitetura eletrônica mais recente para os sistemas de segurança e assistência.
O principal argumento do NextGenH2 é a autonomia. Segundo a Mercedes-Benz o caminhão supera 1 mil quilômetros com um único abastecimento de hidrogênio líquido.
Além disto a fabricante trabalha para transformar o projeto em uma pequena série de aproximadamente cem unidades. O primeiro caminhão deverá entrar em operação com cliente até o fim deste ano.
A Dachser será uma das primeiras empresas a testar a tecnologia em condições reais. A transportadora utilizará inicialmente uma unidade a partir do fim deste ano e receberá outras duas até meados de 2027. Os veículos ficarão baseados no centro logístico de Karlsruhe, na Alemanha, e atuarão principalmente em operações de longa distância.
A Mercedes-Benz também modificou a arquitetura para aproximar o NextGenH2 das necessidades do transporte convencional. A empresa compactou componentes e reduziu o entre-eixos para aumentar a compatibilidade com semirreboques padrão.
Outro avanço aparece no sistema de monitoramento de hidrogênio. Novos sensores identificam eventuais vazamentos e ampliam a segurança da operação, inclusive permitindo que o caminhão mantenha os dois leitos convencionais da cabine para pernoites.
A infraestrutura continua sendo o gargalo
A Mercedes-Benz chega à IAA com uma posição pragmática. A empresa aposta em bateria e hidrogênio mas reconhece que a velocidade da transição não depende apenas da tecnologia embarcada.
Na Europa os caminhões pesados elétricos representaram somente 2% dos emplacamentos em 2025. Para atingir a meta europeia de redução de 43% nas emissões de CO₂ dos veículos comerciais pesados novos até 2030 aproximadamente 35% dos novos caminhões precisariam utilizar bateria ou hidrogênio.
Por isto a Mercedes-Benz acredita no maior alinhamento da regulamentação com a infraestrutura energética e com o custo total de operação.
Na prática eActros 600, Lowliner e NextGenH2 mostram três momentos diferentes do mesmo projeto. O primeiro comprova a operação elétrica em escala crescente. O segundo amplia a bateria para uma aplicação específica de alto volume. Já o terceiro tenta levar a célula de combustível para rotas superiores a 1 mil quilômetros.






















