A proposta do Sindipeças e da CNI de rever os critérios do Ex-tarifário, durante o Seminário de Manufatura Automotiva, promovido pela AEA em São Paulo, merece atenção. Isto porque faz mesmo sentido avaliar com mais rigor quais componentes precisam ser importados e em que condições o benefício deve continuar. Mas a discussão não pode, no meu ponto de vista, terminar aí.
Não podemos nunca esquecer que a indústria automotiva brasileira está diante de um novo e importante degrau de desenvolvimento. A chegada e a expansão das fabricantes chinesas estão trazendo investimentos, novos produtos e tecnologias. E trarão também um padrão de produtividade que exigirá muito das empresas já instaladas no País e, principalmente, de seus fornecedores.
Subir este novo degrau será, na minha opinião, muito difícil. Nacionalizar componentes não significa apenas substituir uma peça importada por outra fabricada aqui. Significa desenvolver capacidade de engenharia, dominar processos, alcançar escala, atender a exigências de qualidade e produzir com custos competitivos. Em muitos casos será preciso preparar fornecedores para tecnologias que ainda estão chegando às linhas de produção brasileiras.
É por isso que considero pertinente esta preocupação com o Ex-tarifário, pois benefício criado para atender à falta de produção local não deveria mesmo se transformar em uma solução permanente quando houver condições reais de desenvolver esta produção internamente. Principalmente nos novos tempos que passaremos a enfrentar.
Mas precisamos estar, ao mesmo tempo, atentos para o fato de que restringir importações, por si só, também não criará fornecedores capazes de competir. A revisão do regime precisa, portanto, fazer parte de projeto mais amplo, com prioridades claras, investimentos, formação de pessoas e cooperação de montadoras, fabricantes de autopeças, centros de pesquisa e governo.
Há, porém, uma questão que também me preocupa muito: a continuidade destes passos depois das eleições. O passado recente mostra que a própria estrutura do governo dedicada ao tema pode mudar. Em 2019, por exemplo, o ministério responsável pela indústria e pelo comércio foi extinto, e suas atribuições passaram ao Ministério da Economia. O desenvolvimento da indústria ficou, a meu ver, em segundo plano por um longo tempo e o Ministério de Indústria só voltou a existir em 2023.
Não se trata de discutir aqui as razões daquela decisão, nem de discutir política, mas de lembrar que o desenvolvimento industrial exige atenção contínua. E até a definição do próximo presidente, prevista para o fim de outubro caso haja segundo turno, dificilmente teremos clareza sobre os rumos futuros da política industrial. Mesmo decisões tomadas agora poderão ser revistas pelo próximo governo.
É nesse contexto, inclusive, que o Congresso AutoData Perspectivas 2027, marcado para 16 e 17 de novembro, em São Paulo, ganha uma importância especial. Será o primeiro encontro oficial da indústria automotiva após a definição do próximo presidente da República. Tenho a certeza de que teremos dois dias particularmente intensos de debates, tendo a oportunidade de ouvir líderes empresariais e especialistas, confrontar expectativas e começar a entender o que o novo ciclo político e econômico que vai se iniciar poderá representar para o setor.
O Brasil tem, novamente na minha modesta opinião, uma oportunidade rara de ampliar sua participação em uma nova fase da indústria automotiva mundial. Mas a presença de novas fábricas e modelos não garantirá, por si só, um salto de desenvolvimento. O que estará em jogo é quanto da tecnologia, da engenharia e da produção de maior valor conseguiremos construir por aqui.
Concordo, portanto, que devemos olhar com atenção para o tal Ex-tarifário. Mas, sobretudo, precisamos cobrar do próximo governo, seja lá qual for, que traga em seu trabalho interesse efetivo no desenvolvimento da indústria brasileira e capacidade de coordenar os instrumentos necessários para que ela alcance esse novo degrau que temos pela frente para enfrentar.























