São Paulo — A Unidas Pesados começou a negociar a incorporação de caminhões híbridos de uma fabricante chinesa à sua frota. A empresa avalia um lote inicial de dez unidades destinadas a operações de mineração, segmento em que o ambiente controlado e os trajetos definidos favorecem a introdução de novas tecnologias.
A montadora ainda não teve o nome revelado, mas a solução em avaliação combina um motor a diesel com um sistema elétrico de recuperação de energia que promete reduzir o consumo de combustível. A informação foi antecipada por Lucas Barbosa, diretor executivo da Unidas Pesados. De acordo com ele a empresa ainda não comprou os veículos e mantém as negociações em andamento:
“É um produto chinês, diesel-híbrido. Ele tem um ganho significativo. Na mineração está mostrando economia de 28% a 32%”.
O modelo de negócio sinaliza uma nova frente para a locação de veículos comerciais e equipamentos pesados no Brasil. Além de oferecer uma alternativa ao investimento direto em ativos, permite que transportadores e empresas de outros setores experimentem tecnologias antes de decidir pela compra ou pela ampliação de suas frotas.
Mineração abre caminho para os híbridos
A escolha das operações de mineração não ocorre por acaso. Diferentemente do transporte rodoviário de longa distância, no qual os caminhões percorrem rotas variáveis e dependem de uma rede ampla de atendimento e abastecimento, as operações fora de estrada costumam seguir trajetos definidos dentro de minas e grandes propriedades.
Este ambiente facilita o acompanhamento do desempenho dos veículos assim como a avaliação dos custos operacionais e a comparação com modelos convencionais. Além disto a previsibilidade dos ciclos de trabalho permite planejar a manutenção e a disponibilidade dos equipamentos.
“O fora-de-estrada acaba se tornando um laboratório porque você tem uma operação controlada. Muitas vezes as fazendas são tão grandes que os caminhões não saem do perímetro da propriedade.”
A característica também favorece o desenvolvimento de soluções relacionadas à eletrificação e a combustíveis alternativos. Em operações com percursos previsíveis, as empresas conseguem dimensionar melhor a infraestrutura necessária e avaliar se os ganhos operacionais compensam o investimento adicional.
No caso dos híbridos em negociação a economia estimada de até 32% no consumo de combustível pode representar um diferencial relevante. O diesel responde por uma parcela expressiva dos custos variáveis do transporte, de modo que uma redução no consumo tende a melhorar o resultado operacional, especialmente em atividades com elevada utilização dos veículos.
Juros altos favorecem a locação
A avaliação dos híbridos, tecnologia ainda inédita em caminhões pesados no País, ocorre em um momento no qual o custo de aquisição dos veículos e as condições de financiamento pressionam as decisões de investimento das empresas de transporte. Para Barbosa este cenário amplia a atratividade da locação porque permite ao transportador preservar capital e direcionar recursos para outras necessidades do negócio.
“A locação é favorável em qualquer cenário. Mas a gente fala que ela é um pouco anticíclica, pois cresce em momentos de adversidade.”
Segundo o executivo a Unidas Pesados mantém quase 15 mil ativos em seu balanço, sendo uma frota de aproximadamente 6 mil caminhões. Para o transportador a locação reduz a necessidade de imobilizar recursos na aquisição dos veículos e pode liberar capacidade financeira para investimentos em centros de distribuição, expansão operacional e outros projetos.
Além disto o modelo permite distribuir os custos da operação ao longo do contrato. Dependendo da modalidade negociada o cliente também pode contratar manutenção e outros serviços, reduzindo a necessidade de estruturar equipes próprias para cuidar da frota.
Esta característica ganha importância quando a empresa avalia tecnologias ainda pouco difundidas no mercado. Em vez de comprar um lote de caminhões com valor residual incerto o cliente pode testar a solução por meio de um contrato e avaliar seu desempenho antes de assumir um compromisso de longo prazo.
“Uma outra grande vantagem da locação é poder experimentar o ativo e, ao final do ciclo, decidir se vou ficar com ele, repetir o mesmo modelo ou experimentar outra coisa.”
Caminhões a gás ganham espaço na demanda
A procura por tecnologias alternativas também aparece nos projetos relacionados ao gás. De acordo com Barbosa em 2026 a Unidas recebeu uma demanda expressiva por caminhões a gás para operações fora de estrada. Ele disse que metade das consultas por locação de caminhões para este segmento envolveu veículos a gás e a outra metade contemplou modelos a diesel.
O movimento contrasta com o histórico da empresa, que não havia registrado anteriormente uma divisão semelhante nas solicitações. Embora a procura não represente necessariamente contratos fechados ou veículos incorporados à frota, ela indica uma mudança nas consultas dos clientes.
Atualmente cerca de 98% dos caminhões da Unidas Pesados utilizam diesel. A empresa ainda avalia como ampliar a presença de tecnologias alternativas sem comprometer a disponibilidade dos veículos, a manutenção e o valor de revenda.
No caso dos caminhões a gás Barbosa estima que os veículos custem aproximadamente 10% mais do que os equivalentes a diesel. O consumo, segundo ele, é semelhante e o custo de manutenção pode ficar cerca de 10% acima.
“Se você olhar assim, sem uma vantagem diferente, a conta não torna o negócio viável, a não ser que tenha realmente uma obrigação de ESG.”
Porém a equação muda quando o próprio cliente produz biogás ou biometano. Usinas sucroenergéticas e outras empresas com geração própria desses combustíveis podem aproveitar um recurso que antes tinha menor valor econômico e reduzir a exposição às oscilações do preço do diesel.
Neste cenário a locação pode facilitar a introdução dos caminhões a gás, especialmente quando o cliente precisa cumprir metas ambientais, mas não quer assumir sozinho os riscos financeiros e tecnológicos da aquisição.
Infraestrutura faz parte da solução
A introdução de novas tecnologias exige mais do que ofertar um caminhão ou uma máquina. Em veículos elétricos, por exemplo, a potência e a capacidade do carregador precisam ser compatíveis com as especificações do equipamento e com o tempo disponível para recarga.
Por isto a Unidas também trabalha com soluções que incluem a infraestrutura necessária à operação. Segundo Barbosa a empresa já aluga máquinas elétricas e pode fornecer os sistemas de carregamento correspondentes: “Você tem que vender uma solução, um ecossistema. Não adianta só colocar o equipamento para o cliente”.
A lógica se aplica igualmente à manutenção. A Unidas Pesados conta com mais de duzentos mecânicos e oferece diferentes formatos de atendimento. Ou seja: desde equipes próprias até contratos com fabricantes e suas redes de concessionárias. Nas operações fora-de-estrada a locadora pode instalar estruturas de manutenção dentro das próprias instalações dos clientes.
Já no transporte rodoviário a extensão das rotas exige maior integração com as redes de atendimento das montadoras. Neste caso a disponibilidade de peças e serviços em diferentes regiões do País continua determinante para a operação.
A estrutura de suporte ganha relevância quando a empresa incorpora veículos de fabricantes que ainda estão construindo sua presença no mercado brasileiro, caso das chinesas. Ao contratar a locação o cliente passa a contar com a capacidade operacional da locadora, embora a manutenção e a cobertura efetivamente oferecidas dependam das condições de cada contrato.
Frota autônoma já opera no setor sucroenergético
A experiência da Unidas com tecnologias avançadas não começa nos híbridos. A empresa já mantém aproximadamente trezentos caminhões semiautônomos, com a presença do motorista na cabine, em operações do setor sucroenergético, segundo Barbosa.
Os veículos acompanham colhedoras de cana-de-açúcar e realizam manobras com elevado grau de automação. Estes caminhões também recebem configurações específicas para circular nas plantações sem danificar a soqueira da cana, estrutura que permite à planta rebrotar após a colheita. Além disto podem substituir tratores em determinadas tarefas e receber outras aplicações conforme a necessidade da operação.
O exemplo mostra como o ambiente fora-de-estrada permite testar soluções que seriam mais complexas de introduzir imediatamente no transporte rodoviário. Ao mesmo tempo evidencia a importância de avaliar o veículo como parte de uma operação completa, considerando produtividade, consumo, manutenção e versatilidade.
Para a Unidas a negociação dos dez híbridos chineses representa mais um passo nesta ação. A decisão também reforça o papel das locadoras na chegada de novos fabricantes ao mercado brasileiro.























