São Paulo — A participação dos veículos leves eletrificados nas vendas brasileiras poderá chegar a 30% já em 2027, três anos antes do previsto inicialmente pela ABVE, Associação Brasileira do Veículo Elétrico. A projeção foi apresentada por Ricardo Bastos, presidente da entidade, durante o Seminário Eletrificação e Descarbonização, promovido por AutoData, nesta terça-feira, 20. Mas vale ressaltar que a ABVE considera na conta os veículos BEV, PHEV, HEV e HEV Flex, excluindo MHEV.
Para Bastos a expansão do mercado não depende apenas do interesse dos consumidores pela tecnologia ou dos benefícios ambientais: “A eletrificação tende a ganhar corpo pela questão econômica. É uma expansão de negócios, nos quais quem está aplicando o veículo elétrico, principalmente nas atividades no trabalho, está conseguindo ter melhores retornos”.
A avaliação acompanha o avanço das vendas no País. De acordo com os dados apresentados pelo executivo o mercado brasileiro comercializou 381 mil 609 veículos leves eletrificados de janeiro a setembro de 2026. O volume representa 38% de todas as unidades registradas pela série histórica da ABVE, iniciada em janeiro de 2012.
Projeção
Em setembro a frota acumulada chegou a 1 milhão 3 mil 309 veículos. Além disto a ABVE projeta que as vendas de eletrificados somem cerca de 508 mil unidades em 2026, mais que o dobro das 223 mil 912 comercializadas em 2025.
O ritmo de expansão também aparece na participação dos eletrificados nas vendas totais de veículos leves. Segundo a apresentação o índice passou de 5% em novembro de 2023 para 22% em agosto de 2026.
Para 2027 a projeção é chegar a 30%, o equivalente a aproximadamente 900 mil unidades, caso o mercado total mantenha volume próximo de 3 milhões de veículos por ano: “É um número que projetamos chegar por volta de 2030. Daqui a pouco, praticamente, um terço das vendas no Brasil serão de veículos eletrificados”.

Oferta maior e custo de uso favorecem a demanda
Para o presidente da ABVE a ampliação da oferta de modelos em diferentes categorias e faixas de preço contribui para tornar a eletrificação mais acessível. Bastos destacou que o mercado brasileiro oferecia 403 modelos eletrificados, de 66 marcas, até setembro de 2026. Alguns já custavam menos de R$ 100 mil: “Você pode comprar um veículo ideal para sua necessidade, para as distâncias que vai percorrer, para o seu negócio”.
Bastos também destacou o custo total de propriedade, TCO, que considera não apenas o investimento inicial mas também as despesas de utilização do veículo. Segundo ele a economia operacional favorece a adoção dos eletrificados, especialmente em atividades profissionais e frotas: “O custo total de propriedade, que é o de uso, considerando também não só o investimento inicial, está muito favorável hoje”.
A apresentação apontou ainda que o Brasil já contava com mais de 90 mil carros eletrificados utilizados por motoristas de aplicativos, além de mais de 7 mil motos elétricas, conforme dados da Aliança pela Mobilidade Sustentável.
Apesar disto o executivo avalia que ainda há espaço para o lançamento de novos modelos. Ele citou segmentos que podem ampliar a participação dos eletrificados, focados no transporte de cargas: “Acredito que em 2027 este é um segmento de picapes de carga que vai crescer bastante. Assim como o de utilitários”.
Produção local precisa avançar
Outro ponto destacado foi a participação da indústria nacional na cadeia de eletrificação. Com a instalação e a retomada de fábricas no País a produção local de veículos eletrificados começa a ampliar sua participação, mas ainda depende de componentes importados.
Segundo os dados apresentados veículos fabricados no Brasil ou montados em regime CKD/SKD responderam por 38% do mercado em setembro. Os modelos importados completos representaram os outros 62%. De janeiro a setembro as médias foram de 35% e 65%, respectivamente.

Bastos avaliou que o aumento da produção nacional deve abrir oportunidades para a indústria de autopeças à medida que as fabricantes estabeleçam parcerias com fornecedores locais e ampliem a utilização de componentes produzidos no Brasil: “Nós estamos só começando esta jornada. A produção começou no ano passado, é muito recente, e precisa agora avançar também no conteúdo local”.
O executivo também citou o programa Mover, do governo federal, uma das políticas relacionadas ao desenvolvimento da cadeia nacional: “O que precisamos é de volume para que esses projetos se tornem viáveis”.
Além de componentes tradicionais ele considera possível avançar na produção nacional de baterias e componentes eletrônicos. Foi destacado o potencial dos veículos híbridos plug-in com motores a combustão capazes de utilizar etanol — “O único lugar onde você pode fazer isto é aqui, no Brasil”.
Desafios
A expansão da frota também exige investimentos em infraestrutura. Segundo dados da ABVE o Brasil já superou 30 mil pontos públicos e semipúblicos de recarga, com avanço dos carregadores rápidos, que permitem reduzir o tempo de parada dos veículos. A tendência é que a expansão da rede continue em 2027, principalmente nos equipamentos de recarga rápida e de oportunidade.

Ricardo Bastos também destacou a regulamentação para a instalação de carregadores em condomínios. O Estado de São Paulo, afirmou, dispõe de legislação avançada, que começa a servir de referência para outras regiões.
Em paralelo a isso o presidente da ABVE também propôs o avanço de políticas públicas e de um plano nacional de eletromobilidade. A iniciativa, segundo ele, poderia orientar investimentos em infraestrutura nas estradas, corredores de recarga e mecanismos de financiamento: “Não é algo que está atrapalhando mas pode impulsionar os investimentos”.
Ônibus elétricos ampliam presença
A eletrificação também avança no transporte coletivo. Segundo Bastos a cidade de São Paulo já superou 2 mil unidades de ônibus elétricos em circulação e a frota brasileira ultrapassou 2,2 mil veículos, colocando o País na segunda posição da América Latina em número de ônibus elétricos.
Ele ressaltou que a ampliação da frota nacional pode contribuir para aumentar a capacidade produtiva e fortalecer a presença brasileira nos mercados externos. Colômbia, México e Chile também ampliam a eletrificação dos transportes: “É uma grande oportunidade para o Brasil continuar sendo um exportador de veículos pesados”.























