Margarete Gandini falou sobre o programa do governo federal no Congresso Megatendências
São Paulo — A indústria automotiva brasileira ocupa lugar singular na economia nacional. A análise é de Margarete Gandini, diretora do departamento de desenvolvimento da indústria de alta-média complexidade tecnológica do MDIC, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, que falou sobre os programas do governo federal e especificamente sobre o Mover durante o Congresso Megatendências 2026, realizado por AutoData em São Paulo.
“É uma plataforma estratégica para a produção industrial, a inovação tecnológica e a descarbonização do País”, afirmou, destacando que o setor funciona como núcleo organizador de toda a indústria nacional, empregando 1,3 milhão de trabalhadores e conectando cadeias que vão da siderurgia ao alumínio, dos plásticos à eletrônica embarcada.
Estruturado para quinze anos, e alinhado às missões de mobilidade, logística e transição energética, o Mover representa o maior ciclo de investimentos do setor automotivo no Brasil. Os créditos fiscais previstos somam R$ 19,3 bilhões, dos quais R$ 10,4 bilhões já estão autorizados, o que alavancou anúncios de investimento de aproximadamente R$ 190 bilhões por parte de montadoras e autopeças.
Margarete considera o Mover o programa mais transformador da política industrial, que evoluiu de iniciativas anteriores e incorpora aspectos como pegada de carbono, ciclo de vida e reciclagem de materiais, com novos elementos previstos em ciclos futuros. Apesar do sucesso há regulamentações pendentes em discussão, incluindo declarações, conteúdo local, reciclagem e fiscalização, envolvendo diferentes setores e atores para garantir uma visão colaborativa.
A transição para um imposto seletivo, que substitui o IPI Verde e inclui critérios adicionais como densidade tecnológica e pegada de carbono, está prevista para ser regulamentada no próximo ano. Segundo ela a reforma tributária buscará reduzir a carga tributária, prevista para entrar em vigor em janeiro de 2027, a fim de fortalecer a indústria nacional e promover uma nova fase de crescimento.
Margarete Gandini, diretora do departamento de desenvolvimento da indústria de alta-média complexidade tecnológica do MDIC. Fotos: Bruna Nishihata.
A visão de longo prazo, projetada para 2040, propõe uma transformação conceitual profunda: “Não estamos falando apenas de uma indústria de veículos. Estamos construindo uma indústria de mobilidade e logística”.
Ela descreveu ecossistema que integra descarbonização, inovação, adensamento produtivo, inserção internacional e renovação contínua da frota. As políticas, nesta perspectiva, precisam articular veículos, infraestrutura energética, conectividade e reciclagem de forma sistêmica.
Este ecossistema se organiza em cinco dimensões. A dimensão verde aposta em economia circular, regulamentação pelo ciclo de vida completo e um sistema de bônus e malus no imposto seletivo, além de valorizar o que Margarete chama de “narrativa brasileira de mobilidade de baixo carbono”. A dimensão tecnológica reconhece que a conectividade redefine o setor – eletrônica embarcada, sistemas de controle, comunicação em tempo real e serviços digitais passam a ser centrais –, exigindo maior densidade produtiva local para reduzir a dependência de importações de módulos e software.
A dimensão integrada pressupõe um ecossistema industrial coordenado, em que montadoras compram mais componentes nacionais e fornecedores participam desde o início do desenvolvimento do produto. “Inovação, produção e logística precisam convergir”.
A dimensão exportadora projeta o Brasil como plataforma regional de produção para a América do Sul, exportador de mobilidade limpa com rota tecnológica própria – biocombustíveis e eletrificação seletiva, incluindo híbridos e híbridos leves –, com foco em mercados de renda média e exportação de autopeças e engenharia tropicalizada. A dimensão competitiva traz uma mudança de métrica: “O objetivo não é apenas produzir mais veículos. É reter mais valor industrial por veículo produzido”.
A tropicalização passa a ser premissa do desenvolvimento e a produtividade deve crescer em toda a cadeia, integrando montadoras, sistemistas e fornecedores, com incentivos à automação, digitalização, novos materiais e fortalecimento das ferramentas de engenharia local.
Margarete concluiu ser fundamental transformar a indústria automotiva brasileira em uma plataforma nacional de mobilidade sustentável que, para além de seus próprios produtos, impulsione dezenas de outros setores econômicos e de serviços – conectando fabricantes, fornecedores, energia, logística e regulação em torno de plano e objetivos comuns.