São Bernardo do Campo, SP – A Fenatran 2026, que será realizada de 9 a 13 de novembro no SP Expo, em São Paulo, desponta como o principal termômetro de negócios do segmento de caminhões, devendo ditar o ritmo de produção e emplacamentos da indústria no primeiro trimestre de 2027, quando as entregas serão realizadas. Para a Mercedes-Benz, que evitou projetar números absolutos de vendas durante a feira, o desempenho deverá ficar em torno de 10% abaixo do registrado em 2024, marcada por resultados recordes.
Foi o que estimou Jefferson Ferrarez, vice-presidente de vendas, marketing, peças e serviços de caminhões da empresa, durante evento para apresentar lançamentos programados para a Fenatran e em celebração aos 70 anos de história da Mercedes-Benz no Brasil. Embalada pela consolidação do Euro 6 a fabricante vendeu toda a produção de 2025 durante a feira para atender a encomendas planejadas de grandes frotistas.
Além da base de comparação elevada a retração é vista por Ferrarez com naturalidade em meio ao cenário de juros elevados e crédito escasso, e devido à antecipação de compras promovida pelo Move Brasil, que sanou temporariamente a maior dor do setor transportador em busca de financiamento a juros subsidiados para renovar e ampliar a frota.
“Outro ponto é que nosso segmento é muito impactado pela confiança do cliente e pelo humor do mercado. Neste quesito é preciso considerar, ainda, os reflexos do resultado da eleição”, avaliou. “Mesmo assim, vemos que existe demanda reprimida e que, dois anos após a última feira, o transportador buscará renovar sua frota.”

Concorrência chinesa x pós-venda
É preciso pôr nesta conta também o fato de haver, nesta edição da Fenatran, uma concorrência chinesa outrora inexpressiva. Agora sete fabricantes de caminhões desta origem estarão presentes na feira com planos agressivos de preço e novidades tecnológicas dispostas a conquistar fatia no mercado dos pesados.
Para Ferrarez, a princípio, esta presença ostensiva não assusta: “A dinâmica do mercado de caminhões difere profundamente do de automóveis e comerciais leves, e até mesmo do de ônibus”. O valor de aquisição, justificou, concorre com o TCO, custo total de propriedade, o valor de revenda e a capacidade de manter os veículos em operação contínua. Por este motivo sua avaliação é que uma guerra de preços não deve alterar drasticamente a divisão de mercado no curto prazo.
“A questão de serviços e de disponibilidade é crucial. Não adianta chegar no País lançando algo com um preço atrativo e um ponto de venda e achando que isso basta. O cliente de caminhão faz a conta do ciclo total, incluindo a revenda e, principalmente, a segurança que terá na operação”, afirmou. “Ele não pode correr riscos com disponibilidade e prazos. Por isto não imagino que esta concorrência impactará tanto em um primeiro momento. Nossa maior arma é o pós-venda, a capilaridade da rede e o conhecimento da aplicação do cliente.”
2027 sem Move Brasil, que será pleiteado
Ferrarez admitiu que o setor tem a intenção de pleitear ao governo eleito mais uma leva do Move Brasil, calcado no fato de que as perspectivas econômicas apontam para a manutenção dos juros em bases elevadas. Se a Selic hoje está em 13,75% ao ano o Boletim Focus projeta que, no fim de 2027, chegue aos 12% ao ano. E, mesmo sem qualquer indicativo de que nova versão do programa com taxas subsidiadas possa ser anunciada, o executivo acredita que existe necessidade latente por caminhões 0 KM.
“Chega um momento em que, quando o transportador compara o custo operacional com o custo financeiro de veículos novos, está no momento de trocar caminhão, mesmo com essa taxa de juros elevada e com certa restrição de crédito. É preciso haver a renovação de frota se não fica mais caro ele continuar com o caminhão do que encarar esta taxa de juros.”
O vice-presidente da Mercedes-Benz assegurou a existência de demanda reprimida de expressivo volume de caminhões que não foram substituídos nos últimos dois a três anos justamente pela situação econômica.
Comércio eletrônico deve puxar renovação
Esta necessidade de renovação – e o otimismo por parte da montadora – têm sido impulsionados por setores com ritmo forte de atividade, como a mineração, a construção civil e, especialmente, o e-commerce, que está reconfigurando a logística nacional com a abertura de novos centros de distribuição por todo o País. O avanço das vendas digitais exige frotas novas e eleva a régua do nível de serviço prestado pela indústria automotiva:
“O e-commerce está realmente transformando o setor de caminhões em todos os segmentos, não só nos leves. Estávamos acostumados a trabalhar o mercado com 96% a 97% de disponibilidade, que já é um nível bem alto. Mas o cliente do comércio eletrônico está solicitando disponibilidade acima de 98%, o que traz série de desafios, porque não só o veículo tem de estar à mão como as revisões, a manutenção e oferta de peças precisam estar à disposição.”
Por este motivo Ferrarez estima que, para o ano que vem, o mercado deva se manter na mesma base do que é projetado para o fim de 2026 para o segmento acima de 7 toneladas: volume consolidado de 102 mil a 103 mil unidades, recuo de 3% a 5% em comparação com o ano passado.
























