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O alerta que vem da Tailândia

A transformação traumática que um dos principais polos automotivos da Ásia está enfrentando mostra porque o próximo governo brasileiro terá de acompanhar com muita atenção os efeitos da eletrificação sobre produção, fornecedores e empregos

O resultado das urnas renova minha expectativa de que o Brasil dará continuidade à valorização da indústria como instrumento de desenvolvimento. Foi com esta perspectiva, e orientado pelos valores democráticos e humanistas que sempre conduziram minhas escolhas pessoais e empresariais, que fiz minha opção nesta eleição.

Para quem acompanha há mais de quatro décadas o setor automotivo desenvolver a indústria significa criar oportunidades, formar profissionais e ampliar a capacidade do País de gerar conhecimento e renda. E é por estes resultados que considero necessário avaliar as políticas públicas.

A continuidade do governo oferecerá a oportunidade de consolidação deste caminho. E também aumentará a responsabilidade de acompanhar seus resultados e corrigir rumos. A transformação automotiva é processo dos que mais exigirão este cuidado. E a experiência que está sendo vivida na Tailândia neste momento traz um alerta que merece chegar rapidamente à mesa do presidente reeleito.

Uma reportagem recente do jornal The New York Times que foi republicada pelo Estadão aqui no Brasil chamou minha atenção para o que está acontecendo na Tailândia. Importante base de fabricação e exportação de veículos, construída sobretudo com investimentos de montadoras japonesas, o país atravessa uma transformação que combina a expansão dos eletrificados com dificuldades para parte de sua estrutura industrial. A chegada de novas fabricantes e tecnologias convive com pressões sobre empresas instaladas e seus fornecedores tradicionais — um movimento que merece atenção também no Brasil.

Em maio dez entidades da indústria automotiva e de autopeças tailandesa advertiram o governo sobre os efeitos da concorrência de elétricos chineses que estão sendo importados sem tarifa. Relataram dificuldades para fabricantes locais e perda de encomendas para fornecedores, cobrando uma revisão urgente das políticas de incentivo.

O alerta surgiu em um país que atraiu mais de US$ 4 bilhões em investimentos ligados aos veículos elétricos, incluindo projetos de BYD e Great Wall Motor. A chegada destes recursos, portanto, não eliminou a necessidade de cuidar da cadeia produtiva e ajustar os instrumentos de política industrial. Qualquer semelhança com o que estamos acompanhando no Brasil não é mera coincidência, garanto.

Também seria incorreto atribuir todas as dificuldades tailandesas à eletrificação ou às fabricantes chinesas. O endividamento das famílias e as restrições de crédito pesaram sobre o mercado. Há uma combinação de problemas econômicos com mudanças na estrutura da indústria. Outra coincidência?

É lógico que o Brasil tem características diferentes. A dimensão de seu mercado, sua estrutura tributária, a presença dos biocombustíveis e sua base de engenharia exigem uma análise própria. Seria precipitado apresentar a trajetória tailandesa como um cenário do que poderá acontecer por aqui. Mas certamente seria igualmente imprudente ignorar as questões que ela levanta.

A primeira delas é o significado econômico da produção local. Uma nova fábrica pode gerar empregos e movimentar serviços, mas seus efeitos sobre o desenvolvimento industrial dependem também das compras que serão feitas no País, da engenharia utilizada, da qualificação dos trabalhadores e da incorporação dos fornecedores aos novos projetos.

Precisamos sempre e necessariamente acompanhar muito de perto, portanto, quanto dos investimentos anunciados se transformarão em capacidade brasileira de produzir, desenvolver e exportar. O número de unidades que serão montadas é relevante, é lógico, mas não basta para medir a contribuição de um projeto para a economia nacional.

A segunda questão é a velocidade da transição. Isto porque empresas que hoje fornecem peças para motores, transmissões e outros sistemas precisarão de tempo, capital e acesso a projetos para diversificar suas atividades.

A expansão dos eletrificados poderá criar oportunidades em baterias, eletrônica e sistemas de controle. A participação dos fornecedores brasileiros nestes negócios, porém, dependerá de condições concretas de competitividade, acesso à tecnologia e qualificação profissional. Não acontecerá automaticamente.

A terceira questão é o equilíbrio da concorrência com o investimento. Mais opções, inovação e preços competitivos realmente beneficiam o consumidor. Mas cabe à política pública criar condições para que estes ganhos também sejam acompanhados pelo fortalecimento da capacidade de produzir no Brasil.

Esta responsabilidade alcança tanto as montadoras que estão chegando quanto as que já estão instaladas por aqui. Os critérios precisam ser transparentes e orientados pelos resultados industriais de cada projeto, independente da nacionalidade de seu controlador.

A Nova Indústria Brasil e o Mover já oferecem instrumentos para apoiar o desenvolvimento produtivo, a inovação e a descarbonização. Mas sua continuidade precisa vir acompanhada de avaliação permanente: quais tecnologias estão sendo desenvolvidas aqui, quantos fornecedores participam dos projetos e que competências o País está adquirindo?

O governo, no seu novo mandato, obrigatoriamente terá de articular política industrial, comércio exterior, crédito, energia, ciência e tecnologia e formação profissional. Também precisará avaliar se os incentivos concedidos estão produzindo os efeitos esperados e corrigir medidas quando os resultados se mostrarem insuficientes.

A experiência tailandesa sugere que atrair investimentos para uma nova tecnologia e fortalecer uma cadeia industrial competitiva são tarefas relacionadas, mas cada uma exige instrumentos e acompanhamento próprios.

O Brasil terá de administrar essa transformação enquanto enfrenta seus conhecidos problemas de custo, produtividade, infraestrutura e inserção internacional. A qualidade dessa condução ajudará a definir o papel que o País ocupará na indústria automotiva dos próximos anos.

É com essa expectativa de continuidade e com a independência de quem acompanha o setor que dirijo este alerta ao governo: a transformação automotiva precisa ser tratada como uma prioridade permanente. As decisões tomadas agora influenciarão quanto o Brasil será capaz de produzir, desenvolver e exportar. E, sobretudo – o que considero ainda mais importante –, quantas empresas e quantos trabalhadores participarão desse futuro.

vwco

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